Retrato
em branco e preto
Com oito ou nove anos, a menina era mais
velha do que eu dois ou três, ia à escola, era cativante sem forçar a barra. Do
pouquíssimo que resta de quem fui nos anos sessenta, na penumbra dessa vez, no
que acreditei ter visto, ela fez sombras virarem gente. Apavorado, não notei
que as palavras que conjuraram a aparição partiam da espertinha.
Porque imaginário, o perigo era real.
Era real, porque a imaginação amedrontada era minha. O monstro crescia com o
medo. Tal realidade criada na hora: assombrava-me o que surgia, não a sua
criadora.
Queria correr dali, e escapuli. Só não escapei
do seu poder.
Quem dera não abismassem essas magias, a
memória, porém, tem seus caprichos. Aquele sentimento, posso acessá-lo às vezes.
Em geral, quando não sou submetido a
situações aterrorizantes, me saio bem. Entretanto, não nego que perco o
controle quando o chão se abre sob os meus pés.
As palavras não armam nenhuma rede de
proteção, daí que minhas quedas serão sempre patéticas. Não resisto. De tombo
em tombo, vou aprendendo. Admito, tenho mesmo essa fraqueza por histórias.
Como quem morde pão quentinho, ouço-as.
Como quem esquenta o pão de ontem, leio-as. Como quem não abusa do sal,
escrevo-as.
Se tenho a receita? Que coisa boa! Tenho
nada.
Sem que me ache uma pomba esfomeada,
também admito que não desprezo migalhas. Encontro-as, papo-as. Bico-as, e quero
mais. Vou por aí, querendo-as sempre, mais e mais.
Ai caramba! Como pobre-diabo, arrulho ao
deus-dará.
No período de minha vida em que os meus
olhos bicavam toda sorte de história, tive orientação em casa. O meu pai foi o
leitor eclético que me apresentou a jornais, revistas, enciclopédias e livros
de ficção e de não ficção. De Tesouro da Juventude a Histórias Extraordinárias.
Ele lia de tudo. Começava todo tipo de
leitura, o que não implicava que terminasse. Como nem tudo era agradável ou
instrutivo, sem fazer cerimônia, ele abandonava.
Ler é bom, mas falar sobre o que se lê também
é bom.
E o meu pai gostava de conversar depois
da janta. E a gente ficava proseando sem obrigação de piruetas lógicas,
acrobacias inteligentes, malabarismos filosóficos.
Sentávamos, papeávamos, íamos dormir. Poderíamos
continuar, e nós continuávamos, portanto.
Recomendando-me que fosse anotando observações
à margem do texto, ganhei um livro que me fez pensar no futuro.
O romance era impactante, é. Havia o
retrato de um país devastado. Com rios contaminados, fome generalizada, população
mal-informada, ciclistas selvagens e lixo, muito lixo.
Que país é esse?
O medo fabrica monstros. O perverso
impressiona. Por temer o que ignora, o indefeso dá ao maldoso mais poder que
ele possa ter. O cruel se apraz na dor que provoca em quem confia cegamente.
Esta terra tanto assombra, desola, deprime,
envergonha, que eu até rio, rio de tanto desgosto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de agosto de 2022.
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