terça-feira, 9 de agosto de 2022

Muito bem

 

Muito bem

 

Falador descarado, falando ao celular, rego as mimosas da floreira. Pessoa bem tranquila, sou um sujeito tão calmo que acho dispensável que peçam para me acalmar. Se exibo trejeitos de homem a quem nem ocorre que saliva humana tenha química corrosiva às plantinhas, é ele, esse homem sossegado, que solta bobagens quando nervoso.

Como janelas sem cortina facilitam a vida dos bisbilhoteiros, deveria me sentir nu, porém me empolgo. Mesmo que a rua interprete mal meu entusiasmo, gesticulo aos beócios do outro lado da linha. Tenho razão justamente porque não me envergonho de frente pros outros.

Se falasse pouco, pausadamente, com voz baixa, os trabalhadores da construção nem notariam minha fúria. Creio que homens furibundos quebram a indiferença: se não gero simpatia, gero piedade.

Apiedo-me de mim, pois tenho consciência de que uma vida banal, maçante e rotineira é recomendável a quem se descontrola ao perceber que o contrariam por qualquer coisa. Como passar raiva não é bom pro coração, pequenas doses de comiseração fazem bem.

Longe de mim querer pensar duas vezes diante do que não engulo. Porque serenidade não faz de mim alguém mais inteligente, muito mais perspicaz ou verdadeiramente destemido, encoraja-me ser franco.

Simpatizo-me com as mimosas, porém, enquanto arranco o que me parecem ser matinhos invasores, não preciso largar o telefone.

Tranquilizo-me depois de finalizar o que tenho para falar. Embora a mente calma saiba que dizer tudo não implica que os problemas sejam resolvidos com presteza, desacelero-me.

Menos barulhento, vejo a rua. Na banalidade das rotinas, vai a vida.

Alertam-me as entranhas que o vivo aqui nem tomou café. Vou sem alardes, sem mover mundos e fundos. Simplesmente vou e bebo.

Quem pretende melhorar que se pareça melhor.

Todavia, não agitem o copo de café. Cobrem celeridade, mas sem ansiar que as aflições me tornem menos ridículo.

Quero beber o meu café. Quero saborear o tempo a que me dedico bebê-lo. Não me perturbem enquanto bebo meu cafezinho.

Não é coisa que se faça. Não tem nada de ridículo. É pirraça, coisa de gente trapaceira que ataca no contrapé.

Posso engasgar com um golinho, mas reajo. Tento me defender da melhor forma que conheço: rindo por quinze segundos.

Gente, nada de drama!

Até parece que quinze segundos são quinze minutos. E pela lei de Warhol, posso gozar quinze minutinhos de fama que tudo bem.

Como assim, não tenho que fazer hora para agir decidido? Pra fazer papelão, nem devo perder tempo?

Pois bem.

Eu seria outra pessoa se mirasse na gatinha mastigando brotos de milho. Não a observaria na caixa de areia enquanto estivesse fazendo necessidades. Como animal elegante, só depois de cobrir a mijadinha, eu miaria. E teria concordado com a veterinária que mandou arrancar a citronela que ultimamente tem feito mal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de agosto de 2022.

 

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