Falador
descarado, falando ao celular, rego as mimosas da floreira. Pessoa bem
tranquila, sou um sujeito tão calmo que acho dispensável que peçam para me acalmar.
Se exibo trejeitos de homem a quem nem ocorre que saliva humana tenha química corrosiva
às plantinhas, é ele, esse homem sossegado, que solta bobagens quando nervoso.
Como
janelas sem cortina facilitam a vida dos bisbilhoteiros, deveria me sentir nu, porém
me empolgo. Mesmo que a rua interprete mal meu entusiasmo, gesticulo aos beócios
do outro lado da linha. Tenho razão justamente porque não me envergonho de
frente pros outros.
Se
falasse pouco, pausadamente, com voz baixa, os trabalhadores da construção nem notariam
minha fúria. Creio que homens furibundos quebram a indiferença: se não gero
simpatia, gero piedade.
Apiedo-me
de mim, pois tenho consciência de que uma vida banal, maçante e rotineira é
recomendável a quem se descontrola ao perceber que o contrariam por qualquer
coisa. Como passar raiva não é bom pro coração, pequenas doses de comiseração
fazem bem.
Longe
de mim querer pensar duas vezes diante do que não engulo. Porque serenidade não
faz de mim alguém mais inteligente, muito mais perspicaz ou verdadeiramente destemido,
encoraja-me ser franco.
Simpatizo-me
com as mimosas, porém, enquanto arranco o que me parecem ser matinhos
invasores, não preciso largar o telefone.
Tranquilizo-me
depois de finalizar o que tenho para falar. Embora a mente calma saiba que
dizer tudo não implica que os problemas sejam resolvidos com presteza,
desacelero-me.
Menos
barulhento, vejo a rua. Na banalidade das rotinas, vai a vida.
Alertam-me
as entranhas que o vivo aqui nem tomou café. Vou sem alardes, sem mover mundos
e fundos. Simplesmente vou e bebo.
Quem
pretende melhorar que se pareça melhor.
Todavia,
não agitem o copo de café. Cobrem celeridade, mas sem ansiar que as aflições me
tornem menos ridículo.
Quero
beber o meu café. Quero saborear o tempo a que me dedico bebê-lo. Não me
perturbem enquanto bebo meu cafezinho.
Não
é coisa que se faça. Não tem nada de ridículo. É pirraça, coisa de gente trapaceira
que ataca no contrapé.
Posso
engasgar com um golinho, mas reajo. Tento me defender da melhor forma que
conheço: rindo por quinze segundos.
Gente,
nada de drama!
Até
parece que quinze segundos são quinze minutos. E pela lei de Warhol, posso gozar
quinze minutinhos de fama que tudo bem.
Como
assim, não tenho que fazer hora para agir decidido? Pra fazer papelão, nem devo
perder tempo?
Pois
bem.
Eu
seria outra pessoa se mirasse na gatinha mastigando brotos de milho. Não a observaria
na caixa de areia enquanto estivesse fazendo necessidades. Como animal
elegante, só depois de cobrir a mijadinha, eu miaria. E teria concordado com a
veterinária que mandou arrancar a citronela que ultimamente tem feito mal.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 09 de agosto de 2022.
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