Amor
livre
Com indignação, contaram-me este caso da
celebridade que ousou sambar sobre o pavilhão nacional. Abalado pela prepotência
ultrajante da relatada, fui tomado por uma força abissal. Parido pela memória, à
tona não veio um mamute; num rato, degelei-me mentecapto.
Deste instante em diante, nunca mais
serei quem achava que era até agora. Como houve tal gatilho, esse disparo à
queima-roupa, entrei na dança sem nem atinar qual a seta ou qual o alvo.
Assim perdido, peço às luzes da
sabedoria que iluminem os meus cômodos escuros, obscuros, mesmo tenebrosos, pois
houve um tempo que, reles, coitado e panaca, fui mesmo um aluno.
Eram dias de ensino médio na Maria
Angerami Scalamandré. Lá na escola eu tinha amigos, alguns colegas e muitos conhecidos.
Todavia, éramos todos condôminos de um rincão paulista chamado Ibiúna.
Na hierarquia do colegial, os alunos
estávamos na base.
E uma vez alocados na base, ou vestíamos
o avental com o brasão da escola ou, no portão, barrar-nos-iam os serventes, operadores
da ordem. Sem escolha com os ordeiros, saíamos já uniformizados.
Éramos estudantes, tínhamos nossas
obrigações de colegiais. Os cadernos tinham pauta. O polegar media o início do
parágrafo a partir do traço da pauta. A primeira letra do parágrafo era
necessariamente maiúscula. Como éramos alunos, havíamos de seguir o ordenamento
pra escrita. Aprendíamos a aprender que tínhamos que aprender e as notas azuis
na caderneta mediam o tanto que tínhamos aprendido das lições que nos foram
dadas.
Estudantes são alunos. Os alunos que
reclamam pro bispo estão errados. Alunos precisam estudar o catecismo,
respeitar as regras que comungam com os demais membros da mesma igreja e,
obedientes e fiéis à ordem comungada, servirem de exemplo a alunos menores.
Sejam sempre respeitados os adultos
exemplares que fazem leis e regramentos inteligentes, pois adultos são pessoas
lúcidas, adoráveis e sabem mais da vida que os jovens.
Os jovens? Os jovens acham que sabem
mais do que todo mundo, até mais que o pai e a mãe que também foram alunos, mas
estudaram, dedicaram-se a aprender o que lhes era dito pra aprender e assumirem
como pai e mãe de alunos em casa, na igreja e na escola.
Caramba, os jovens alunos que não se
envergonham de proclamar a torto e a direito que sabem que a escola da vida
ensina a se virar na hora do aperto. Entretanto o mundo não ensina, ele deseduca.
Na hora do hino, quem aprende a viver
pelas regras do mundo não canta. Ele poderia ficar cabisbaixo, tentar se
esconder entre os outros, mas o arrogante nem finge que tem boca pra amar o
hino nacional.
E chegamos àqueles que se dizem
democratas porque queimam a bandeira da nação encarnada nas cores da pátria.
Mas aprendemos, e somos homens livres,
ordeiros e benevolentes, porque em nossos corações reina a flâmula augusta de
Pasárgada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de julho de 2022.
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