quinta-feira, 28 de julho de 2022

Amor livre

 

Amor livre

 

Com indignação, contaram-me este caso da celebridade que ousou sambar sobre o pavilhão nacional. Abalado pela prepotência ultrajante da relatada, fui tomado por uma força abissal. Parido pela memória, à tona não veio um mamute; num rato, degelei-me mentecapto.

Deste instante em diante, nunca mais serei quem achava que era até agora. Como houve tal gatilho, esse disparo à queima-roupa, entrei na dança sem nem atinar qual a seta ou qual o alvo.

Assim perdido, peço às luzes da sabedoria que iluminem os meus cômodos escuros, obscuros, mesmo tenebrosos, pois houve um tempo que, reles, coitado e panaca, fui mesmo um aluno.

Eram dias de ensino médio na Maria Angerami Scalamandré. Lá na escola eu tinha amigos, alguns colegas e muitos conhecidos. Todavia, éramos todos condôminos de um rincão paulista chamado Ibiúna.

Na hierarquia do colegial, os alunos estávamos na base.

E uma vez alocados na base, ou vestíamos o avental com o brasão da escola ou, no portão, barrar-nos-iam os serventes, operadores da ordem. Sem escolha com os ordeiros, saíamos já uniformizados.

Éramos estudantes, tínhamos nossas obrigações de colegiais. Os cadernos tinham pauta. O polegar media o início do parágrafo a partir do traço da pauta. A primeira letra do parágrafo era necessariamente maiúscula. Como éramos alunos, havíamos de seguir o ordenamento pra escrita. Aprendíamos a aprender que tínhamos que aprender e as notas azuis na caderneta mediam o tanto que tínhamos aprendido das lições que nos foram dadas.

Estudantes são alunos. Os alunos que reclamam pro bispo estão errados. Alunos precisam estudar o catecismo, respeitar as regras que comungam com os demais membros da mesma igreja e, obedientes e fiéis à ordem comungada, servirem de exemplo a alunos menores.

Sejam sempre respeitados os adultos exemplares que fazem leis e regramentos inteligentes, pois adultos são pessoas lúcidas, adoráveis e sabem mais da vida que os jovens.

Os jovens? Os jovens acham que sabem mais do que todo mundo, até mais que o pai e a mãe que também foram alunos, mas estudaram, dedicaram-se a aprender o que lhes era dito pra aprender e assumirem como pai e mãe de alunos em casa, na igreja e na escola.

Caramba, os jovens alunos que não se envergonham de proclamar a torto e a direito que sabem que a escola da vida ensina a se virar na hora do aperto. Entretanto o mundo não ensina, ele deseduca.

Na hora do hino, quem aprende a viver pelas regras do mundo não canta. Ele poderia ficar cabisbaixo, tentar se esconder entre os outros, mas o arrogante nem finge que tem boca pra amar o hino nacional.

E chegamos àqueles que se dizem democratas porque queimam a bandeira da nação encarnada nas cores da pátria.

Mas aprendemos, e somos homens livres, ordeiros e benevolentes, porque em nossos corações reina a flâmula augusta de Pasárgada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de julho de 2022.


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