Uma
paradinha
Posso parar? Preciso, e paro.
Não vou pro mundo; se ele quiser, que
venha. Só não garanto que vou recebê-lo com entusiasmo, mas terei o mínimo de
civilidade.
Será recebido com sorriso, ainda que
apático, indiferente, de idiota que se percebe anestesiado pela presença
massacrante de notícias nem um pouco alegres. A realidade que o mundo apresenta
não tem sido fácil de testemunhar.
Meus olhos não enxergam nenhuma natureza
morta no arranjo de TV, micro e telefone desligados. Não há beleza, há banalidade.
Então, cortês, puxarei uma cadeira ao
meu lado e, como remanso, oferecerei alguma prosa recheada de amenidades.
Ando precisando de um descanso das
aflições que só me apertam o nó no peito, e o fio da tesoura está cego. Garanto
que esteja, pois o meu farol está fraco e não vejo o caminho. Este nevoeiro
angustiante penetra-me a pele e rói-me os ossos. O aperto vem de mim, e preciso
respirar com naturalidade.
Hoje, só por hoje, que este mundo cheio
de becos sem saída leve em consideração o meu pedido: que me venha amigável.
Confesso, tantas carências estão pedindo
atenção; e não as quero ignoradas ou mal atendidas. Todavia, para que eu
consiga manter-me digno enquanto me recupero pra seguir atento, recorro a
expedientes cotidianos: um café passado na hora, com uma torrada acariciada por
um patê de alho e a calma para o prazer de ter a tarde para desfrutar de alguma
serenidade.
Venha, mundo, mas venha preparado para
meus ouvidos moucos. A minha surdez é temporária, de quem não lamenta a falsa
proteção do precário, que o caos da vida dilacera a fissura, a alma sobe à pele
tal qual estalagmite. Esta emersão fere, surdamente pulsa, o cérebro tenta
equilibrar-se em desconforto, aliviar-se. Sofro, porque caverna rugosa não é
casca, é mais que casa, é casulo das tensões em flor.
Embora possa pouco, não desejo que me
assaltem abstinências torpes a violentar-me e a quem esteja por perto. A minha
sede mudou de tom. Sei quão distante estou das biritas. Bebo água aos
tiquinhos, fazendo bico de pintassilgo. Gorjeio.
Na mansidão que penso estar nutrindo, espero
que os males da vida não me enxotem com seus fatos zombando de mim.
Quero folga.
Que o mundo faça a gentileza de entrar
em minha casa sem fazer alarde de seus abismos e suas carnificinas. Iludo-me, eu
sei.
O mundo não cabe nesta esperança de paz
que julgo ter direito a acalentar, é ilusão de parvo, bem sei.
Pó pará?
Antes de pôr os fones, corro os nomes
que o algoritmo selecionou por mim. Entre as sugestões, desponta o Prefeitinho.
Topo a parada.
Tão necessária, esta alegria repousa as
minhas pálpebras, adoça o balanço dos meus nervos e estimula a bonança do meu
recesso, é que Pedro Miranda convida e, Da Gávea para o mundo, eu vou.
Ouvido o disco, finda a festa?
Não rejuvenesço, mas assobio e batuco;
ouço de novo.
De boa, que paradinha maneira.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de abril de 2021.