quinta-feira, 22 de abril de 2021

Pé de inhaca

 

Pé de inhaca

 

Com os jornais lidos, parto para uma pera. Comer um pouquinho de três em três horas sossega as labaredas do meu estômago.

Poderia jogar a culpa do meu desarranjo na leitura, porém a minha barriga já estava alvoroçada antes do almoço.

Acordei com esta âncora, o asco, a me pesar um bocado. E o mar tão revolto abre úlceras abrasivas que até o bafo fede a brejo.

Nojento, eu sei. E não aceito que me desculpem a transformação da realidade em hálito repugnante. Falta-me filtro, ou alma mais leve.

Mesmo os meus sonhos andam cavando poços sem água. E sem água, a minha saliva azeda borboletas e pirilampos. O recomendável é que eu permaneça quieto, ou dê exemplo de pesadelo ácido.

Incomodado comigo pela falta de equilíbrio, saí da cama como se tivesse realmente comido a noite inteira.

Havia uma comida bastante vistosa, saborosa e... gordurosa.

Uma senhora bem idosa e muito simpática empanturrava-me com pedaços e mais pedaços de cuscuz. Coma, meu rapaz, pois você não vai poder deixar restos deste trem no prato, que este é o verdadeiro cuscuz do Tiradentes. Sem ovo, sem peixe, sem farinha de milho, ele é feito com manteiga de garrafa, farinha de mandioca, torresmo, paio. Continue, rapaz, continue comendo sem medo.

Sem nenhuma razão, fixei que a abençoada de mãos criativas era a mãe da mãe da minha mãe, só porque ela nascera em Minas.

Estou febril, pois não a conheci nem nunca vi uma foto ou pintura retratando esta minha antepassada. Entretanto, mantenho a conexão fantasiosa entre a alcunha do quitute com este vinte e um de abril.

Por suposto, haja calafrios e ferroadas no pescoço!

Puxo o banquinho para ir mordiscando a fruta; passo os olhos pela rua; pouco me interesso.

Não há refresco, a panela de pressão segue no fogo brando do outono. Devagar, com suas presas pacientes, a boca do tempo segue beliscando o viço de toda gente.

Súbito, muitos do cortejo apontam para o céu.

A comichão faz-me subir à laje do último piso.

Fascinado, eu observo a passagem do balão. Meus olhos buscam referências para que me seja possível calcular a velocidade daquela maravilha.

Minha infância rediviva dispensa a física dos materiais. Afinal, ter visto alguma vez a Barcarola do Padre Voador em nada diminui meu deslumbramento com o voo daquele fruto do engenho humano.

Nem preciso divisar quem está na cesta, seja curtindo a amplidão do horizonte ou operando as chamas que mantêm o balão flutuando acima da minha euforia.

Horroriza-me a comparação com formigas.

Pois formigas têm rainha, e suas operárias ralam sem parar pela imobilidade do reino. Carbonário e formicida, o meu sangue ferve ao pensar em submissão natural.

Que ideia revoltante.

Desço. Encontro a gatinha abocanhando as folhas recém-brotadas do milho de pipoca plantado no vaso da citronela.

Desconfio que a minha baba adubaria o broto como pé de inhaca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2021.

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