Pé
de inhaca
Com os jornais lidos, parto para uma
pera. Comer um pouquinho de três em três horas sossega as labaredas do meu estômago.
Poderia jogar a culpa do meu desarranjo
na leitura, porém a minha barriga já estava alvoroçada antes do almoço.
Acordei com esta âncora, o asco, a me
pesar um bocado. E o mar tão revolto abre úlceras abrasivas que até o bafo fede
a brejo.
Nojento, eu sei. E não aceito que me
desculpem a transformação da realidade em hálito repugnante. Falta-me filtro,
ou alma mais leve.
Mesmo os meus sonhos andam cavando poços
sem água. E sem água, a minha saliva azeda borboletas e pirilampos. O
recomendável é que eu permaneça quieto, ou dê exemplo de pesadelo ácido.
Incomodado comigo pela falta de equilíbrio,
saí da cama como se tivesse realmente comido a noite inteira.
Havia uma comida bastante vistosa, saborosa
e... gordurosa.
Uma senhora bem idosa e muito simpática
empanturrava-me com pedaços e mais pedaços de cuscuz. Coma, meu rapaz, pois
você não vai poder deixar restos deste trem no prato, que este é o verdadeiro
cuscuz do Tiradentes. Sem ovo, sem peixe, sem farinha de milho, ele é feito com
manteiga de garrafa, farinha de mandioca, torresmo, paio. Continue, rapaz, continue
comendo sem medo.
Sem nenhuma razão, fixei que a abençoada
de mãos criativas era a mãe da mãe da minha mãe, só porque ela nascera em
Minas.
Estou febril, pois não a conheci nem nunca
vi uma foto ou pintura retratando esta minha antepassada. Entretanto, mantenho
a conexão fantasiosa entre a alcunha do quitute com este vinte e um de abril.
Por suposto, haja calafrios e ferroadas
no pescoço!
Puxo o banquinho para ir mordiscando a
fruta; passo os olhos pela rua; pouco me interesso.
Não há refresco, a panela de pressão segue
no fogo brando do outono. Devagar, com suas presas pacientes, a boca do tempo segue
beliscando o viço de toda gente.
Súbito, muitos do cortejo apontam para o
céu.
A comichão faz-me subir à laje do último
piso.
Fascinado, eu observo a passagem do
balão. Meus olhos buscam referências para que me seja possível calcular a
velocidade daquela maravilha.
Minha infância rediviva dispensa a
física dos materiais. Afinal, ter visto alguma vez a Barcarola do Padre Voador
em nada diminui meu deslumbramento com o voo daquele fruto do engenho humano.
Nem preciso divisar quem está na cesta,
seja curtindo a amplidão do horizonte ou operando as chamas que mantêm o balão flutuando
acima da minha euforia.
Horroriza-me a comparação com formigas.
Pois formigas têm rainha, e suas operárias
ralam sem parar pela imobilidade do reino. Carbonário e formicida, o meu sangue
ferve ao pensar em submissão natural.
Que ideia revoltante.
Desço. Encontro a gatinha abocanhando as
folhas recém-brotadas do milho de pipoca plantado no vaso da citronela.
Desconfio que a minha baba adubaria o
broto como pé de inhaca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de abril de 2021.
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