quinta-feira, 15 de abril de 2021

Forrobodó

 

Forrobodó

 

Antes que o cachorro vadio seja corrido dali pela mulher brava na voz e nos gestos, diga-se que aquela patota, de mulheres e homens acima dos setenta anos, estava vivamente vacinada: pela expectativa da segunda dose do imunizante contra o corona da Covid-19 e pela alegria de ser pessoa que ama outra sem a cobrança da recíproca.

Então, o carro parou. Dele desceram uma menininha meio tímida e uma mulher dos seus trinta e poucos. O motorista veio em seguida, e saiu acenando e sorrindo.

Fosse dado a comparações, você diria que a figura do homem era similar à do Moisés desentranhada do mármore pelas mãos exímias de Michelangelo. Era visível, havia a tensão dos músculos de quem está inclinado a levantar, porém refreia as carnes, súbito; mais ainda, dava para perceber que havia uma crispação no olhar, de quando o sujeito chispa uma raiva que fulmina os incautos que dão com o furor daqueles olhos.

Foi assim que um daqueles senhores da roda que jogava porrinha reagiu ao reconhecer quem fez a baliza sem passar vergonha.

Cometesse o erro de dizer de pronto as impressões da vida, teria de desculpar-se pela leitura facial equivocada.

O tal rosto, em vez de ira, estava mais pra estupefato.

Saber quem era enfezou o camarada de tamancos rudimentares. Foi um estralo atrás de outro, marcando a contrariedade com aquela presença. Numa tarde linda daquelas, de sol quentinho e uns bandos de maritacas em trânsito frenético, benfazejos ambos, a birra tinha lá os seus motivos.

Pulemos as razões, fiquemos com o congraçamento de abraços e beijinhos a distância, era a mímica de alguma felicidade. Alguma, pois improvável evitar a satisfação do reencontro como felicidade.

Como já ia soando fácil a sanfona que o recém-chegado trouxera consigo, vibravam com a música. E aquilo era bom.

O rancor sumiu na marcação da madeira do tamanco no concreto da calçada. Tinha ritmo o mastigador de fumo de corda. Que cuspia e soltava onomatopeias de incentivo. Fora as palmas irregulares, ainda que no tempo forte do que se estava tocando. Muito eufórico.

Vê-lo motivado animava. Era a deixa aos demais.

Se estava demorando, não mais. Bastou a mulher de chapelão de pescador tirar a esposa para dançar que a poeira do caminho subiu que foi uma beleza.

Tanta alegria, empolgação e riso solto?

Cervejas surgiram. Brotaram porções de mortadela e torresmo.

Oxe!

O sol tinindo. O som bombando. Bailavam à beça.

Curiosa, a vizinhança ocupou janelas.

Quem aprovava, com palmas e assobios, passou a acompanhar o rol de clássicos do Gonzagão. Os do contra, no entanto, apupavam e acusavam que era aglomeração.

Sem quebrar a magia do forró lascado, as parcerias de dança iam se renovando, sem estresse. Todos se divertindo.

Como coisa humana espontânea e entusiasmante, logo chegaram triângulo e zabumba. O pé de serra ficou mais arretado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de abril de 2021.

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