Forrobodó
Antes que o cachorro vadio seja corrido
dali pela mulher brava na voz e nos gestos, diga-se que aquela patota, de mulheres
e homens acima dos setenta anos, estava vivamente vacinada: pela expectativa da
segunda dose do imunizante contra o corona da Covid-19 e pela alegria de ser pessoa
que ama outra sem a cobrança da recíproca.
Então, o carro parou. Dele desceram uma
menininha meio tímida e uma mulher dos seus trinta e poucos. O motorista veio
em seguida, e saiu acenando e sorrindo.
Fosse dado a comparações, você diria que
a figura do homem era similar à do Moisés desentranhada do mármore pelas mãos
exímias de Michelangelo. Era visível, havia a tensão dos músculos de quem está
inclinado a levantar, porém refreia as carnes, súbito; mais ainda, dava para perceber
que havia uma crispação no olhar, de quando o sujeito chispa uma raiva que
fulmina os incautos que dão com o furor daqueles olhos.
Foi assim que um daqueles senhores da
roda que jogava porrinha reagiu ao reconhecer quem fez a baliza sem passar
vergonha.
Cometesse o erro de dizer de pronto as
impressões da vida, teria de desculpar-se pela leitura facial equivocada.
O tal rosto, em vez de ira, estava mais
pra estupefato.
Saber quem era enfezou o camarada de
tamancos rudimentares. Foi um estralo atrás de outro, marcando a contrariedade
com aquela presença. Numa tarde linda daquelas, de sol quentinho e uns bandos
de maritacas em trânsito frenético, benfazejos ambos, a birra tinha lá os seus
motivos.
Pulemos as razões, fiquemos com o
congraçamento de abraços e beijinhos a distância, era a mímica de alguma
felicidade. Alguma, pois improvável evitar a satisfação do reencontro como
felicidade.
Como já ia soando fácil a sanfona que o
recém-chegado trouxera consigo, vibravam com a música. E aquilo era bom.
O rancor sumiu na marcação da madeira do
tamanco no concreto da calçada. Tinha ritmo o mastigador de fumo de corda. Que
cuspia e soltava onomatopeias de incentivo. Fora as palmas irregulares, ainda
que no tempo forte do que se estava tocando. Muito eufórico.
Vê-lo motivado animava. Era a deixa aos
demais.
Se estava demorando, não mais. Bastou a
mulher de chapelão de pescador tirar a esposa para dançar que a poeira do
caminho subiu que foi uma beleza.
Tanta alegria, empolgação e riso solto?
Cervejas surgiram. Brotaram porções de
mortadela e torresmo.
Oxe!
O sol tinindo. O som bombando. Bailavam
à beça.
Curiosa, a vizinhança ocupou janelas.
Quem aprovava, com palmas e assobios,
passou a acompanhar o rol de clássicos do Gonzagão. Os do contra, no entanto,
apupavam e acusavam que era aglomeração.
Sem quebrar a magia do forró lascado, as
parcerias de dança iam se renovando, sem estresse. Todos se divertindo.
Como coisa humana espontânea e
entusiasmante, logo chegaram triângulo e zabumba. O pé de serra ficou mais arretado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de abril de 2021.
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