terça-feira, 23 de março de 2021

Meio impedido

 

Meio impedido

 

Louco para ser feliz, a folha-seca foi de bate-pronto.

Para tirar o sono pela espinha afora, a planta do pé direito sentiu o quão gelado estava o carpete de madeira do quarto.

Que gelo danado. Não era de graça que os pelos ficavam eriçados a cada lambida do vento.

E a janela fechada não era barreira alguma. Nem ligando para as cortinas, o bicho rosnava pelas frestas da veneziana; dava arrepios.

Matreiro, por um instante, o assobiador dissimulava que tinha ido embora para, até mais gélido, soprar de novo o ramerrão do outono.

Uma coisa irritante, chata; ainda mais às seis e meia.

Que fossem seis e meia; elas, contudo, eram de um sábado.

Perderia a alegria de ter acordado mais cedo apenas para seguir à risca as ordens do dia. Pulara da cama certo de que poderia ser infiel aos aborrecimentos da rotina. Seria triste se fosse obrigado a simular algum fugaz rompimento do sistema nervoso.

De segunda a sexta? Que belíssimo filho ele era. Se a várzea tem suas regras? Ele contava com a dispensa da obediência óbvia.

Daí a entusiasmante sensação de felicidade, porque sábado, todo sábado, era especial; em sendo dia de jogo, o mais aguardado.

O único da semana em que podia jogar futebol com os amigos. E a semana inteira, todinha ela, demorava uma eternidade para passar.

Como era sofrido ter de esperar que voasse de vez o chupinzinho saído do ovo chocado pela noite de quinta para sexta. Da sexta para o sábado, melhor nem tocar nisso. Para não gorar.

Já para não fazer gol contra, mudaria o foco.

Então, um craque não se deixa abater; com um drible endiabrado ele rompe qualquer retranca: dormir na sexta, acordar no sábado.

Tinha lógica esse negócio chamado tempo.

Por isso, o moletom, que foi redondamente ignorado pelo radar da visão, ficou caído aos pés da cama.

A camisa do time esquentava que era uma beleza. E bastava.

Como a sua mãe não entendia nada daquele encantamento: fosse pôr um agasalho ou, nu daquele jeito, iria apanhar um resfriado.

Para ostentar seu nome acima do número três às costas, vestiu a blusa por baixo do manto sagrado.

Reparando nos seus gambitos de fora, a sua mãe mandou trocar o calção por calças compridas. De imediato.

Para não levar cartão vermelho mesmo tomando um carrinho por detrás, achando que se encontrava oficialmente num vestiário, virou narrar o que ia vestindo: meião, chuteira, calção, calça, camiseta, e o boné do time do coração.

Tudo certo? Nada feito.

Podia ir baixando a crista, pois não tinha nenhum cabimento sair de casa para jogar bola com tudo aquilo que estava acontecendo na família, na rua, no Brasil e no mundo.

Com o coronavírus matando gente adoidado, o assanhamento era um acinte, uma infantilidade. Sinal de que merecia ficar de castigo?

Ficasse feliz da vida, pois iria poder jogar videogame infinitamente das dez até o almoço, e sem precisar de intervalo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de março de 2021.

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