Meio
impedido
Louco para ser feliz, a folha-seca foi
de bate-pronto.
Para tirar o sono pela espinha afora, a
planta do pé direito sentiu o quão gelado estava o carpete de madeira do
quarto.
Que gelo danado. Não era de graça que os
pelos ficavam eriçados a cada lambida do vento.
E a janela fechada não era barreira
alguma. Nem ligando para as cortinas, o bicho rosnava pelas frestas da
veneziana; dava arrepios.
Matreiro, por um instante, o assobiador
dissimulava que tinha ido embora para, até mais gélido, soprar de novo o
ramerrão do outono.
Uma coisa irritante, chata; ainda mais às
seis e meia.
Que fossem seis e meia; elas, contudo, eram
de um sábado.
Perderia a alegria de ter acordado mais
cedo apenas para seguir à risca as ordens do dia. Pulara da cama certo de que poderia
ser infiel aos aborrecimentos da rotina. Seria triste se fosse obrigado a
simular algum fugaz rompimento do sistema nervoso.
De segunda a sexta? Que belíssimo filho
ele era. Se a várzea tem suas regras? Ele contava com a dispensa da obediência
óbvia.
Daí a entusiasmante sensação de
felicidade, porque sábado, todo sábado, era especial; em sendo dia de jogo, o
mais aguardado.
O único da semana em que podia jogar
futebol com os amigos. E a semana inteira, todinha ela, demorava uma eternidade
para passar.
Como era sofrido ter de esperar que voasse
de vez o chupinzinho saído do ovo chocado pela noite de quinta para sexta. Da
sexta para o sábado, melhor nem tocar nisso. Para não gorar.
Já para não fazer gol contra, mudaria o
foco.
Então, um craque não se deixa abater;
com um drible endiabrado ele rompe qualquer retranca: dormir na sexta, acordar
no sábado.
Tinha lógica esse negócio chamado tempo.
Por isso, o moletom, que foi
redondamente ignorado pelo radar da visão, ficou caído aos pés da cama.
A camisa do time esquentava que era uma
beleza. E bastava.
Como a sua mãe não entendia nada daquele
encantamento: fosse pôr um agasalho ou, nu daquele jeito, iria apanhar um
resfriado.
Para ostentar seu nome acima do número
três às costas, vestiu a blusa por baixo do manto sagrado.
Reparando nos seus gambitos de fora, a
sua mãe mandou trocar o calção por calças compridas. De imediato.
Para não levar cartão vermelho mesmo
tomando um carrinho por detrás, achando que se encontrava oficialmente num
vestiário, virou narrar o que ia vestindo: meião, chuteira, calção, calça,
camiseta, e o boné do time do coração.
Tudo certo? Nada feito.
Podia ir baixando a crista, pois não
tinha nenhum cabimento sair de casa para jogar bola com tudo aquilo que estava
acontecendo na família, na rua, no Brasil e no mundo.
Com o coronavírus matando gente
adoidado, o assanhamento era um acinte, uma infantilidade. Sinal de que merecia
ficar de castigo?
Ficasse feliz da vida, pois iria poder
jogar videogame infinitamente das dez até o almoço, e sem precisar de intervalo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de março de 2021.
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