Urucubaca
De copo em punho, quis ver a vida além
das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do outono, com o sol noutro
canto, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo
perna. A peste matando quatro mil por dia e dei de cara com aquela multidão apostando
contra a própria vida.
Olhei as horas no celular. Passava das
cinco. Das cinco!
Curioso o que ocorre com esta minha
mente, deveras humana.
Depois do almoço, deitei no sofá para
tirar minha soneca habitual, só que ronquei pesado até acordar, já quase na
hora da janta.
Achei que conseguiria recuperar a tarde
perdida, mas o tapetinho do banheiro cortou a minha afobação. O batente,
fortaleza inconteste, proibiu-me outra queda. Para não produzir maiores estragos,
tomei os remédios mesmo fora do horário. Pedindo que a inhaca sumisse ralo adentro,
lavei o rosto, mas o espelho sequer me devolveu o sorriso.
Barquinho ao léu das águas calmas, de
passada em passada, vim abalroando de leve as paredes. Com os remos fora d’água,
isto é, as mãos garantindo-me uma trajetória menos bêbada, os olhos tomaram pé
da situação. Comigo andando sem abusar, procurando conter meu impulso de
acreditar nos meus ouvidos afogados de sono, deixei que o corredor aprumasse-me
o juízo até que a espinha ficasse ereta sem a ficção dos alongamentos bem
aplicados.
Minha estupidez impede-me de compreender
claramente o que se institui na minha frente. Sem pata de coelho nem raminho de
arruda, o mundo tem outras prerrogativas.
Para embaralhar de vez as cartas na
mesa, já que não vejo a rua que desejo pulsante na rua que vejo às cinco da
tarde, acabo indo na onda do meu corpo. Tocado pelo amor ao próximo, o meu
organismo traduz as sensações em ideias sensatas, embora dissonantes.
Nem surdo nem cego, observo. Vou aturando.
No cotidiano, dois espelhos colaboram
comigo na tarefa de querer enxergar com alguma lucidez as circunstâncias de
estar vivo em meio às tramas do tempo e do espaço, e consulto-os.
No banheiro, no primeiro deles, evidenciam-se
as rugas que a lida com a fome e o medo tem-me vincado sem trégua desde que
nasci.
No segundo, dado à mercê de sua leitura,
fabrico alguma face que não lhe seja por demais indigesta, textualmente opaca.
Muito do que faço, muito disso, falha e
magoa, mas, pobre-diabo, o trabalho me seduz, e sorvo este encantamento. Como pensamento
mágico tem capacidades, sinto que, revolvendo o lodo obscuro onde o ofício
conta comigo para fazê-lo, posso registrar névoas.
Mas, que fotografam minhas janelas?
Com o horror convertendo-se em terror, o
abismo avança sobre o chão da casa. Assim, tardança alimenta-se de esperança.
Para extrapolar as cabalas da urucubaca,
de viva voz, pedindo por saúde, alegria e sensibilidade, esta crônica reproduz
a transcrição fiel da gravação que fiz de mim por livre e espontânea vaidade.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de abril de 2021.
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