terça-feira, 13 de abril de 2021

Urucubaca

 

Urucubaca

 

De copo em punho, quis ver a vida além das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do outono, com o sol noutro canto, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo perna. A peste matando quatro mil por dia e dei de cara com aquela multidão apostando contra a própria vida.

Olhei as horas no celular. Passava das cinco. Das cinco!

Curioso o que ocorre com esta minha mente, deveras humana.

Depois do almoço, deitei no sofá para tirar minha soneca habitual, só que ronquei pesado até acordar, já quase na hora da janta.

Achei que conseguiria recuperar a tarde perdida, mas o tapetinho do banheiro cortou a minha afobação. O batente, fortaleza inconteste, proibiu-me outra queda. Para não produzir maiores estragos, tomei os remédios mesmo fora do horário. Pedindo que a inhaca sumisse ralo adentro, lavei o rosto, mas o espelho sequer me devolveu o sorriso.

Barquinho ao léu das águas calmas, de passada em passada, vim abalroando de leve as paredes. Com os remos fora d’água, isto é, as mãos garantindo-me uma trajetória menos bêbada, os olhos tomaram pé da situação. Comigo andando sem abusar, procurando conter meu impulso de acreditar nos meus ouvidos afogados de sono, deixei que o corredor aprumasse-me o juízo até que a espinha ficasse ereta sem a ficção dos alongamentos bem aplicados.

Minha estupidez impede-me de compreender claramente o que se institui na minha frente. Sem pata de coelho nem raminho de arruda, o mundo tem outras prerrogativas.

Para embaralhar de vez as cartas na mesa, já que não vejo a rua que desejo pulsante na rua que vejo às cinco da tarde, acabo indo na onda do meu corpo. Tocado pelo amor ao próximo, o meu organismo traduz as sensações em ideias sensatas, embora dissonantes.

Nem surdo nem cego, observo. Vou aturando.

No cotidiano, dois espelhos colaboram comigo na tarefa de querer enxergar com alguma lucidez as circunstâncias de estar vivo em meio às tramas do tempo e do espaço, e consulto-os.

No banheiro, no primeiro deles, evidenciam-se as rugas que a lida com a fome e o medo tem-me vincado sem trégua desde que nasci.

No segundo, dado à mercê de sua leitura, fabrico alguma face que não lhe seja por demais indigesta, textualmente opaca.

Muito do que faço, muito disso, falha e magoa, mas, pobre-diabo, o trabalho me seduz, e sorvo este encantamento. Como pensamento mágico tem capacidades, sinto que, revolvendo o lodo obscuro onde o ofício conta comigo para fazê-lo, posso registrar névoas.

Mas, que fotografam minhas janelas?

Com o horror convertendo-se em terror, o abismo avança sobre o chão da casa. Assim, tardança alimenta-se de esperança.

Para extrapolar as cabalas da urucubaca, de viva voz, pedindo por saúde, alegria e sensibilidade, esta crônica reproduz a transcrição fiel da gravação que fiz de mim por livre e espontânea vaidade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário