quinta-feira, 8 de abril de 2021

A joaninha

 

A joaninha

 

Alma confusa, sem saber ao certo se a lente do bom senso estava suja ou arranhada, era-lhe recomendável pisar de manso no freio até alcançar uma área de descanso, ainda que a caravana não pare.

O fluxo do amor-próprio conhece a acidez das mágoas, entretanto, não iria bastar uma vista aberta, ampla, da gloriosa enseada ao pé da serra. Não se duvide, o estado deplorável da percepção de si carecia da luminosidade única de um céu sobre o litoral, mas a autoimagem talvez melhorasse com a identificação do que embaçava a visão.

Exagerada, a autoestima aumenta a gravidade das feridas, assim as dores ganham cores berrantes, sufocantemente cruas, pincelando com vitalidade excruciante o pútrido, o nocivo, o doentio. Belo retrato, porém, bastante sofrido.

Quiçá o processo de superação dos desequilíbrios passe por uma visão menos impiedosa, mais racional, com salutares copos de água e banhos de sol. Quem sabe uma garoa prazenteira ajude a cabeça a sintonizar-se com os pingos das madrugadas relaxantes.

É a vida que sopra?

Sim, o vento leva milhares de anos para fazer-se notar na pele de uma pedra; já a brisa de um desejo nomeado de repente faz arisco o móbile de flutuações incontroláveis. Embora algum matemático possa calculá-las, prevê-las, a beleza está no diálogo do invisível que passa com os objetos que manifestam a intensidade dessa passagem.

Enfim, a mente escolhe respirar.

Mas, ter um respiro não é agir como respiro. Daí a necessidade da desaceleração, porque é preciso ganhar fôlego, sem retroalimentar o ciclo da autocombustão.

Pelo espetáculo do fogo, fogueiras extasiam. Selvagens, calcinam o que haja para esgotar; domadas, convidam a folguedos sob o céu.

Então, sem queimar a largada, minha dignidade chamuscada por lambidas de labaredas tão atuais, muito reais, exasperantíssimas, ela me pegou pela mão e fez-me tirar um momento com quase nenhum estresse, algumas felicidades enevoadas pelas fumaças da vida e um tronco no qual ainda se pode ler, apesar da pátina da memória em brasa adormecida, o entalhado de uma história.

De visita emocionalmente monitorada, para evitar contaminações com o que tenho de desastrado. Pois costumo esquecer a máscara no rosto e, já aflito de tê-la deixado em lugar que me escapa, busco o alento de não me reconhecer um estrupício sem espelho algum.

Como ia dizendo...

A minha dignidade propôs um passeio pelos campos da nostalgia, lá não crescem girassóis potentes, não crocitam corvos impertinentes nem germinam chávenas de láudano.

Comigo a imaginar o meu passado mais familiar, surgiu um gato.

O gato serpenteia o rabo. Estará bravo?

Como esfinge, olha para a frente. Na direção, só vejo a parede.

Ele se vira para mim, e mia. Ele se vira para a parede, e mia.

Olho. Olho e vejo. E sorrio.

Se uma joaninha vive em meio ao caos do mundo, há esperança.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de abril de 2021.

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