A
joaninha
Alma confusa, sem saber ao certo se a
lente do bom senso estava suja ou arranhada, era-lhe recomendável pisar de
manso no freio até alcançar uma área de descanso, ainda que a caravana não pare.
O fluxo do amor-próprio conhece a acidez
das mágoas, entretanto, não iria bastar uma vista aberta, ampla, da gloriosa
enseada ao pé da serra. Não se duvide, o estado deplorável da percepção de si
carecia da luminosidade única de um céu sobre o litoral, mas a autoimagem talvez
melhorasse com a identificação do que embaçava a visão.
Exagerada, a autoestima aumenta a
gravidade das feridas, assim as dores ganham cores berrantes, sufocantemente
cruas, pincelando com vitalidade excruciante o pútrido, o nocivo, o doentio.
Belo retrato, porém, bastante sofrido.
Quiçá o processo de superação dos desequilíbrios
passe por uma visão menos impiedosa, mais racional, com salutares copos de água
e banhos de sol. Quem sabe uma garoa prazenteira ajude a cabeça a sintonizar-se
com os pingos das madrugadas relaxantes.
É a vida que sopra?
Sim, o vento leva milhares de anos para
fazer-se notar na pele de uma pedra; já a brisa de um desejo nomeado de repente
faz arisco o móbile de flutuações incontroláveis. Embora algum matemático possa
calculá-las, prevê-las, a beleza está no diálogo do invisível que passa com os
objetos que manifestam a intensidade dessa passagem.
Enfim, a mente escolhe respirar.
Mas, ter um respiro não é agir como
respiro. Daí a necessidade da desaceleração, porque é preciso ganhar fôlego,
sem retroalimentar o ciclo da autocombustão.
Pelo espetáculo do fogo, fogueiras extasiam.
Selvagens, calcinam o que haja para esgotar; domadas, convidam a folguedos sob
o céu.
Então, sem queimar a largada, minha
dignidade chamuscada por lambidas de labaredas tão atuais, muito reais,
exasperantíssimas, ela me pegou pela mão e fez-me tirar um momento com quase
nenhum estresse, algumas felicidades enevoadas pelas fumaças da vida e um
tronco no qual ainda se pode ler, apesar da pátina da memória em brasa
adormecida, o entalhado de uma história.
De visita emocionalmente monitorada,
para evitar contaminações com o que tenho de desastrado. Pois costumo esquecer
a máscara no rosto e, já aflito de tê-la deixado em lugar que me escapa, busco o
alento de não me reconhecer um estrupício sem espelho algum.
Como ia dizendo...
A minha dignidade propôs um passeio
pelos campos da nostalgia, lá não crescem girassóis potentes, não crocitam
corvos impertinentes nem germinam chávenas de láudano.
Comigo a imaginar o meu passado mais
familiar, surgiu um gato.
O gato serpenteia o rabo. Estará bravo?
Como esfinge, olha para a frente. Na
direção, só vejo a parede.
Ele se vira para mim, e mia. Ele se vira
para a parede, e mia.
Olho. Olho e vejo. E sorrio.
Se uma joaninha vive em meio ao caos do
mundo, há esperança.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de abril de 2021.
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