Partilha
dos ovos
Passei uma semana infernal. Todos
passamos. Não, a maioria de nós passou; portanto, nem todos. Vacinados ou ainda
não vacinados, conseguimos. E havemos de seguir conseguindo.
Por compaixão e pudor, pouparei você de
uma peculiaridade tão minha que é carregar nas tintas dramáticas, patéticas e
escabrosas quando perco a noção da realidade.
Embora continue envolvido por situações
ordinárias, pelas tarefas que fazem o cotidiano de pessoa de rotina modesta, que
trabalha em casa, paga as obrigações fugindo das filas, ouve alguma música no telefone
depois das refeições, saboreia os livros salvos da borrasca em que a catástrofe
sanitária surpreendeu quem ia vivendo cada dia, e conversa face a face com os
íntimos do núcleo familiar e a distância com meia dúzia de amigos, então, apesar
dessa pacata normalidade, basta adoecer... e exagero.
O mundo está um caos. No Brasil reinam
as trevas. Ninguém ama ninguém. Tudo está por um fio.
Amo o que faço, amo quem me ama e o amor
estimula à chave. E, às portas do fim do mundo, trancando-as, deixa zumbis,
vampiros e a matilha de mulas sem cabeça do lado de fora.
Fosse assim, seria apenas mais uma
historinha cheia de teias. Só que não é outro conto de fadas narrado por um
energúmeno.
O amor não é panaceia. Mas ele entra
para dar estabilidade à liga dos ingredientes. Fazendo a massa crescer, dando
textura ao manjar, tornando apetecível a realidade.
Haja tripas para aguentar o baque.
Tomava eu uma chuveirada para esfriar a
cachola, quando vieram os arrepios. Senti a tempo, aquilo nada tinha que ver
com as rajadas de outra tarde outonal. Fechei o vitrô. Que descuido.
As atualidades ajudam a embrulhar meu
estômago. Desconfiado, recuso o requeijão. Raciocino que o pior vem aí, e corto
a cocada.
Queria fugir. Precisava ir para um tempo
em que nem sabia o que significava segurança.
Amparado às pernas de minha mãe no pátio
da escola, ignorava a aparição inflamada da metralhadora de bigodinho anos quarenta
que, com seus perdigotos gagos, fulminava o público (professores, alunos, funcionários
e pais convocados) lá de cima, lá do alto, da mureta do primeiro andar do grupo
estadual.
Entre lembrar algo daquele discurso
sobre alguma coisa redentora e recordar os joelhos maternos? É óbvio que não vou
mentir.
Além do mais, eu deveria mesmo era ter-me
controlado e evitado o horror de associar os pingos do chuveiro a uma miríade
de agulhas ávidas para anestesiar-me pelos miolos.
Hoje, recuperado com a dieta sem
gordura, longe de frutas ácidas, comendo macarrãozinho ave-maria com batata sem
sal, repasto que a memória sabe de cor, dou-me conta: preciso ir comprar ovos.
Hoje é Páscoa.
Entre a saudade da comida amorosamente
dada a convalescentes e a esperança de que a peste passe de vez, separo meia
dúzia para cozê-los e a outra metade decido chocá-los.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de abril de 2021.
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