domingo, 4 de abril de 2021

Partilha dos ovos

 

Partilha dos ovos

 

Passei uma semana infernal. Todos passamos. Não, a maioria de nós passou; portanto, nem todos. Vacinados ou ainda não vacinados, conseguimos. E havemos de seguir conseguindo.

Por compaixão e pudor, pouparei você de uma peculiaridade tão minha que é carregar nas tintas dramáticas, patéticas e escabrosas quando perco a noção da realidade.

Embora continue envolvido por situações ordinárias, pelas tarefas que fazem o cotidiano de pessoa de rotina modesta, que trabalha em casa, paga as obrigações fugindo das filas, ouve alguma música no telefone depois das refeições, saboreia os livros salvos da borrasca em que a catástrofe sanitária surpreendeu quem ia vivendo cada dia, e conversa face a face com os íntimos do núcleo familiar e a distância com meia dúzia de amigos, então, apesar dessa pacata normalidade, basta adoecer... e exagero.

O mundo está um caos. No Brasil reinam as trevas. Ninguém ama ninguém. Tudo está por um fio.

Amo o que faço, amo quem me ama e o amor estimula à chave. E, às portas do fim do mundo, trancando-as, deixa zumbis, vampiros e a matilha de mulas sem cabeça do lado de fora.

Fosse assim, seria apenas mais uma historinha cheia de teias. Só que não é outro conto de fadas narrado por um energúmeno.

O amor não é panaceia. Mas ele entra para dar estabilidade à liga dos ingredientes. Fazendo a massa crescer, dando textura ao manjar, tornando apetecível a realidade.

Haja tripas para aguentar o baque.

Tomava eu uma chuveirada para esfriar a cachola, quando vieram os arrepios. Senti a tempo, aquilo nada tinha que ver com as rajadas de outra tarde outonal. Fechei o vitrô. Que descuido.

As atualidades ajudam a embrulhar meu estômago. Desconfiado, recuso o requeijão. Raciocino que o pior vem aí, e corto a cocada.

Queria fugir. Precisava ir para um tempo em que nem sabia o que significava segurança.

Amparado às pernas de minha mãe no pátio da escola, ignorava a aparição inflamada da metralhadora de bigodinho anos quarenta que, com seus perdigotos gagos, fulminava o público (professores, alunos, funcionários e pais convocados) lá de cima, lá do alto, da mureta do primeiro andar do grupo estadual.

Entre lembrar algo daquele discurso sobre alguma coisa redentora e recordar os joelhos maternos? É óbvio que não vou mentir.

Além do mais, eu deveria mesmo era ter-me controlado e evitado o horror de associar os pingos do chuveiro a uma miríade de agulhas ávidas para anestesiar-me pelos miolos.

Hoje, recuperado com a dieta sem gordura, longe de frutas ácidas, comendo macarrãozinho ave-maria com batata sem sal, repasto que a memória sabe de cor, dou-me conta: preciso ir comprar ovos.

Hoje é Páscoa.

Entre a saudade da comida amorosamente dada a convalescentes e a esperança de que a peste passe de vez, separo meia dúzia para cozê-los e a outra metade decido chocá-los.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de abril de 2021.

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