quinta-feira, 18 de março de 2021

Louco melancólico

 

Louco melancólico

 

Entre o sonho e o devaneio, saio empurrando o carrinho de outra pessoa. Sem ter como negar a materialidade do meu descuido, faço o que me cabe, devolvo-o à mulher que o reclama rispidamente. Frutas e legumes já ensacados apontam-me culpado, portanto, sorrio.

Na atual conjuntura, com uma súcia de negacionistas colaborando para a alarmante disseminação geométrica do coronavírus, responder sorrindo às inconveniências nem alivia pressão intracraniana alguma.

Arrisco dizer que talvez a maioria compartilhe da sensação, como se a expansão da consciência estivesse em evidente embate com as estruturas óssea e encefálica da cabeça.

Sabe aquele troço que não para de ficar latejando? Sinto isso.

Acresço que minha mente, turbinada normalmente pelo mundaréu de contraditórias ideias desconexas, vem provando do veneno que a falta danada de prudência tem produzido diuturnamente.

Virei um operário de decepções. Sério, até dormindo.

Também pudera, os recorrentes mal-entendidos parecem presos a um carrossel, cuja fonte elétrica está num sítio de dificílimo acesso.

Lamentável, o lugar radicalmente oposto a tal fonte de angústias, o éden tranquilizante, não está imune à realidade, portanto sofro.

Sem pensar em abdução, conjecturo ir para lá.

Existir, existe. Mas, fora de tempo e espaço. Utopia é seu nome.

Como banana prata, poderia estar à venda.

Tão nutritiva... Tão barata...

Vejo a fila do açougue. Adeus, meio quilo de patinho moído.

Temendo que um ato fortuito possa potencializar o pandemoníaco da pandemia, considero adequada a distribuição dos fregueses pelo mercado, porquanto me preocupa bastante a dispersão de gotículas suspensas no ar.

É óbvio! Fio-me nos conhecimentos especializados de cientistas, infectologistas e epidemiologistas, por isso, acho-a adequada.

Como estou suando frio, e suponho que outros indivíduos também estejam sob o estresse de estar à beira do pânico, o que mais quero neste momento é desviar os meus pensamentos do lockdown.

A ansiedade generalizada apodera-se de meus nervos, passando a impressão de alguém a ponto de perpetrar alguma aberração.

Todo desajeitado atrás da máscara periodicamente ajustada sobre o nariz, confiro besta a lista enquanto a funcionária, perguntando-me se desejo mais algum produto, agita no ar os pacotinhos de muçarela e peito de peru já pesados.

Louco para higienizar as mãos com álcool gel sem nem mesmo ter tocado o que quer que seja, vou pegar a berinjela que ficou por último na lista porque só fui lembrar-me dela à saída de casa.

Cá entre nós, aprisionado vergonhosamente à bolha de um radical ensimesmamento, por talvez estar traduzindo a tristeza feito um boçal zanzando num ambiente fechado, vou apelar para a ignorância: este louco melancólico nem sabe diferenciar salsinha de hortelã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de março de 2021.

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