Gazeta
mirim
Na estrada batida feito palco, ia saracoteando.
Calçando os chinelos nas mãos, a sola do
pé gostando de pisar a terra, o menino estava que nem ligava de onde viera ou
para onde ia. Pelo jeito que andava, seguia sem destino ou não tinha pressa.
O caminho, na verdade, tinha trechos em
que era difícil de vencer por causa das pedrinhas. Na maior parte da caminhada,
contudo, ele nem reparava no que ia pisando. Só desviava de bosta de vaca.
Como estrada de pouco movimento, de
gente e de carro, então, o menino podia ir ziguezagueando. Ora afundando os pés
na terra fofa, ora andando no chão mais firme.
Não passou pela cabeça do menino que foram
as águas de chuva que marcaram o terreno. Ele sequer imaginou que lama poderia
virar atoleiro. Pensar em trator ajudando desatolar, seria exagero.
Vendo aquelas árvores carregadas, ele hesitava:
comer goiaba no pé ou levar tiro de sal nas costas? Fora a fúria dos cachorros.
De repente, um bem-te-vi cantou. Ou
melhor, de repente o menino achou de ficar interessado no bichinho que vinha
cantando fazia já algum tempo. Aliás, havia muitos bem-te-vis cantando.
O menino remediava os cantores. Gritava
em resposta, assobiava, certo de que tinha o dom da imitação correndo nas
veias.
Encasquetou: queria ver um de perto.
Quando um deles assentou no mourão da
cerca, o menino fez que não era com ele. Caninana desnaturada, deu o bote.
Mesmo sem ter sido atirada com força, a
pedra derrubou o animal. Derrubou-o, contudo, definitivamente. Assim parado: que
bicho tosco, inerte, coisa mais sem graça.
Sim, o inocente não calculou os danos do
seu ato.
Sim, inocente. Não se veja maldade no
coração do garoto.
Simples: o menino não escolheu a pedra
nem por tamanho nem por formato; pegou a primeira que sua mão alcançou; todavia,
a má sorte sorriu-lhe pela precisão que o acaso calhou de dar ao disparo.
Contudo, o menino tinha atitude de toda
sorte, uma vez que, meia centena de passos mais adiante, quem disparou foi ele.
Fazendo um alvoroço danado, levantando o
poeirão da estrada e assustando os bois do pasto e a passarinhada do mato, uma picape
vinha desembestada.
Nisso, uma galinha com seus pintinhos ia
cruzando o caminho da 4X4 endiabrada. Sem um segundo de bobeira e agitando os
braços feito um doido, o menino foi colocar-se entre a família galinácea que
passava e a besta-fera a diesel, cujo motorista foi parando o monstro sem
maiores sustos.
Alguém o poderia ver como nobre guardião
da natureza. Mas não era isso. É que a galinha não merecia morrer atropelada;
ela cairia bem numa panela.
Sim, o maroto inocente gostava do
guisado de galinha com batata, cenoura e louro macerado por mãos sabedoras do preparo.
Vá lá que seja.
É direito seu querer saber: o nome do
menino; se ele morava com a mãe ou a avó; se a casa tinha geladeira e água
encanada ꟷ isso, porém, fica por conta do Censo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de abril de 2021.
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