terça-feira, 6 de abril de 2021

O importante

 

O importante

 

Nem toda pessoa está preparada para escutar que fez uma coisa muito importante. Quando está preocupada com algo mais importante do que ter reconhecido o valor do que tenha feito, então, tal pessoa é pega no contrapé. Irritada, ela chega a pensar que aquilo só pode ser brincadeira. Uma graça que não agrada quem faz a sua parte.

A parte que estão sempre pagando para ver?

Entrou no caminhão carregado na fábrica. Dirigiu-o pela tarde toda e parou para uma ducha morna no posto. Cobrindo o torso com uma manta tecida por mãos tão íntimas dos humores da lã das coxilhas, o sereno da noite que vinha encantando o luar da cheia de abril não ia encontrar uma brecha mínima para surpreendê-lo desprotegido. Veio, primeiro, a porção do carreteiro estocado na boleia; depois, o mate. E a bomba cantou até que os ossos acalmassem a carne. Serenado, o esqueleto colou o rosto na musculatura, para o sono bailar seu tango. Mal o galo tinha sido acionado pelos piparotes da alvorada, o pé na estrada pediu a média melada e os quatro pãezinhos na chapa, pois o local prescrito no conhecimento tinha por lei fechar para o almoço. Saudoso dos seus, se apressou para ver descarregada a carga.

Para que a corrente avance, mas não se rompa, já pulamos para o instante em que a pessoa escolhida vem a ser aquele consumidor de meia idade flanando de posse de um carrinho quase cheio, uma vez que sua boca meio voraz, além de coberta pela máscara obrigatória, tem a cobiça castrada pela carteira quase vazia.

Mesmo com os vinte e sete graus da tarde, ele tem frio na careca, não vergonha, daí o boné. Também não aprova quando o acusam de estar acima do peso porque a sua barriguinha, de salgadinho sabor churrasco com a cervejinha no ponto, revela que o verdadeiro homem de família dá valor a festanças efetivamente festivas.

Coloquemos nosso homem na fila.

Satisfeito consigo pela oportunidade de ter a ideia de substituir o ouro de uma assanhada picanha na grelha por um escondidinho de coxão duro, mas isso só se tornou supimpa uma vez que o preço da mandioquinha estava mesmo uma loucura.

Querendo mostrar-se um cavalheiro das antigas, tão logo bateu os olhos na loira de uns trinta anos segurando um pacote de biscoito de limão e uma embalagem de absorvente, nosso cidadão cedeu a vez.

Sem pensar duas vezes, a mulher aceitou. Pagou e foi-se embora. Teria audiência virtual em menos de uma hora e queria estar segura de sua fala sobre os aspectos legais favoráveis a quem a contratara.

Agora, educadamente, modifiquemos a situação.

O nosso homem de bons modos, sem pestanejar, ao virar-se e vir um rapazote com fones devorando um pacotão de algo fedido como cebola, foi logo dando a vez.

Aqui, a civilidade fica estampada?

No entanto, eivados de esperança, já que fizemos a nossa parte, pensamos: oxalá, com leveza no coração, você tire suas conclusões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2021.


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