Dragãozinho
dos bons
Por jeito e gosto, tentados a desencaminharem-se
do espontâneo, na lida moderada pelos mundos de tantas outras convivências,
cada qual cuidando de si, vai daí que voltaram a ver-se.
Todavia, depois de passadas já umas boas
décadas, talvez umas três ou beirando isso, deram-se um defronte do outro. De imediato,
foi pelo jeitão selvagem que se reconheceram.
Eram amigos. Muitíssimo, aliás. Seguiam
achando que eram.
E era amizade que vinha desde... Como
assim, desde o quê? Ora essa. Amigos de infância não têm nenhuma dúvida quanto
ao tempo transcorrido ou ao grau da intimidade. Caramba. Eram amigos desde
sempre, como diz o chavão de perene autoridade.
Conscientes dos protocolos, mandaram às
favas os rigores, e logo estavam se abraçando. Dando aqueles sacolejos de
velhos parceiros.
E era tal a euforia contagiante da
identificação plena que eles nem ligaram para o que ocorria ao redor. Tamanha
era a cumplicidade que o entusiasmo já os foi impelindo a sentar-se a uma
discreta mesinha de canto. Mesmo com o dono sendo intimado pela gerente
contrafeita a vir ao estabelecimento resolver aquele problema, a eles não
parecia que havia caso algum a ser esclarecido.
A vida andava muito chata. As pessoas
perdendo a liberdade de ir e vir. Uma gente sem noção se achando no dever de
censurar ideias. Um pessoal autoritário querendo tirar das redes comentários,
memes e gravações. São esses grupelhos sustentados sabe-se lá por quem que
fazem o que fazem porque a lei os protege. Uma aberração.
E a situação era simples. Aliás, muito
simples.
Pediam que fossem atendidos sem
picuinhas. Sairiam contentes com a prosa de camaradas da longa estrada. Não sairiam
satisfeitos com um pastel chocho. De fundo, estava o Elvis mandando bala.
Respeitavam-se pela fraternidade tão
longeva, de irmãos.
Mais do que coleguinhas de carteira em
escola tão ordeira, mais do que coroinhas entediados em celebração rezada a meia
dúzia de carolas de bíblias surradas, mais do que uma duplazinha da fuzarca nos
bailões embalados a hi-fi, os bons rapazes de escassas cãs bem prateadas
rejubilaram-se pelo reencontro armado pelo destino.
E aproveitaram o tempo que tinham da melhor
forma que sabiam: elogiaram-se com obscenidades; desdenharam das rugas;
louvaram o vigor como um verdadeiro troféu; elencaram as vitórias dos filhos já
muito bem remunerados; feito gatinho tocando piano, escancararam a peraltice
dos netinhos espertíssimos.
Não deu outra!
Aquilo iria mesmo mexer com eles.
Afinal, eram pessoas de carne e osso. E, sinceramente, nem precisaram falar nada,
pois não tinham vergonha de uma amizade tão apropriada.
Ligeirinho foi logo sacando a nota de
cinquenta. Escolhendo a de cem, Marcha Lenta desculpou-se por não ter mais trocado.
Com o dragão da lealdade desfraldado no
ar, despediram-se.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de março de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário