domingo, 21 de março de 2021

Dragãozinho dos bons

 

Dragãozinho dos bons

 

Por jeito e gosto, tentados a desencaminharem-se do espontâneo, na lida moderada pelos mundos de tantas outras convivências, cada qual cuidando de si, vai daí que voltaram a ver-se.

Todavia, depois de passadas já umas boas décadas, talvez umas três ou beirando isso, deram-se um defronte do outro. De imediato, foi pelo jeitão selvagem que se reconheceram.

Eram amigos. Muitíssimo, aliás. Seguiam achando que eram.

E era amizade que vinha desde... Como assim, desde o quê? Ora essa. Amigos de infância não têm nenhuma dúvida quanto ao tempo transcorrido ou ao grau da intimidade. Caramba. Eram amigos desde sempre, como diz o chavão de perene autoridade.

Conscientes dos protocolos, mandaram às favas os rigores, e logo estavam se abraçando. Dando aqueles sacolejos de velhos parceiros.

E era tal a euforia contagiante da identificação plena que eles nem ligaram para o que ocorria ao redor. Tamanha era a cumplicidade que o entusiasmo já os foi impelindo a sentar-se a uma discreta mesinha de canto. Mesmo com o dono sendo intimado pela gerente contrafeita a vir ao estabelecimento resolver aquele problema, a eles não parecia que havia caso algum a ser esclarecido.

A vida andava muito chata. As pessoas perdendo a liberdade de ir e vir. Uma gente sem noção se achando no dever de censurar ideias. Um pessoal autoritário querendo tirar das redes comentários, memes e gravações. São esses grupelhos sustentados sabe-se lá por quem que fazem o que fazem porque a lei os protege. Uma aberração.

E a situação era simples. Aliás, muito simples.

Pediam que fossem atendidos sem picuinhas. Sairiam contentes com a prosa de camaradas da longa estrada. Não sairiam satisfeitos com um pastel chocho. De fundo, estava o Elvis mandando bala.

Respeitavam-se pela fraternidade tão longeva, de irmãos.

Mais do que coleguinhas de carteira em escola tão ordeira, mais do que coroinhas entediados em celebração rezada a meia dúzia de carolas de bíblias surradas, mais do que uma duplazinha da fuzarca nos bailões embalados a hi-fi, os bons rapazes de escassas cãs bem prateadas rejubilaram-se pelo reencontro armado pelo destino.

E aproveitaram o tempo que tinham da melhor forma que sabiam: elogiaram-se com obscenidades; desdenharam das rugas; louvaram o vigor como um verdadeiro troféu; elencaram as vitórias dos filhos já muito bem remunerados; feito gatinho tocando piano, escancararam a peraltice dos netinhos espertíssimos.

Não deu outra!

Aquilo iria mesmo mexer com eles. Afinal, eram pessoas de carne e osso. E, sinceramente, nem precisaram falar nada, pois não tinham vergonha de uma amizade tão apropriada.

Ligeirinho foi logo sacando a nota de cinquenta. Escolhendo a de cem, Marcha Lenta desculpou-se por não ter mais trocado.

Com o dragão da lealdade desfraldado no ar, despediram-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2021.

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