Antes
tarde do que nunca
Indignada, germinando em oportuna
indulgência, a memória traz à tona algumas fotografias. Numa delas, com a
imparcialidade do olhar realista, vê-se uma criança rechonchuda: o pijaminha
assemelha-se a um quimono e o sorrisão nada budista risca dois olhinhos
vivamente orientais nesse guri de uns dois aninhos de existência.
Sem saber-se gente, como toda pessoa
humana nessa idade, cuja curiosidade talvez nem esteja em buscar explicações enquanto
brinca com os gestos replicados pelo espelho, essa criança que fui era uma usina
em potência transformadora.
Então, confirmando muitas daquelas
expectativas mais negativas, o bebê transfigurado no beberrão universitário está
precisando urinar. Pelo tanto de cerveja tomada à beira do lago do Ibirapuera,
precisa.
Contudo, sem chance de chegar à ponte do
jardim onde nadam as carpas mais belas que sua imaginação possa conceber, e sem
poder contrastar a imagem já formada entre os bons cidadãos muito críticos diante
dessa atuação pública em plena tarde de sol, eis que, certo de estar escondido
atrás do tronco daquele ipê sem flores, alivio-me.
Assim como a Terra gira, circula outra lembrança.
Com uma bolota de massinha do que quer
que seja, faz a isca, e o anzol logo boia no tanque das tilápias. Os
companheiros de pescaria pegam uma fieira de peixes que voltam à mesa já em
tirinhas cruas à disposição da raiz forte, parceira de um gole generoso de
saquê.
Comendo sashimi, sei que não honro
o pescador que meu avô foi.
Lamentável, jamais fui capaz do
privilégio de exibir a carpa imensa numa banheira, conforme um dia fez o pai da
minha mãe.
Algo tão memorável nem esta pandemia
haveria de apagar. Afinal, todo caçador de monstros mais se agiganta quando desafiado.
Que pena. Em mim não pulsa oceano algum.
Confinado idiota, irei afogar-me num conta-gotas?
No fundo, a imaginação hiperbólica
aponta que a história alimenta quando o remorso intoxica. Em outras palavras,
não basta sobreviver, é preciso saber conviver.
Lamentar-se da cova rasa dos mortos é
fraternidade; confrontar os que a multiplicam aos milhares é irmanar-se; punir
os responsáveis é assegurar materializado o direito à vida. Porquanto, além de
conforto, respeito e justiça, é preciso expressar civilidade.
Política bem pode pressupor a prática
pelo bem-estar de gerações de pessoas que interagem em um determinado espaço,
tanto urbano quanto rural, embora isso pouco magoe os idiotas insensíveis.
Nada energúmeno nem imbecil, este escriba
faz-se passar por um intrépido pacóvio?
Não, fui um dia informado como Jonas foi
parar em Nínive.
Não, aprendi que Moby Dick não é peixe.
Não, sei bem que piracema vem do
tupi.
Por sinal, sem rede nem arpão, sigo à margem.
Aliás?
De pouco adianta ter um abridor se a
lata aberta é que fecha este retrato indignado de sardinha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de março de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário