domingo, 28 de março de 2021

Antes tarde do que nunca

 

Antes tarde do que nunca

 

Indignada, germinando em oportuna indulgência, a memória traz à tona algumas fotografias. Numa delas, com a imparcialidade do olhar realista, vê-se uma criança rechonchuda: o pijaminha assemelha-se a um quimono e o sorrisão nada budista risca dois olhinhos vivamente orientais nesse guri de uns dois aninhos de existência.

Sem saber-se gente, como toda pessoa humana nessa idade, cuja curiosidade talvez nem esteja em buscar explicações enquanto brinca com os gestos replicados pelo espelho, essa criança que fui era uma usina em potência transformadora.

Então, confirmando muitas daquelas expectativas mais negativas, o bebê transfigurado no beberrão universitário está precisando urinar. Pelo tanto de cerveja tomada à beira do lago do Ibirapuera, precisa.

Contudo, sem chance de chegar à ponte do jardim onde nadam as carpas mais belas que sua imaginação possa conceber, e sem poder contrastar a imagem já formada entre os bons cidadãos muito críticos diante dessa atuação pública em plena tarde de sol, eis que, certo de estar escondido atrás do tronco daquele ipê sem flores, alivio-me.

Assim como a Terra gira, circula outra lembrança.

Com uma bolota de massinha do que quer que seja, faz a isca, e o anzol logo boia no tanque das tilápias. Os companheiros de pescaria pegam uma fieira de peixes que voltam à mesa já em tirinhas cruas à disposição da raiz forte, parceira de um gole generoso de saquê.

Comendo sashimi, sei que não honro o pescador que meu avô foi.

Lamentável, jamais fui capaz do privilégio de exibir a carpa imensa numa banheira, conforme um dia fez o pai da minha mãe.

Algo tão memorável nem esta pandemia haveria de apagar. Afinal, todo caçador de monstros mais se agiganta quando desafiado.

Que pena. Em mim não pulsa oceano algum.

Confinado idiota, irei afogar-me num conta-gotas?

No fundo, a imaginação hiperbólica aponta que a história alimenta quando o remorso intoxica. Em outras palavras, não basta sobreviver, é preciso saber conviver.

Lamentar-se da cova rasa dos mortos é fraternidade; confrontar os que a multiplicam aos milhares é irmanar-se; punir os responsáveis é assegurar materializado o direito à vida. Porquanto, além de conforto, respeito e justiça, é preciso expressar civilidade.

Política bem pode pressupor a prática pelo bem-estar de gerações de pessoas que interagem em um determinado espaço, tanto urbano quanto rural, embora isso pouco magoe os idiotas insensíveis.

Nada energúmeno nem imbecil, este escriba faz-se passar por um intrépido pacóvio? 

Não, fui um dia informado como Jonas foi parar em Nínive.

Não, aprendi que Moby Dick não é peixe.

Não, sei bem que piracema vem do tupi.

Por sinal, sem rede nem arpão, sigo à margem.

Aliás?

De pouco adianta ter um abridor se a lata aberta é que fecha este retrato indignado de sardinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2021.

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