terça-feira, 30 de março de 2021

A guerra e a paz

 

A guerra e a paz

 

Janeiro, reencontro no supermercado um grande amigo que havia muito não abraçava. Por força das circunstâncias sanitárias, porém, guardamos distância e tentamos balbuciar afabilidades. Meio insanos, como Crusoés numa daquelas ilhas voadoras de Gulliver.

Curioso. Encontrá-lo fez-me recordar da sua mãe, que costumava usar destrancar em vez de desatravancar. Explico. Como as casas de nossas famílias ficavam uma diante da outra, nessa infância longe da escola, volta e meia estávamos os dois a atravancar a passagem com brinquedos e bugigangas ꟷ estas, geralmente pedras e paus para as barulhentas, mais do que sangrentas, batalhas entre a rua de cima, a da nossa turma, e a de baixo, que era o território dos adversários.

Interessante. A memória traz certos aperitivos que põem a gente levemente bem, nostálgica. No labirinto de sabores, sensações, fatos e histórias, o fio da lembrança enovela e confunde. Todavia, isso não embaraça ou tensiona a ponto da ruptura. Mas há que se fazer algum esforço para não sucumbir a melancolias lacrimejantes.

O tal do nó na garganta pede pigarro. Às vezes, outro; e outro.

Quando vejo, estou na manhã do meu aniversário de sete anos. A minha mãe vai colocando o recheio nos pastéis. Ora queijo, ora carne moída, ora frango desfiado, ora linguiça esmigalhada.

Se era aniversário, só poderia ter acontecido no domingo. Porque nessa época, nos anos setenta do século vinte, os aniversariantes lá da nossa casa não contavam em querer quebrada a seguinte regra: os adultos tinham direito a comer pizza e tomar umas três garrafas de cerveja no sábado à noite, antes das dez; as crianças ganhavam bolo e os parabéns no domingo à tarde, antes da missa das seis.

Como não havia quem ousasse pedir para festejar o nascimento na data mesmo do dia em que nasceu, tudo era uma tranquilidade.

Normal, o mundo não ostentava fossos nem barricadas. Juro.

Com a minha mãe sempre disposta a dar o melhor de si, ninguém iria fazer questão de comemorar no meio da semana. Afinal, a alegria estava em reunir os parentes mais próximos. Dependendo do mês, os amigos da vizinhança, menos os colegas de igreja, trabalho ou grupo escolar, também eram convidados.

Quando fiz oito anos, porém, deu-se uma confusão. Foi empurrão; veio xingamento. Tomou tapa; levou cusparada. Depois, foi soco com soco. Rolaram no chão. Sem bolo cortado, a festa foi um fiasco.

Nunca mais comemorei aniversário com vela que não apaga fácil. Nunca mais abri presente com bilhete cordial.

Hoje, em plena pandemia, ainda que mamãe não estique mais sua massa caseira, peço pizza por telefone. Até na terça.

Pensando tristezas, sobrevivo.

Janeiro, aziago janeiro, mais um desses meses infaustos, porque, três semanas após nos encontrarmos, aquele meu velho parceiro das batalhas perdidas foi vencido pela covid.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2021.

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