Coragem
iconoclasta
Disse alguém muito importante que a vida
é uma doença incurável sexualmente transmitida; como filho sem filhos, prefiro
nem pensar no assunto nestes termos. Pegando leve, digo que vivo a vida como
uma história culturalmente transmissível.
Feitos e desfeitas podem ser
compartilhados, mas sem o peso de uma jornada que force virar-se com preceitos
filosóficos. Por pedirem definições semanticamente precisas, axiomas tão
abstratos poderiam atrapalhar o bom andamento de uma crônica, gênero justo a
quem de fôlego, digo, de memória de tiro curto.
Petulante, corrijo: é assim que me
apetece entrar no ritmo.
Para gravar a dança da vez, já com a noite
vindo devorar a tarde, fiz o balanço de modo prudente, ponderei o relevante do
vivido com a perspectiva de gente entocada e afiancei que tudo foi por
respeito.
Por medo e respeito, o dia passado em
casa.
Veja só. Prontamente, admito a
necessidade de sua aprovação. E emendo que aceite emprestado o meu olhar, porque
certamente você lerá com um juízo menos estúpido o que vim passando até aqui.
Sim, esta minha estupidez condicionada
pelo medo impede-me de vislumbrar com nitidez o presente desta pessoa reclusa em
ambiente bem sujinho, carecendo de uma limpeza geral e ampla.
Tocou o telefone. Precisando fazer a tal
faxina, desliguei-o.
Começaria pelo quarto, porém, aquelas
teias de aranha infestando o corredor logo me desviaram a eliminá-las com vassoura.
Como aracnídeos não são o meu forte,
tratei de livrar o teto com cuidado. Ágil e rápido, com a precaução dos ressabiados.
Achando que precisava de ânimo, selecionei
o terceiro movimento da sétima do Beethoven.
Enlevado, pus no limite recomendado a
altura do som.
Quando ajeitava a segunda cadeira sobre
a mesa, lá se foram ao chão os fones e o celular. Uma vez que uma das quinas,
nem sei se do tampo ou do assento, tratou de confrontar o meu pique.
Não desisti.
Repus os fones. Tocando do começo, perseverei.
No rodo, o pano seco, depois o úmido em lavanda
rosa-choque.
Subi a escadinha, e arrumei as
bugigangas sobre o guarda-roupa. Do topo daqueles quatro degraus, saltei; desafiei-me
a fazê-lo.
Sei que está sorrindo. Aliás, soltaria
uma gargalhada mefistofélica se acaso fosse dado a vilanias cínicas.
Modesto, aceito a consciência de que
pode mais quem transforma a realidade do mundo, mesmo a partir do lar.
A névoa do espelho flagra este ser revigorado.
Ainda tenho cabeça para morder o osso. Pois
viver não é nenhum troço danado de irônico. Se fosse, haveria sarna partindo do sangue
até corromper a pele.
Sem a coragem iconoclasta de negar-me exemplo,
eu mesmo vou à lixeira depositar o saco do dia. Para não embaçar os óculos,
respiro aflito. Temendo o vexame de tropeço, firmo o passo.
Já preguiçoso, sinto a noite safada regurgitando
meu tutano.
À pacífica aurora, direi: bem-vinda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de março de 2021.
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