quinta-feira, 25 de março de 2021

Coragem iconoclasta

 

Coragem iconoclasta

 

Disse alguém muito importante que a vida é uma doença incurável sexualmente transmitida; como filho sem filhos, prefiro nem pensar no assunto nestes termos. Pegando leve, digo que vivo a vida como uma história culturalmente transmissível.

Feitos e desfeitas podem ser compartilhados, mas sem o peso de uma jornada que force virar-se com preceitos filosóficos. Por pedirem definições semanticamente precisas, axiomas tão abstratos poderiam atrapalhar o bom andamento de uma crônica, gênero justo a quem de fôlego, digo, de memória de tiro curto.

Petulante, corrijo: é assim que me apetece entrar no ritmo.

Para gravar a dança da vez, já com a noite vindo devorar a tarde, fiz o balanço de modo prudente, ponderei o relevante do vivido com a perspectiva de gente entocada e afiancei que tudo foi por respeito.

Por medo e respeito, o dia passado em casa.

Veja só. Prontamente, admito a necessidade de sua aprovação. E emendo que aceite emprestado o meu olhar, porque certamente você lerá com um juízo menos estúpido o que vim passando até aqui.

Sim, esta minha estupidez condicionada pelo medo impede-me de vislumbrar com nitidez o presente desta pessoa reclusa em ambiente bem sujinho, carecendo de uma limpeza geral e ampla.

Tocou o telefone. Precisando fazer a tal faxina, desliguei-o.

Começaria pelo quarto, porém, aquelas teias de aranha infestando o corredor logo me desviaram a eliminá-las com vassoura.

Como aracnídeos não são o meu forte, tratei de livrar o teto com cuidado. Ágil e rápido, com a precaução dos ressabiados.

Achando que precisava de ânimo, selecionei o terceiro movimento da sétima do Beethoven.

Enlevado, pus no limite recomendado a altura do som.

Quando ajeitava a segunda cadeira sobre a mesa, lá se foram ao chão os fones e o celular. Uma vez que uma das quinas, nem sei se do tampo ou do assento, tratou de confrontar o meu pique.

Não desisti.

Repus os fones. Tocando do começo, perseverei.

No rodo, o pano seco, depois o úmido em lavanda rosa-choque.

Subi a escadinha, e arrumei as bugigangas sobre o guarda-roupa. Do topo daqueles quatro degraus, saltei; desafiei-me a fazê-lo.

Sei que está sorrindo. Aliás, soltaria uma gargalhada mefistofélica se acaso fosse dado a vilanias cínicas.

Modesto, aceito a consciência de que pode mais quem transforma a realidade do mundo, mesmo a partir do lar.

A névoa do espelho flagra este ser revigorado.

Ainda tenho cabeça para morder o osso. Pois viver não é nenhum troço danado de irônico. Se fosse, haveria sarna partindo do sangue até corromper a pele.

Sem a coragem iconoclasta de negar-me exemplo, eu mesmo vou à lixeira depositar o saco do dia. Para não embaçar os óculos, respiro aflito. Temendo o vexame de tropeço, firmo o passo.

Já preguiçoso, sinto a noite safada regurgitando meu tutano.

À pacífica aurora, direi: bem-vinda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de março de 2021.

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