domingo, 11 de abril de 2021

O espectro

 

O espectro

 

Diante da cena, faço o possível para me aquietar na cama. Com o indicador direito, marco O amor acaba. Sem êxito, ronrono à gatinha. Protegido da claridade do sol, o meu olhar não a convence que valha a pena enfrentar a cegueira momentânea. Os raios brincam com as partículas em suspensão; a poeira do mundo retribui com sua canção de arco-íris fugaz. Risonha, a felina desdenha dos flocos iridescentes. Deslumbrado, avento um diálogo entre sombra e sol; por sua vez, a gata mordisca a franja do tapete. Não ignoro o que me perturba.

Fascinado, nem sei em que termos proporia o papo. As sensações reagem à imagem do instante memorizado. Mas a natureza não para, e a vida segue. Há este domingo, ainda há.

Como fotografia, o domingo não se espraia em mim, uma vez que este dia está represado. Uma coluna de minério líquido. Entre a areia que corre nas veias e o desejo de expelir a desdita, rins e bexiga não exalam anis, emanam o chorume de enxofre.

O que posso fazer quando o domingo machuca por dentro? Nada, pois não conheço a dor se não a experimento. E padeço saber-me.

Muitos odeiam as segundas-feiras. Eu odeio ter de suportar o que não passa. Nada contra a segunda que virá. Por que ainda não veio? Porque não jogo às costas do amanhã a minha fraqueza para desviar o pensamento da ideia fixa, centro gravitacional a exercer influência.

E sigo a maçã desenhando uma espiral rumo ao ralo.

Portanto, mesmo sem pia, água e maçã, mordo a isca de ilustrar o meu desassossego como uma questão física. Sem alívio da pressão.

Eu, pecador por omissão, confesso minha imobilidade diante das atrocidades. Sequer lastimo o sentimento que me condena. Devasso, cuja carne baila uma bile asquerosa, e dolorida, sonho que bailo.

Maior a raiva se erro as palavras para tanto nojo.

E a segunda-feira nem desconfia que estou longe de querer uma vida ascética, menos caótica.

Nem pisco. Ressecados, os meus olhos pedem colírio.

Ver dói. Com olhos lúcidos, é dor que corrói.

Fraco, não enfrento os meus fantasmas. Eles não me desnudam o vazio do coração, traçam-me em espectro.

Ele anda, vê e sofre.

Subo a rua. Ali ficava a albina cega que vendia gardênias. Acolá, o falastrão dos hambúrgueres caseiros. Quatro palmos além, com um arbusto de permeio, passa a professora do segundo ano primário.

O pé do arbusto fede a mijo de cachorro.

Debalde, Baudelaire, procurá-lo na multidão. Suas asas imensas de albatroz sombrio nos ares rubis tornam ridículos meus passos de fogachos fátuos. Desisto, como covarde que sou, desisto. Mal diviso o caminho de casa. Hipócrita, lamento os insubmissos sem máscara. Soubesse como, legaria ao mundo um devaneio menos cretino.

É a mesma a que me desorienta, a razão pela qual me oriento?

Senhora de suas carências, a gatinha bate na bolinha de papel e vai batendo. A serelepe sabe que não perde a razão quem tem ração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2021.

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