domingo, 25 de abril de 2021

Uma paradinha

 

Uma paradinha

 

Posso parar? Preciso, e paro.

Não vou pro mundo; se ele quiser, que venha. Só não garanto que vou recebê-lo com entusiasmo, mas terei o mínimo de civilidade.

Será recebido com sorriso, ainda que apático, indiferente, de idiota que se percebe anestesiado pela presença massacrante de notícias nem um pouco alegres. A realidade que o mundo apresenta não tem sido fácil de testemunhar.

Meus olhos não enxergam nenhuma natureza morta no arranjo de TV, micro e telefone desligados. Não há beleza, há banalidade.

Então, cortês, puxarei uma cadeira ao meu lado e, como remanso, oferecerei alguma prosa recheada de amenidades.

Ando precisando de um descanso das aflições que só me apertam o nó no peito, e o fio da tesoura está cego. Garanto que esteja, pois o meu farol está fraco e não vejo o caminho. Este nevoeiro angustiante penetra-me a pele e rói-me os ossos. O aperto vem de mim, e preciso respirar com naturalidade.

Hoje, só por hoje, que este mundo cheio de becos sem saída leve em consideração o meu pedido: que me venha amigável.

Confesso, tantas carências estão pedindo atenção; e não as quero ignoradas ou mal atendidas. Todavia, para que eu consiga manter-me digno enquanto me recupero pra seguir atento, recorro a expedientes cotidianos: um café passado na hora, com uma torrada acariciada por um patê de alho e a calma para o prazer de ter a tarde para desfrutar de alguma serenidade.

Venha, mundo, mas venha preparado para meus ouvidos moucos. A minha surdez é temporária, de quem não lamenta a falsa proteção do precário, que o caos da vida dilacera a fissura, a alma sobe à pele tal qual estalagmite. Esta emersão fere, surdamente pulsa, o cérebro tenta equilibrar-se em desconforto, aliviar-se. Sofro, porque caverna rugosa não é casca, é mais que casa, é casulo das tensões em flor.

Embora possa pouco, não desejo que me assaltem abstinências torpes a violentar-me e a quem esteja por perto. A minha sede mudou de tom. Sei quão distante estou das biritas. Bebo água aos tiquinhos, fazendo bico de pintassilgo. Gorjeio.

Na mansidão que penso estar nutrindo, espero que os males da vida não me enxotem com seus fatos zombando de mim.

Quero folga.

Que o mundo faça a gentileza de entrar em minha casa sem fazer alarde de seus abismos e suas carnificinas. Iludo-me, eu sei.

O mundo não cabe nesta esperança de paz que julgo ter direito a acalentar, é ilusão de parvo, bem sei.

Pó pará?

Antes de pôr os fones, corro os nomes que o algoritmo selecionou por mim. Entre as sugestões, desponta o Prefeitinho.

Topo a parada.

Tão necessária, esta alegria repousa as minhas pálpebras, adoça o balanço dos meus nervos e estimula a bonança do meu recesso, é que Pedro Miranda convida e, Da Gávea para o mundo, eu vou.

Ouvido o disco, finda a festa?

Não rejuvenesço, mas assobio e batuco; ouço de novo.

De boa, que paradinha maneira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2021.

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