O
importante
Nem toda pessoa está preparada para escutar
que fez uma coisa muito importante. Quando está preocupada com algo mais
importante do que ter reconhecido o valor do que tenha feito, então, tal pessoa
é pega no contrapé. Irritada, ela chega a pensar que aquilo só pode ser
brincadeira. Uma graça que não agrada quem faz a sua parte.
A parte que estão sempre pagando para ver?
Entrou no caminhão carregado na fábrica.
Dirigiu-o pela tarde toda e parou para uma ducha morna no posto. Cobrindo o torso
com uma manta tecida por mãos tão íntimas dos humores da lã das coxilhas, o
sereno da noite que vinha encantando o luar da cheia de abril não ia encontrar
uma brecha mínima para surpreendê-lo desprotegido. Veio, primeiro, a porção do
carreteiro estocado na boleia; depois, o mate. E a bomba cantou até que os
ossos acalmassem a carne. Serenado, o esqueleto colou o rosto na musculatura, para
o sono bailar seu tango. Mal o galo tinha sido acionado pelos piparotes da alvorada,
o pé na estrada pediu a média melada e os quatro pãezinhos na chapa, pois o
local prescrito no conhecimento tinha por lei fechar para o almoço. Saudoso dos
seus, se apressou para ver descarregada a carga.
Para que a corrente avance, mas não se
rompa, já pulamos para o instante em que a pessoa escolhida vem a ser aquele
consumidor de meia idade flanando de posse de um carrinho quase cheio, uma vez
que sua boca meio voraz, além de coberta pela máscara obrigatória, tem a cobiça
castrada pela carteira quase vazia.
Mesmo com os vinte e sete graus da
tarde, ele tem frio na careca, não vergonha, daí o boné. Também não aprova
quando o acusam de estar acima do peso porque a sua barriguinha, de salgadinho
sabor churrasco com a cervejinha no ponto, revela que o verdadeiro homem de
família dá valor a festanças efetivamente festivas.
Coloquemos nosso homem na fila.
Satisfeito consigo pela oportunidade de ter
a ideia de substituir o ouro de uma assanhada picanha na grelha por um
escondidinho de coxão duro, mas isso só se tornou supimpa uma vez que o preço
da mandioquinha estava mesmo uma loucura.
Querendo mostrar-se um cavalheiro das
antigas, tão logo bateu os olhos na loira de uns trinta anos segurando um
pacote de biscoito de limão e uma embalagem de absorvente, nosso cidadão cedeu
a vez.
Sem pensar duas vezes, a mulher aceitou.
Pagou e foi-se embora. Teria audiência virtual em menos de uma hora e queria
estar segura de sua fala sobre os aspectos legais favoráveis a quem a
contratara.
Agora, educadamente, modifiquemos a
situação.
O nosso homem de bons modos, sem
pestanejar, ao virar-se e vir um rapazote com fones devorando um pacotão de
algo fedido como cebola, foi logo dando a vez.
Aqui, a civilidade fica estampada?
No entanto, eivados de esperança, já que
fizemos a nossa parte, pensamos: oxalá, com leveza no coração, você tire suas
conclusões.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de abril de 2021.