domingo, 14 de março de 2021

Flor da dor

 

Flor da dor

 

Já passa das cinco, e você está tomando um arzinho na frente da casa; vê pardais, andorinhas, tico-ticos, bem-te-vis, maritacas, aves e passarinhos que nem sabe que razões têm de voarem tresloucados quando próximo o crepúsculo, distingue grupos de bandos; e por isso não arreda pé, namorando o último gole da latinha quente.

Bem lá no alto, boiando na incomunicabilidade das esferas, aquele girassol só corola que a tudo finge ver, ele, de você, conhece o rosto triste, afeto à estupidez de quem implora solução ao absurdo de estar vivo, em angústia desesperada, de todo vã a corações anestesiados por imbecilidades, que dão um brilho senil aos melancólicos.

Faz sentido. Você abre melhor os olhos. A fachada pede o tapa da renovação, para que não passe feio, pondo-se imóvel, pessoa presa à mensagem de ser um ser relapso, descuidado, mais a fim de beber sem parar, como gente vil a suplicar que a achaquem.

Será que venderiam fiado aquele franguinho do almoço?

De repente, a pessoa amada poderia ter feito um chá de camomila ou fumado um fino ou bebido aquela garrafa de vodca do freezer, ela, contudo, inebriou-se pela acetona de uma farmácia distante.

Sábado, quase seis da tarde, sente que a lorota machuca, ofende, magoa, perfura escândalos na jugular.

Você não tem fé, nem a dos expostos à chuva, mas tem fome. E sabe que tem, porque a barriga ronca. Ela está roncando porque não comeu nada. Desde que saiu da cama, sequer buliu nos restos.

Talvez pelo azedume de imaginar-se a ingerir cebolas cruas, você toma coragem de ir pegar a vassoura de piaçava pendurada ao lado do tanque e, cantarolando uns versos fora de ordem de Negro Amor, como se fosse a Gal cantando, joga no meio-fio os cacos do espelho.

Um pé de tamanco não pode amenizar uma amargura?

Airosamente evaporado, até um vinho vagabundo faz assoviar. E você não se lamenta, impreca ou escarnece à toa. Prefere assobiar.

Embora as suas vespertinas canções de amor desviem o fluxo do mal-estar do coração para uma felicidade irremediavelmente efêmera, você se faz autêntica como vítima desafortunada que sabe beber.

Transtornada, não suporta a cara de bajulador não correspondido dos hipócritas que fazem sol ao remorso.

Vai daí e vira a sorrir, tentando com a careta admitir a hipótese de voltar à sobriedade. Mas a gastura vem à boca.

Com o calor da náusea, precisa do ventilador funcionando e, justo quando está ligando o aparelho na tomada, seu cotovelo escoiceia a antiga peça do santo.

É preciso colar os cacos. Você até se esforça, mas milagre algum floresce do dia para a noite.

É preciso repor a imagem. Mesmo cambaleante, vai atrás de uma nova. E dá sorte, pois a lojinha paroquial não mudou de hábito, ainda está aberta.

De volta ao posto sobre a TV, altaneiro, ao lado do Velho Barreiro, que o ídolo respeite o trato, que ele continue olhando por você.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2021.

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