Flor
da dor
Já passa das cinco, e você está tomando
um arzinho na frente da casa; vê pardais, andorinhas, tico-ticos, bem-te-vis,
maritacas, aves e passarinhos que nem sabe que razões têm de voarem tresloucados
quando próximo o crepúsculo, distingue grupos de bandos; e por isso não arreda
pé, namorando o último gole da latinha quente.
Bem lá no alto, boiando na
incomunicabilidade das esferas, aquele girassol só corola que a tudo finge ver,
ele, de você, conhece o rosto triste, afeto à estupidez de quem implora solução
ao absurdo de estar vivo, em angústia desesperada, de todo vã a corações anestesiados
por imbecilidades, que dão um brilho senil aos melancólicos.
Faz sentido. Você abre melhor os olhos.
A fachada pede o tapa da renovação, para que não passe feio, pondo-se imóvel,
pessoa presa à mensagem de ser um ser relapso, descuidado, mais a fim de beber
sem parar, como gente vil a suplicar que a achaquem.
Será que venderiam fiado aquele franguinho
do almoço?
De repente, a pessoa amada poderia ter
feito um chá de camomila ou fumado um fino ou bebido aquela garrafa de vodca do
freezer, ela, contudo, inebriou-se pela acetona de uma farmácia distante.
Sábado, quase seis da tarde, sente que a
lorota machuca, ofende, magoa, perfura escândalos na jugular.
Você não tem fé, nem a dos expostos à
chuva, mas tem fome. E sabe que tem, porque a barriga ronca. Ela está roncando
porque não comeu nada. Desde que saiu da cama, sequer buliu nos restos.
Talvez pelo azedume de imaginar-se a ingerir
cebolas cruas, você toma coragem de ir pegar a vassoura de piaçava pendurada ao
lado do tanque e, cantarolando uns versos fora de ordem de Negro Amor, como
se fosse a Gal cantando, joga no meio-fio os cacos do espelho.
Um pé de tamanco não pode amenizar uma
amargura?
Airosamente evaporado, até um vinho
vagabundo faz assoviar. E você não se lamenta, impreca ou escarnece à toa. Prefere
assobiar.
Embora as suas vespertinas canções de
amor desviem o fluxo do mal-estar do coração para uma felicidade
irremediavelmente efêmera, você se faz autêntica como vítima desafortunada que sabe
beber.
Transtornada, não suporta a cara de
bajulador não correspondido dos hipócritas que fazem sol ao remorso.
Vai daí e vira a sorrir, tentando com a
careta admitir a hipótese de voltar à sobriedade. Mas a gastura vem à boca.
Com o calor da náusea, precisa do
ventilador funcionando e, justo quando está ligando o aparelho na tomada, seu cotovelo
escoiceia a antiga peça do santo.
É preciso colar os cacos. Você até se
esforça, mas milagre algum floresce do dia para a noite.
É preciso repor a imagem. Mesmo
cambaleante, vai atrás de uma nova. E dá sorte, pois a lojinha paroquial não
mudou de hábito, ainda está aberta.
De volta ao posto sobre a TV, altaneiro,
ao lado do Velho Barreiro, que o ídolo respeite o trato, que ele continue
olhando por você.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de março de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário