Desaprendiz
Como tsunami, a fúria de notícias
tenebrosas passa varrendo com uma ferocidade desconcertante. Em meio a tal
furor, como tábua para evitar imediato afogamento, o que me resta de lucidez
cobra de mim dar maiores atenção e tempo às ações que, antes do maremoto viral
mortalmente descontrolado, por epicentros móveis e gerenciamentos de variáveis
magnitudes, considerava pedestremente cotidianas.
Como se vê, viver é pegar um touro à
unha.
No entanto, a luta pela vida sempre
esteve estreitamente ligada à sanidade individual, que não se separa do embate
pelo bem-estar do núcleo familiar, que não se isola do conflito pela felicidade
social.
Falo de gente que aquece ou esfria
bancos de praças, parapeitos de viadutos, vagas de garagens e a minha cadeira.
No fundo, meço a qualidade de vida pelas
variações de calor.
Há vezes que ponho lenha na fogueira
quando quero entender os vaga-lumes do que leio. Querendo-os dragões, não basta
que brilhem às piscadelas. Sem medo e com alegria, palavras, soltem fogo, façam
arder. Pois, não temo o calor humano.
Até passei a manhã às voltas com uma
febre.
Primeiro, bom mesmo foi ficar debaixo do
lençol por causa de um pernilongo. Não que tivesse pensado em dengue, o zunido
é que me irrita um bocado. Em seguida, e aí a coisa muda de figura, mudei eu,
pois fiquei apagando da mente a sensação da água fria do chuveiro martelando na
minha cabeça. E isso foi me deixando esquentadinho, a ponto de tossir e suar mais
que febril, uma brasa.
Penso logo em repelente. É fundamental
vencer os mosquitos.
Pensei em cortar filó e martelar uns
caibros e montar um troço que me proteja desses insetos que se nutrem de
sangue. Aliás, do meu.
Nada de martelo. Sequer serrote. Mais
ainda, nem madeira.
Tenho papel, tesoura e cola. Noves fora,
topo uma colagem.
Sei usar tesouras. Sem soberba, reafirmo
que as sei usar, sim.
Mas, não me meto a podar cercas vivas
nem cabelos, sei usá-las para o dia a dia caseiro. Picoto papel, e corto fios,
linhas e cadarços.
Domino o utensilio doméstico com
modéstia, de maneira objetiva, quase em harmônico convívio com o que mora
dentro de casa.
Certa feita, anos atrás, quando nem
perdia meu sono com aqueles errinhos bobos de quem não admite estar errado,
passei a cortar aqui e ali como se estivesse vislumbrando um pessegueiro
carregado, de pôr água na boca, maravilhosamente desenhado por minha ambição.
Ledo engano. De tudo aquilo restou um
nada muito amargoso.
Masquei-o. Infeliz de mim, cuspi-o
afoito.
Como nem houve pêssego nem prosperou o
bonsai, desaprendi a lição que poderia ter tirado daquele malogro:
ꟷ Fé cega afia melhor tesoura metafísica.
Mas, ter alívio no desconforto?
Na mata do Instituto Butantan, vejo e
ouço na TV a passarinhada gorjeando festiva pela presença de José Hamilton
Ribeiro, raríssimo exemplar de sabiá-jornalista.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de março de 2021.
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