terça-feira, 16 de março de 2021

Desaprendiz

 

Desaprendiz

 

Como tsunami, a fúria de notícias tenebrosas passa varrendo com uma ferocidade desconcertante. Em meio a tal furor, como tábua para evitar imediato afogamento, o que me resta de lucidez cobra de mim dar maiores atenção e tempo às ações que, antes do maremoto viral mortalmente descontrolado, por epicentros móveis e gerenciamentos de variáveis magnitudes, considerava pedestremente cotidianas.

Como se vê, viver é pegar um touro à unha.

No entanto, a luta pela vida sempre esteve estreitamente ligada à sanidade individual, que não se separa do embate pelo bem-estar do núcleo familiar, que não se isola do conflito pela felicidade social.

Falo de gente que aquece ou esfria bancos de praças, parapeitos de viadutos, vagas de garagens e a minha cadeira.

No fundo, meço a qualidade de vida pelas variações de calor.

Há vezes que ponho lenha na fogueira quando quero entender os vaga-lumes do que leio. Querendo-os dragões, não basta que brilhem às piscadelas. Sem medo e com alegria, palavras, soltem fogo, façam arder. Pois, não temo o calor humano.

Até passei a manhã às voltas com uma febre.

Primeiro, bom mesmo foi ficar debaixo do lençol por causa de um pernilongo. Não que tivesse pensado em dengue, o zunido é que me irrita um bocado. Em seguida, e aí a coisa muda de figura, mudei eu, pois fiquei apagando da mente a sensação da água fria do chuveiro martelando na minha cabeça. E isso foi me deixando esquentadinho, a ponto de tossir e suar mais que febril, uma brasa.

Penso logo em repelente. É fundamental vencer os mosquitos.

Pensei em cortar filó e martelar uns caibros e montar um troço que me proteja desses insetos que se nutrem de sangue. Aliás, do meu.

Nada de martelo. Sequer serrote. Mais ainda, nem madeira.

Tenho papel, tesoura e cola. Noves fora, topo uma colagem.

Sei usar tesouras. Sem soberba, reafirmo que as sei usar, sim.

Mas, não me meto a podar cercas vivas nem cabelos, sei usá-las para o dia a dia caseiro. Picoto papel, e corto fios, linhas e cadarços.

Domino o utensilio doméstico com modéstia, de maneira objetiva, quase em harmônico convívio com o que mora dentro de casa.

Certa feita, anos atrás, quando nem perdia meu sono com aqueles errinhos bobos de quem não admite estar errado, passei a cortar aqui e ali como se estivesse vislumbrando um pessegueiro carregado, de pôr água na boca, maravilhosamente desenhado por minha ambição.

Ledo engano. De tudo aquilo restou um nada muito amargoso.

Masquei-o. Infeliz de mim, cuspi-o afoito.

Como nem houve pêssego nem prosperou o bonsai, desaprendi a lição que poderia ter tirado daquele malogro:

ꟷ Fé cega afia melhor tesoura metafísica.

Mas, ter alívio no desconforto?

Na mata do Instituto Butantan, vejo e ouço na TV a passarinhada gorjeando festiva pela presença de José Hamilton Ribeiro, raríssimo exemplar de sabiá-jornalista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2021.

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