Umbigo
de fora
De férias da feira, a fera se contenta
fútil a perguntar o fácil: o que colhe Narciso de sua reflexão em água rasa? O
mais profundo do ser está à flor da pele, em contato com o ar que o abarca sem
novidades. Afia a voz como se se desafiasse a desafinar à hora em que dispensa o
melódico? Foge da beleza de deslocar a tônica a lugar inesperado. Palpita a
reverência, busca o uníssono. Serve de fonte à decadência. Mascara o eco da
monotonia oca que o sustenta.
E o trem da vida? Na banguela. E a
calma dos desesperados? No olho do furacão. E a mulher do padre? Uma santa. E a
hora que não passa? Um porre. As loucuras do pinguço? Nem pro santo. A lágrima
de crocodilo? Falso brilhante. Mundo véio sem porteira? Pela hora da morte. Onde
Judas bateu com as botas? Nem grama cresce. O certo por linhas tortas? Só Deus sabe.
E isso mais aquilo? Noves fora. E a conclusão a que se chega? Mal aguentamos.
Dando sinal de vida, o maestro sobe
dos camarins.
Sempre atrás de negócios da China, o
sínico. Sempre à frente do seu templo, o trapista. Sempre de mãos abanando, cheio
de dedos. Sempre com o pé nas costas, tão cabeça. Sempre que pode, pede. Sempre
que pede, força. Sempre o tal que mostra a cara.
Sempre?
Primeiro, quando sentado entre os amigos,
geralmente depois que dois ou três já tenham elaborado suas falas, ele entra em
ação. Solto no jogo, dispõe-se a encerrar quaisquer assuntos. E sem polêmica.
Entretanto, à sua varinha, arma velha de
batalhas vencidas, falta a potência pra reger sistemas solares e orquestrar
universos paralelos.
Improvisando aprovação ao espetáculo,
os vacinados sorriem.
Noutras circunstâncias, nas reuniões em
que se vê entre pessoas que não o conheçam, o arranjo da vez o faz sorrir. Sequer
disfarça o contentamento. Com a seriedade dos graves, despido das verdades
trágicas, inocula nos presentes a mais autêntica das modéstias.
E como o apraz estar aí, no centro.
Adora pôr o círculo a rodar na velocidade das graças alcançadas. Pela vaidade
atendida, muito sua, remedia-se dos desgostos do mundo.
Precisa de paz, ou a gastrite aperta.
Bebe da vida o néctar do mel, ou o assombram os contrapontos. Antenado, capta
notas do convívio pra compor turbilhões perigosíssimos; e para salvar do naufrágio,
tem boias e coletes. Cativa aplausos. Ao fim, convence seu público com a
segurança dos profetas: o tempo não para. A audiência anui: o tempo a tudo
cura.
Assim, curados e curandeiro tomam
chá, dão-se com biscoitos e polvilhos. Pois o momento, essa arapuca às jubartes
desorientadas, leva pelas barbatanas desgarradas às areias surdas ao vento.
Caraca!
No palco, e sua mente de prima-dona arranja
presto os sustenidos e bemóis, certifica-se atônito a entregar louros estúpidos
a um outrem cuja luz de novato ofusca só porque anda exibida.
Como podem aclamar quem arrebata a
ribalta alheia?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 10 de setembro de
2020.