Em
trânsito
Há corpos que não deslizam, seus pés
ferem a terra...
Era um adepto da jornada dupla: do
corpo no colchão quando falta o sono e da alma diante de disputas quaisquer.
Dele se sabia pouco, que punha graça numas prédicas ouvidas na rua, ditas pelo
lunático cujo cachorro que lhe seguia por entre as gentes tinha mais asseio e
serena compostura.
De menor perturbação, com fundos de
praticidade, de um alcance mundano, dizia o andarilho que, palmo a palmo, pé
ante pé, a pessoa chega aonde quer.
E lá chegando?
Pra vitória na vida, não tinha o que
recomendar. Pois desconhecia o sorriso dos satisfeitos, de quem tenha feito e
obtido resposta para o que fez. Faltava-lhe quem a ele o sagrasse conselheiro,
bom ou mau, a depender do fruto nos tratos com a vida.
Na troca de flores por abraços, entre
enamorados. Nos fluidos que acalentam, nos beijos de parentes que se emocionam.
Na alegria que rejuvenesce quem pouco se dá entregue a pensar na mortalidade.
Sobre o cão, algo podia ser dito.
Pela visível amorosidade, de uma
compaixão irredutível, o bicho mais gentil, capaz de lamber as feridas nos
calcanhares do estúpido que o chutara ainda há pouco. A flor humilde que se
abre às abelhas, sem nutrir ambições de beleza e encantamentos românticos, ganindo
às ferroadas.
De mais a mais, o chão da praça
permanecia bruto, na indiferença material de seus átomos. Porém, era o concreto
da pedra que testava no louco a sua perversidade.
Aos hipócritas, mantinha as pústulas
purulentas, para angariar uns dinheiros e a piedade que mendigava remorsos.
Por cruel, aquele gesto estudado de se
lamentar por ruídos, numa linguagem composta por correlatos frêmitos e
convulsões.
De abominável, pessoa a sorrir com a
faca entre os dentes, para o caso de ofender na carne quem o recriminasse as
simulações e suas maldades.
Pois explora umas crianças, pondo-as
nos sinaleiros da avenida a trabalhar por ele. Meninos e meninas a pedir, a
jogar os malabares, a fomentar a fome que mesmo padeciam.
Foi quando, pelas razões que o próprio
cão bem ignorava, o diabo em tela surgiu varrido para essa condição explicitamente
geométrica, a de morto.
Encontraram-no despido, mãos amarradas
às costas, suas feridas limpas e medicadas por unguentos alopáticos. Exibia na
cara a face do medo, o patético rosto de quem reconhece o futuro findo no
súbito de um disparo. À queima-roupa, no coração, sem os descuidos de um
improviso ― a dar prova de homicídio.
Orientado pela própria sorte, o
cachorro não ralenta a ausência. Nem quando se deita sobre o cheiro impregnado
no piso. Sem medir os gestos, abana o rabo e levita sua infelicidade. E traz a
máscara do dolente que não se vê preso à metafísica do compreensível, todavia a
exala orgânica, de animal hormônico.
De intangível dos fatos?
A opacidade do espaço disponível a
vestais e seus pedestais.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 20 de agosto de
2020.
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