quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Em trânsito

 

Em trânsito

 

Há corpos que não deslizam, seus pés ferem a terra...

Era um adepto da jornada dupla: do corpo no colchão quando falta o sono e da alma diante de disputas quaisquer. Dele se sabia pouco, que punha graça numas prédicas ouvidas na rua, ditas pelo lunático cujo cachorro que lhe seguia por entre as gentes tinha mais asseio e serena compostura.

De menor perturbação, com fundos de praticidade, de um alcance mundano, dizia o andarilho que, palmo a palmo, pé ante pé, a pessoa chega aonde quer.

E lá chegando?

Pra vitória na vida, não tinha o que recomendar. Pois desconhecia o sorriso dos satisfeitos, de quem tenha feito e obtido resposta para o que fez. Faltava-lhe quem a ele o sagrasse conselheiro, bom ou mau, a depender do fruto nos tratos com a vida.

Na troca de flores por abraços, entre enamorados. Nos fluidos que acalentam, nos beijos de parentes que se emocionam. Na alegria que rejuvenesce quem pouco se dá entregue a pensar na mortalidade.

Sobre o cão, algo podia ser dito.

Pela visível amorosidade, de uma compaixão irredutível, o bicho mais gentil, capaz de lamber as feridas nos calcanhares do estúpido que o chutara ainda há pouco. A flor humilde que se abre às abelhas, sem nutrir ambições de beleza e encantamentos românticos, ganindo às ferroadas.

De mais a mais, o chão da praça permanecia bruto, na indiferença material de seus átomos. Porém, era o concreto da pedra que testava no louco a sua perversidade.

Aos hipócritas, mantinha as pústulas purulentas, para angariar uns dinheiros e a piedade que mendigava remorsos.

Por cruel, aquele gesto estudado de se lamentar por ruídos, numa linguagem composta por correlatos frêmitos e convulsões.

De abominável, pessoa a sorrir com a faca entre os dentes, para o caso de ofender na carne quem o recriminasse as simulações e suas maldades.

Pois explora umas crianças, pondo-as nos sinaleiros da avenida a trabalhar por ele. Meninos e meninas a pedir, a jogar os malabares, a fomentar a fome que mesmo padeciam.

Foi quando, pelas razões que o próprio cão bem ignorava, o diabo em tela surgiu varrido para essa condição explicitamente geométrica, a de morto.

Encontraram-no despido, mãos amarradas às costas, suas feridas limpas e medicadas por unguentos alopáticos. Exibia na cara a face do medo, o patético rosto de quem reconhece o futuro findo no súbito de um disparo. À queima-roupa, no coração, sem os descuidos de um improviso ― a dar prova de homicídio.

Orientado pela própria sorte, o cachorro não ralenta a ausência. Nem quando se deita sobre o cheiro impregnado no piso. Sem medir os gestos, abana o rabo e levita sua infelicidade. E traz a máscara do dolente que não se vê preso à metafísica do compreensível, todavia a exala orgânica, de animal hormônico.

De intangível dos fatos?

A opacidade do espaço disponível a vestais e seus pedestais.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 20 de agosto de 2020.

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