Cheia
de graça
Ânimo, vem, aconchegue-se, já sirvo o
café, corto pedaço de bolo, fique à vontade, ninguém morde, não precisa fazer
gracinha nem ficar falando besteira só para agradar, tudo bem, o mundo anda esquisito,
mas não seja rigorosa com as pessoas, todo mundo tem que correr, a vida pede, entenda,
ninguém quer ficar pra trás, o mundo não vai ficar esperando quem perde tempo
com bobagem, a gente faz bobagem, entendo, mas a luta pela vida é a guerra
contra o relógio, e que bicho feroz que não para nem um segundo sequer, quando
para é porque está quebrado, o desgraçado quebra na hora em que a gente precisa
dele, daí perde a novela, esquece da vida, bate aquele desespero, os ponteiros
voam, parecem enlouquecidos de propósito, a gente peleja contra o vento, estufa
o peito, toma coragem pra dar jeito nas coisas, é de partir o coração, vem a
dúvida de estar percebendo o momento de correr, a gente inventa de chegar na
frente, querendo dar conta de socorrer antes que peçam, querendo antecipar a
falta do pó de café, indo comprar papel higiênico, é de tirar o sono, mas é
preciso manter o controle, ter calma, não agir com afobação, medindo a língua,
tendo cuidado com as palavras, pois se tem uma coisa que irrita as pessoas é
gente com opinião pra tudo, que vive dando palpite, sem perceber o quanto
aborrece, coitada, parece uma torneira pingando, dá vontade de dar uma boa martelada
na desgraçada, você para, fica olhando os pingos, a cama vazia, não forma poça
alguma na pia, como está suja, você começa a limpar, com o sono soprando irritação
das pálpebras aos dedos, passa a esponjinha, a gente esfrega, quando vê está no
chão, correndo fazer o que poderia ser feito amanhã, chorando, tanta coisa mexe
com a cabeça da pessoa, olhando o celular, caçando foto que nem está ali,
talvez num daqueles álbuns pegando poeira entre a escritura do apartamento e a
Bíblia que pertencera ao pai, o choro dá amargura à melancolia da madrugada,
nem precisa negar que brota a vergonha esquisita de querer sumir, querer dormir
umas horas, mas o fel do desassossego faz a pessoa desgostar da própria saliva,
querer vomitar, como se não fosse do bem, só que não falta amor nem falta
respeito, porém amando se aprende que o amor não ensina nada de véspera, quem
tira lições de foto antiga está perdido, quer explicação pro caminho que trouxe
pro abismo, caraca, esqueça o beijo que deu na pessoa que não merecia, enxugue estes
olhos que se calaram na humilhação, não estrague mais o que já está ferrado, e
isso derruba a gente, sofrimento contagia, feito dente que começa a doer assim
que falam em dentista marcado, então, vem, sente junto, nem precisa me agradecer,
coma o bolo antes que as formigas façam a festa, tome o café ainda quente, minha
nossa, a gente segue em frente, vai nessa, indo sem saber muito bem... que presente
bárbaro é a vida, né?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de agosto de
2020.
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