terça-feira, 25 de agosto de 2020

Cheia de graça

 

Cheia de graça

 

Ânimo, vem, aconchegue-se, já sirvo o café, corto pedaço de bolo, fique à vontade, ninguém morde, não precisa fazer gracinha nem ficar falando besteira só para agradar, tudo bem, o mundo anda esquisito, mas não seja rigorosa com as pessoas, todo mundo tem que correr, a vida pede, entenda, ninguém quer ficar pra trás, o mundo não vai ficar esperando quem perde tempo com bobagem, a gente faz bobagem, entendo, mas a luta pela vida é a guerra contra o relógio, e que bicho feroz que não para nem um segundo sequer, quando para é porque está quebrado, o desgraçado quebra na hora em que a gente precisa dele, daí perde a novela, esquece da vida, bate aquele desespero, os ponteiros voam, parecem enlouquecidos de propósito, a gente peleja contra o vento, estufa o peito, toma coragem pra dar jeito nas coisas, é de partir o coração, vem a dúvida de estar percebendo o momento de correr, a gente inventa de chegar na frente, querendo dar conta de socorrer antes que peçam, querendo antecipar a falta do pó de café, indo comprar papel higiênico, é de tirar o sono, mas é preciso manter o controle, ter calma, não agir com afobação, medindo a língua, tendo cuidado com as palavras, pois se tem uma coisa que irrita as pessoas é gente com opinião pra tudo, que vive dando palpite, sem perceber o quanto aborrece, coitada, parece uma torneira pingando, dá vontade de dar uma boa martelada na desgraçada, você para, fica olhando os pingos, a cama vazia, não forma poça alguma na pia, como está suja, você começa a limpar, com o sono soprando irritação das pálpebras aos dedos, passa a esponjinha, a gente esfrega, quando vê está no chão, correndo fazer o que poderia ser feito amanhã, chorando, tanta coisa mexe com a cabeça da pessoa, olhando o celular, caçando foto que nem está ali, talvez num daqueles álbuns pegando poeira entre a escritura do apartamento e a Bíblia que pertencera ao pai, o choro dá amargura à melancolia da madrugada, nem precisa negar que brota a vergonha esquisita de querer sumir, querer dormir umas horas, mas o fel do desassossego faz a pessoa desgostar da própria saliva, querer vomitar, como se não fosse do bem, só que não falta amor nem falta respeito, porém amando se aprende que o amor não ensina nada de véspera, quem tira lições de foto antiga está perdido, quer explicação pro caminho que trouxe pro abismo, caraca, esqueça o beijo que deu na pessoa que não merecia, enxugue estes olhos que se calaram na humilhação, não estrague mais o que já está ferrado, e isso derruba a gente, sofrimento contagia, feito dente que começa a doer assim que falam em dentista marcado, então, vem, sente junto, nem precisa me agradecer, coma o bolo antes que as formigas façam a festa, tome o café ainda quente, minha nossa, a gente segue em frente, vai nessa, indo sem saber muito bem... que presente bárbaro é a vida, né?

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 25 de agosto de 2020.

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