quinta-feira, 27 de agosto de 2020

De bão em bão

 

De bão em bão

 

Foi abrindo a janela sem a mão pesada da pressa, assobiando o batuque do bão do Vander Lee com a potência dos pulmões, acordou achando que o dia pedia o corpo da presença faceira. Assim, de peito aberto, olhos sorrindo e coração certo de si, alucinadamente lúcido, o “não sei quê” da vida dizia-lhe o “bom” que é estar vivo.

Sem dúvida, estava a fim de entender-se com o mundo.

Embora no todo haja mistérios que a própria razão ignore, seu dia pudesse ser menos caótico. Sorriria de volta, mesmo com as pessoas doidas por uma briga sem pé nem cabeça.

Deus desse o que Deus deu o que dois dá — fosse o mote.

Qual o subjetivo disso tudo? Ora essa, ele.

Afinal, era pessoa motivada, consciente o bastante para não errar o passo. Pro dia não morrer na praia do futuro natimorto, tinha outros planos. Abortaria a ideia de permitir descer redondo goela abaixo um barril de chope choco, um pratão de nhoque azedo. Queria pururuca o torresmo. Queria farra e forró; a outros, valsa e giga.

Um minuto.

Estaria gira? Com a ginga toda.

Queria continuar a “entrar bem” pra “sair melhor ainda”. Não que o mundo fosse um palco, a sua alma radiante estava iluminada desde dentro. As felicidades pipocavam à flor da ribalta, algumas vinham do baú. Nem precisava invocar o menino maravilhado com o universo ao seu redor. Estava lindo de viver, por isso vivenciava em plenitude a beleza de sentir-se “de bem” consigo.

Ao menos consigo mesmo, exalava um astral contagiante. Sentia a esperança que sossegava o facho. Com o fogo das cinzas fumando manso, percebia-se aceso... Serenidade gerando serenidade.

Acordara disposto.

Disposto a ignorar os pândegos da pandemia e os seus porretes, porres e urros. Não queria saber de erros e porradas. Queria mais era encher a cara de porradinha. E a parati viesse de alambique, melhor; de Campestre ou Salinas, muito melhor. O refri que viesse com gás, seria bom da conta. Desde que fosse soda. É claro, só uma soda boa pras porradinhas do balacobaco.

Contudo, pra balada não perder a meada, entrar na boiada errada, a dose do santo seria pela Amazônia em chamas, contra o extermínio dos nativos, pela caçada científica da lupa veraz dos satélites.

Com a mandioca assando, seu cuscuz primeiro? Louco pra impor o swing, pregar a vara em quem não queira? Assim, com aquela tara de dar tiro no rabo preso da falsidade alheia?

Isso é pagar de bandido com a pinta de mico amestrado por burro juramentado doutor.

Doutor em quê? Ninguém sabe; ninguém quer pôr o dedo nisso. É diploma adulterado. Se puseram cloro na coca, vai dar zica; enfiaram pimenta no loló da mosca morta, o quiproquó come solto; passaram o puro creme do milho num pão de leite, vá pro xilindró.

E pra esperança não ir pra cucuia, o jeito é tomar um ar, sentar na praça, ver a banda tocar dobrado e pegar leve.

Upa lelê!

Tem sonho que forra o panduio da cuca.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 27 de agosto de 2020.


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