De
bão em bão
Foi abrindo a janela sem a mão pesada
da pressa, assobiando o batuque do bão do Vander Lee com a
potência dos pulmões, acordou achando que o dia pedia o corpo da presença faceira.
Assim, de peito aberto, olhos sorrindo e coração certo de si, alucinadamente
lúcido, o “não sei quê” da vida dizia-lhe o “bom” que é estar vivo.
Sem dúvida, estava a fim de
entender-se com o mundo.
Embora no todo haja mistérios que a
própria razão ignore, seu dia pudesse ser menos caótico. Sorriria de volta,
mesmo com as pessoas doidas por uma briga sem pé nem cabeça.
Deus desse o que Deus deu o que dois dá — fosse o mote.
Qual o subjetivo disso tudo? Ora essa,
ele.
Afinal, era pessoa motivada,
consciente o bastante para não errar o passo. Pro dia não morrer na praia do
futuro natimorto, tinha outros planos. Abortaria a ideia de permitir descer
redondo goela abaixo um barril de chope choco, um pratão de nhoque azedo. Queria
pururuca o torresmo. Queria farra e forró; a outros, valsa e giga.
Um minuto.
Estaria gira? Com a ginga toda.
Queria continuar a “entrar bem” pra “sair
melhor ainda”. Não que o mundo fosse um palco, a sua alma radiante estava iluminada
desde dentro. As felicidades pipocavam à flor da ribalta, algumas vinham do baú.
Nem precisava invocar o menino maravilhado com o universo ao seu redor. Estava
lindo de viver, por isso vivenciava em plenitude a beleza de sentir-se “de bem”
consigo.
Ao menos consigo mesmo, exalava um
astral contagiante. Sentia a esperança que sossegava o facho. Com o fogo das
cinzas fumando manso, percebia-se aceso... Serenidade gerando serenidade.
Acordara disposto.
Disposto a ignorar os pândegos da
pandemia e os seus porretes, porres e urros. Não queria saber de erros e
porradas. Queria mais era encher a cara de porradinha. E a parati viesse de
alambique, melhor; de Campestre ou Salinas, muito melhor. O refri que viesse
com gás, seria bom da conta. Desde que fosse soda. É claro, só uma soda boa pras
porradinhas do balacobaco.
Contudo, pra balada não perder a
meada, entrar na boiada errada, a dose do santo seria pela Amazônia em chamas,
contra o extermínio dos nativos, pela caçada científica da lupa veraz dos
satélites.
Com a mandioca assando, seu cuscuz
primeiro? Louco pra impor o swing, pregar
a vara em quem não queira? Assim, com aquela tara de dar tiro no rabo preso da falsidade
alheia?
Isso é pagar de bandido com a pinta de
mico amestrado por burro juramentado doutor.
Doutor em quê? Ninguém sabe; ninguém
quer pôr o dedo nisso. É diploma adulterado. Se puseram cloro na coca, vai dar
zica; enfiaram pimenta no loló da mosca morta, o quiproquó come solto; passaram
o puro creme do milho num pão de leite, vá pro xilindró.
E pra esperança não ir pra cucuia, o
jeito é tomar um ar, sentar na praça, ver a banda tocar dobrado e pegar leve.
Upa lelê!
Tem sonho que forra o panduio da cuca.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 27 de agosto de
2020.
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