quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ginga natural

Ginga natural

 

Bêbado de vida, talvez queira cigarro ou o gole de água. Contudo, quanto de compaixão pode a miséria? Quanto de dor brota do gesto que não se contém?

O que teria acontecido: havia um lugar no ônibus, ao lado daquele homem. Havia passageiros em pé, muitos e vários. As abas largas do chapéu na cabeça fossem a razão daquele isolamento.

Nem bem sentado, germina a fala que tem nutrida atenção.

Subindo, tornando-se audível. Aquela era uma rua movimentada. Bem barulhenta, mais naquele horário. Falava alto, portanto. Com as rugas do evidente desconforto, ao dar-se a ver.

Como girassol, os olhos do idoso ansiavam pelo olhar de quem o cultivasse falante. Embora, mal fosse entendido.

No rosto, o ouvinte puxado pelo cansaço. Certo, não murcharia a prosa do outro, que precisava de salientar-se, falando. Regado com a escuta, o cacto da carência florescia os seus espinhos.

Exibido na particularidade do tom, na inflexão do modo. A voz ia e vinha, riachinho manso de águas barrentas. Correnteza apaziguada, a leve suspeita de alguma marola. Talvez algum boto que passe, ou o exposto dissimulando o pungente, o sofrido da sua existência.

Até ali, naquele ônibus lotado. Dizia o que vivera, ainda vive. Mais anos que as irmãs mais velhas, mortas ainda moças. Enterradas nos matagais indomados de Roraima.

Como o punha triste, apertado por dentro, a lonjura que o apartava dos seus, dos irmãos mais novos. Crescidos bem esperançados nas colheitas do açaí, nos rincões do Acre.

De lá é que tinha vindo, com a solidão dizendo a qual propósito na vida. Teve pouso no Mato Grosso e passagem pelas Gerais, e veio.

Por sua vez?

O dia passara. Na pressão da hora, esfriou-se o almoço. A saliva do aguardo azedando o instante. Adestrado a não roer as unhas além da conta. Amestrado a lavar a carne com o suor do expediente. Bem treinado, sem muxoxos fúteis. O consciente de mente aberta, pra que o sopro da estupidez não o fulmine. E siga exemplar enquanto dure. Um sujeito simples, nome comum, de posse da faculdade normal. De todo útil, tão cretino. As tarefas programadas, todas satisfeitas. A tela do computador cega-o pra tonterias. Afinal, rotinas sabem a osso. Se a coleira do rendimento produz monstros, o pedestre não trava.

Na passividade banguela de consumir-se em fogo brando?

À noite, ao deitar, batera a cabeça. Aquela mesma, a que pesava, obscurecia o entorno, empalidecia pessoas, acinzentava o concreto do mundo. E tudo porque conservara a paz de sempre, mantivera-se ausente na presença de si, renitente quanto ao revigorante do sono. Como foi esquecer que o travesseiro funciona como anteparo? Que a guarda da cama, tão maciça? Cadê cupins pra varar o drama?

Assim, no bom de estar no mundo, havia aqueles dois sorridentes: o nítido, a contar-se jururu; um obscuro, a desconversar-se.

E vai-se, indo...

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 06 de agosto de 2020.


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