Ginga
natural
Bêbado de vida, talvez queira cigarro
ou o gole de água. Contudo, quanto de compaixão pode a miséria? Quanto de dor brota
do gesto que não se contém?
O que teria acontecido: havia um lugar
no ônibus, ao lado daquele homem. Havia passageiros em pé, muitos e vários. As
abas largas do chapéu na cabeça fossem a razão daquele isolamento.
Nem bem sentado, germina a fala que tem
nutrida atenção.
Subindo, tornando-se audível. Aquela
era uma rua movimentada. Bem barulhenta, mais naquele horário. Falava alto,
portanto. Com as rugas do evidente desconforto, ao dar-se a ver.
Como girassol, os olhos do idoso ansiavam
pelo olhar de quem o cultivasse falante. Embora, mal fosse entendido.
No rosto, o ouvinte puxado pelo
cansaço. Certo, não murcharia a prosa do outro, que precisava de salientar-se, falando. Regado com a escuta, o cacto da carência florescia os seus espinhos.
Exibido na particularidade do tom, na
inflexão do modo. A voz ia e vinha, riachinho manso de águas barrentas. Correnteza
apaziguada, a leve suspeita de alguma marola. Talvez algum boto que passe, ou o
exposto dissimulando o pungente, o sofrido da sua existência.
Até ali, naquele ônibus lotado. Dizia o
que vivera, ainda vive. Mais anos que as irmãs mais velhas, mortas ainda moças.
Enterradas nos matagais indomados de Roraima.
Como o punha triste, apertado por
dentro, a lonjura que o apartava dos seus, dos irmãos mais novos. Crescidos bem
esperançados nas colheitas do açaí, nos rincões do Acre.
De lá é que tinha vindo, com a solidão
dizendo a qual propósito na vida. Teve pouso no Mato Grosso e passagem pelas
Gerais, e veio.
Por sua vez?
O dia passara. Na pressão da hora, esfriou-se
o almoço. A saliva do aguardo azedando o instante. Adestrado a não roer as
unhas além da conta. Amestrado a lavar a carne com o suor do expediente. Bem
treinado, sem muxoxos fúteis. O consciente de mente aberta, pra que o sopro da estupidez
não o fulmine. E siga exemplar enquanto dure. Um sujeito simples, nome comum, de
posse da faculdade normal. De todo útil, tão cretino. As tarefas programadas, todas
satisfeitas. A tela do computador cega-o pra tonterias. Afinal, rotinas sabem a
osso. Se a coleira do rendimento produz monstros, o pedestre não trava.
Na passividade banguela de consumir-se
em fogo brando?
À noite, ao deitar, batera a cabeça.
Aquela mesma, a que pesava, obscurecia o entorno, empalidecia pessoas,
acinzentava o concreto do mundo. E tudo porque conservara a paz de sempre,
mantivera-se ausente na presença de si, renitente quanto ao revigorante do sono.
Como foi esquecer que o travesseiro funciona como anteparo? Que a guarda da
cama, tão maciça? Cadê cupins pra varar o drama?
Assim, no bom de estar no mundo, havia
aqueles dois sorridentes: o nítido, a contar-se jururu; um obscuro, a
desconversar-se.
E vai-se, indo...
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 06 de agosto de
2020.
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