domingo, 6 de setembro de 2020

A retomada

 

A retomada

 

Acordar sem despertador; tomar café ainda quente; trabalhar com ânimo ─ sabe-se o quanto este processo dignifica. Portanto, não seja negada a satisfação de revelar alívio ao ter de volta a normalidade.

Dito isso, a alegria de admiti-lo em público que o normal do mundo está em casa outra vez, que a hora dite os seus problemas. Quê?

Guardiões de ramela saúdam o carioca das caspas ─ noticiam.

Ocorre de pronto: quanto custa uma decepção?

Com os abatimentos do desdém, as tristezas da vida têm recorrido à peçonha que as adensa. Surdo ao próprio discurso, o desalentado ofendido faz por ídolo o pastiche de fala cristalina, em fundamentos e palavras. Dando a entender que há acasos benéficos e há saudades reconfortantes. Ideia construída com palavras ajuntadas, afins e aptas à toada que, com ar de espontâneo, mais entristece.

Que cantam os macambúzios?

Café com açúcar reconforta. Sentimental, a lágrima furtiva rola.

O coração tem rejuvenescimentos quando apaixonado, ou tocado pelo som de promessas que nunca serão executadas ou movido pelo otimismo de uma composição transformadora que mereça repetições, portanto comete o devaneio da esperança.

Intensa, embora breve; modorrenta, embora pulsante.

O tempo reage a expectativas.

Mesmo que se aja com elegância: negocia-se valsa com minueto; barganha-se o candelabro com o castiço das iluminações. Para que a luz ganhe em nobreza, projeta-se mundaréu a pobreza.

A parcela da parte liberta a unidade do uno.

Ao fim e ao cabo, se ainda há esperança, eclode a dor; e aviltada, torna-se desespero ─ cujas duração e intensidade são maiores que o desejo. O aquando das primícias: pra já!

E ter a saúde mental comprometida, afinal, para que o sofrimento tenha a acuidade do incontestável, desenganos devem acutilar.

Assim, à câmera, sorria. Isso, siga sorrindo.

Para que a ilusão predomine, a punhalada mais doída não sangra. A lâmina fere alguma derme suscetível a tormentos, no cérebro.

A eletricidade despertada pelas emoções, que afetam a percepção do sentido, altera a pessoa pelo humor. Trema por distração. Deixe a abnegação sonhar o que retorna. Com placidez, conviva.

Sim. Melancolicamente, a vida falha.

Veja (sempre se há de precisar insistir nisso) somente o seu lado, do coração partido a caminho da restauração. Então: presuma, peça, cobre, dobre os joelhos, oriente a respiração.

A dor humaniza; modesto, não abuse.

Sofra convicto. Não deixe morrer o grão do espetáculo decorado. Teste positivo para o melodramático do corpo, tão misericordioso em teatralidade. Ansiando outros gregários, aconteça.

Sério, prefira arrependimentos a vacinas.

Sem banalidades que a alimentem, a retomada empaca. Quem dá trela a digressões políticas perde a cerveja à mão e coraçõezinhos no espeto.

Há tanta realidade pela frente.

Viva!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 06 de setembro de 2020.

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