terça-feira, 8 de setembro de 2020

Sexta básica

 

Sexta básica

 

Seria um dia muito especial, diferente dos outros que tivera até ali, mas não veio a sê-lo em nada raro ou inesquecível. Tão comum, bem arroz com feijão mesmo. Uma sexta como outra qualquer. Sem correr tomar chope no shopping e sem ir deliciar-se com uma pizza a duas quadras de casa. Em sendo o sexto dia depois de outros cinco todos iguais entre si, acordara clamando experimentar a fartura de delícias, sonhos tornados realidade num piscar de olhos. Contudo, as quintas partes prevaleceram sobre a sexta, decepcionando, postergando que viesse o desigual no sábado, a sétima fração que viria inédita, com a sensação do nunca antes vivido na história desta pessoa. Fosse, que a antevéspera do domingo, então, rompesse o cerco da normalidade e retirasse da cesta o básico de sua mediocridade, daquela mediania ordinária, do igual ao semelhante.

Pagar o preço da sexta básica do caramba?

Queria cair fora do coro do banal contente consigo próprio. Queria o tom fora da chave. Queria a dissonância criativa. Não iria querer um negócio reprodutivo como aquele: mais do mesmo, mesmo.

Desejando o desafino da esperança.

Isso! Entre o esperançado e o esperançoso; entre o desafinado e o desafinando; alcançaria o microtom que afinasse o intervalo da nota vinda e a que virá. Pelo diferencial. Pela beleza que foge ao lógico da coisa harmônica, mas se faz estável o quanto pode.

Estabelecendo-se como estabelecido, no ponto intermédio entre o iminente e o evidente. Aristotelicamente compreensível no equilíbrio, a meio caminho, entre extremos. Penso o meio conforme o proposto pelo grego em Ética a Nicômaco. A temperança como virtude, desde que moderadamente tensa.

Quero ir pelo sensato, e mensuravelmente outro.

Que me seja possível ir, prosseguir, perseverar. Indo sem desistir, apesar de mim, que muito me aborreço, me distraio, me deixo perder no fastio, na prostração, no pusilânime da frustração.

Que me faça acontecer, que consiga dar-me ao provável a que me julgo destinável. O destino que se faz destinando-se a ir, soando ativo o som a guiar, a tonalidade a orientar, a tônica a modular.

Tal processo, qual possesso.

O ouvinte na posse do sentido que percebe o que ouve. O audível a refinar a ação em plena ação. O agente consciente que faz da ação uma reflexão do ato de agir. Passivo na atividade da concepção de si, no ato de estar a vir. Ainda que se atenha previsível como um projeto ─ com planejamento anterior e avaliação posterior. Como a vinda que está por vir já vindo. Os sentidos dão sentido.

Se sei de mim pelo que sinto?

A espera que se faz esperança faz o agente da mudança fazer-se. Agindo, sofro a ação enquanto ajo. Embora o mesmo, outro.

Fraco de sorte, forte de palco...

Cantando, faço soar um quê de Ariano Suassuna com um quê de Paulo Freire. Manifesto ser esperançoso esperançando.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 08 de setembro de 2020.

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