domingo, 9 de agosto de 2020

Identidade secreta

 

Identidade secreta

 

Não sei bem o que anda acontecendo comigo, pode ser efeito da reclusão forçada. Sem nenhuma formação psicológica, então, aceito que seja, sim, sintoma de estresse por exposição contínua ao ser que me habita. Ego que vem se apresentando angustiado e angustiante, com minha forma e semelhança, com o volume afeiçoado aos setenta quilos neste metro e meio de humanidade. Na pessoa que me vejo a suportar cargas e encargos do mundo, o que me acarreta sustentar a envergadura psicoativa conhecida por eu. Este meu eu, ele mesmo.

Como ia dizendo, tentando dizer, tendo começado a querer dizer, venho me sentindo um tanto tonto. Por estes dias, os quais já se sabe como têm sido, dias de afastamento, me perco fácil. Ô agonia.

Logo: chega de conversa mole. Uma vez... quê?

Sem fim, o cotidiano vai impondo sua agenda de repetições. Com ação depois de ação, das mais banais como comer pizza fria no café da manhã ao cuidado para encerrar um telefonema com um tanto de empatia. Sem que meu desejo de que tenhamos um dia bom não me faça soar hipócrita, cínico ou tolo.

Queria, mas não consigo. E quero.

Estou perdido? Parece. Mas não perdi a vergonha de admitir isso em público. Com você lendo que não perdi a noção de que é preciso defender a relação: de um lado, a razão que manipula as situações e o entendimento que as aquilata, de outro.

Desconfiando do que passo, encalacrado no veneno de quem está atado à pessoa que não sabe, ou faz de conta. Um tarado? Confuso.

Seguindo neste fado torto, bailo coxo porque danço comigo. Que a cabeça solte os meus cachorros mais ferozes, que a ideia cubra com areia meus cocôs mais imundos, que a lógica da postura mantenha o sentido alerta, a pesar os pesares, em prontidão.

Mesmo com a mente rodando feito bêbado de pinga?

Que ridículo.

E latindo mal meu latim, avançando meio sem notar, caço a minha própria sombra. Desconcertado, largo dois litros de sorvete de creme sem chegar a lamber o pote. Pelo rabo sem cueca, emporcalhando o pijama, me sujo todo. Que feio falar isso de boca cheia. Melhor fechar a matraca; pensar nas maritacas. Há muita vida boa alhures, mesmo com o medo que leva a pôr espuma em excesso na careca por limpar dos brotinhos de cabelo. E um fio solto nem...

Tome juízo, filho. Vá uivar pra lua, linda e nua.

Enrolando, eu?

Vim... Estou... Queria esquivar-me da razão de ser desta prosa.

Sem fazer do coração um covil de sentimentos nefandos, sinistros, que embaraçam a mãe da gente, vou contar qual pulga me pica.

Uma amável amiga avisou que iria parar de ler as crônicas. E teria parado mesmo, mas informada que trataria da sua decisão, ela topou mais umazinha, esta última.

Sem possibilidade de renovação do interesse? Não, senhor, sem.

Dona do adeus, sem o travo da saideira e já numa doce saudade, guardando seu nome comigo, envio um bom-bocado, o abraço bom.

Saúde!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 09 de agosto de 2020.

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