Circo
das Maravilhas
Extra! Minhas senhoras e meus senhores,
é sob violenta emoção que Maravilhas do Mundo Moderno, o programa do fim do
mundo da gente boa que tanto o prestigia, tem o dever de vir a público anunciar
outra de nossas costumeiras reportagens impolutas, coisa fina que só uma equipe
generosamente afiada pela natureza está em condições de fazê-lo, e portanto, graciosamente
com redobrado apreço, o faz.
Por aceitar pressão de todo lado, seja
atmosférica, seja bariátrica, o nosso olho vivo no teatro dos acontecimentos,
mesmo não sendo membro profissional da equipe regular de colaboradores, relata
em primeira mão o que o faro, pestilento de omnívoro, devora com gosto: a
realidade crua que anda uma arara pra não torrar de vez.
Realidade essa, enrugada pelo uso
indiscriminado de panaceias a curto prazo, com pinta de ter por tara bem mais que
as 520 toneladas regulamentadas pelas estatísticas do balanço, enfiada numa
tromba impressionante, de quem suporta amigos à beça, que está a ponto de sair-se
com “e essa agora, Nossa Senhora?”. Que nada lhe escapa.
Nadica?
Como fatos falam por si, contemos com
eles.
Premido pelas circunstâncias,
entrementes introduzido por um furo no teto, mesmo fechado no cubículo de
transporte, correndo risco por estar sujeito a cancelamento, virtualmente
empoderado, o delator não foge ao papel de informante.
Como subitamente bateu de frente com
aquela bomba do tornado, vendo-se desviado do rumo certo, sofrendo por não ir
aos campos de soja, trigo, arroz e feijão que florescem em banquete, descontente
por não poder papar laranja no pé, irritadíssimo pela fumaça que, e não é de agora,
tem o desprazer de tragar a seco, o gafanhoto logo pula:
― Aonde tá indo, dona Mara?
― Cuidar da vida, rapaz.
A um dedo da patada esmagadora, o barrado
de Quaraí ousa:
― Numa hora dessas?
― Nunca tive espaço pra viver em paz,
garoto.
― Entendo. Também passo um cortado com
pesticida e má leitura das escrituras.
― Basta. A vida inteira tenho sofrido
sob o chicote dos donos de circo, zoológico, e o diabo a quatro.
― Tá querendo vida mansa?
― Prometeram. E dizem que Rana me
espera.
― Rana?
― É elefante da minha espécie, falaram.
― Com satélites bisbilhotando o tempo
todo, a senhora não teme expor as suas naturalidades?
― Daora! Quero mais que abram o bico, curtam
às pampas, vou brincar na lama. Pois espero que a turminha interesseira que
roda a bolsa como bem quer, os superiores apaniguados no champanhe, os milhões
de invisíveis pegos por aplicativo, os escondidos por habeas corpus, os morros modorrentos, mãos que talham o mamão, estátuas
que desdenham da praça, falante sem lugar, vítima que se vitimiza, a testa que testa
os testemunhos, o chapado que chupa chupeta, que o mundo corte na própria carne,
pelo fiado verde.
Gente amiga! Chore sim... Tem amanhã
acabando hoje.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 18 de agosto de
2020.
Nenhum comentário:
Postar um comentário