terça-feira, 18 de agosto de 2020

Circo das Maravilhas

 

Circo das Maravilhas

 

Extra! Minhas senhoras e meus senhores, é sob violenta emoção que Maravilhas do Mundo Moderno, o programa do fim do mundo da gente boa que tanto o prestigia, tem o dever de vir a público anunciar outra de nossas costumeiras reportagens impolutas, coisa fina que só uma equipe generosamente afiada pela natureza está em condições de fazê-lo, e portanto, graciosamente com redobrado apreço, o faz.

Por aceitar pressão de todo lado, seja atmosférica, seja bariátrica, o nosso olho vivo no teatro dos acontecimentos, mesmo não sendo membro profissional da equipe regular de colaboradores, relata em primeira mão o que o faro, pestilento de omnívoro, devora com gosto: a realidade crua que anda uma arara pra não torrar de vez.

Realidade essa, enrugada pelo uso indiscriminado de panaceias a curto prazo, com pinta de ter por tara bem mais que as 520 toneladas regulamentadas pelas estatísticas do balanço, enfiada numa tromba impressionante, de quem suporta amigos à beça, que está a ponto de sair-se com “e essa agora, Nossa Senhora?”. Que nada lhe escapa.

Nadica?

Como fatos falam por si, contemos com eles.

Premido pelas circunstâncias, entrementes introduzido por um furo no teto, mesmo fechado no cubículo de transporte, correndo risco por estar sujeito a cancelamento, virtualmente empoderado, o delator não foge ao papel de informante.

Como subitamente bateu de frente com aquela bomba do tornado, vendo-se desviado do rumo certo, sofrendo por não ir aos campos de soja, trigo, arroz e feijão que florescem em banquete, descontente por não poder papar laranja no pé, irritadíssimo pela fumaça que, e não é de agora, tem o desprazer de tragar a seco, o gafanhoto logo pula:

― Aonde tá indo, dona Mara?

― Cuidar da vida, rapaz.

A um dedo da patada esmagadora, o barrado de Quaraí ousa:

― Numa hora dessas?

― Nunca tive espaço pra viver em paz, garoto.

― Entendo. Também passo um cortado com pesticida e má leitura das escrituras.

― Basta. A vida inteira tenho sofrido sob o chicote dos donos de circo, zoológico, e o diabo a quatro.

― Tá querendo vida mansa?

― Prometeram. E dizem que Rana me espera.

― Rana?

― É elefante da minha espécie, falaram.

― Com satélites bisbilhotando o tempo todo, a senhora não teme expor as suas naturalidades?

― Daora! Quero mais que abram o bico, curtam às pampas, vou brincar na lama. Pois espero que a turminha interesseira que roda a bolsa como bem quer, os superiores apaniguados no champanhe, os milhões de invisíveis pegos por aplicativo, os escondidos por habeas corpus, os morros modorrentos, mãos que talham o mamão, estátuas que desdenham da praça, falante sem lugar, vítima que se vitimiza, a testa que testa os testemunhos, o chapado que chupa chupeta, que o mundo corte na própria carne, pelo fiado verde.

Gente amiga! Chore sim... Tem amanhã acabando hoje.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 18 de agosto de 2020.

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