Olho
por olho
Pornográfico! Está na cara.
Presumindo que, em algum lugar menos
raso que minha cachola, haja uma explicação simples pros tumultos morais que
muito têm me aturdido ultimamente. Entretanto, por mais fácil e bem simplório,
jogo no colo da pandemia a insensatez que me ouriça.
Que o faça com arroubos pudicos...
Por estar sob os efeitos desse mantra
narcótico: cercado de zeros, uma nulidade ganha o centro do desprezo. Por deslealdade
a quem me conduz à aliança de bem-estar e paz de espírito.
Desancora-se o barco.
À deriva das verdades da TV, brota em
mim um quarto lacrado, de sondagem complicada, em cujo solo encoberto por
imagens incertas germinam obscuridades de náufrago.
Sofro, consigo respirar.
Imprescindível, ao explícito da
configuração, da névoa à sombra, a luz do sol vencer a janela cerrada, ultrapassar
a moldura das cortinas sobrepostas, sair pelo fundo daquele olho.
Seria pela barragem do olhar do mundo
exterior que a vida sorriria sua normalidade torta. Conquanto fosse prosaica, com
os avatares de heroísmos canhestros a arrastar os pedestais pelas calçadas já
muito atormentadas.
Convidado de pedra? De perturbações físico-químicas.
Com previsibilidade, havia dias os
fatos emocionavam, ungidos de contradições atordoantes, eivados de deslumbramentos.
Abria-se, ainda que lhes faltasse a
compreensão do absurdo, uma realidade domesticada por afazeres boçais e rotinas
imbecis.
Tem algo errado.
Então, de vez que se diga, fingia-se o
bem composto.
Nauseabunda composição que notícias
detalhavam com tão fúteis pormenores. Aninhando-se na praça os bancos, as
pombas e idosos a dar de comer às preguiças de pálpebras cediças.
Mas, a vida como ela é dispensa
comunismos sem classe.
Cresça a cortiça. Tape-se o mortiço.
O que fisga a mediocridade do idiota?
Apregoa-se: democrática, a voz que
opine pelo aprovado; popular, o tom a ecoar o refinado; autêntico, o canto que não
muda nada.
A quem rico, o desfrute; ao contrário,
o acinte. Besteira, e besteira pega fácil no chão dos ignorantes. Já não angustia
quem argumenta. Não é a fome, é a cunhada. Choram professorinhas humilhadas, com
alunos batucando seus fantasmas.
Querendo ver-se alegre, não dorme. Pede
por outra sorte, menos indigesta. Tenha braços, deseje beijos, permita entalhar
os corações esperançados.
No reino dos homens, o banal corre
perigo.
As retinas cobertas pelo ordinário. A
gramática do horror na linha dos olhos. A agulha oscila. A fortuna vai atraindo
cardumes. As redes esgotam pargos. Embora imersa no sal, a carne apodrece. Pensa
no marujo vomitando no convés. Renega-se tanto, que exagera. Navega melhor o
marinheiro que delega norte aos ventos da própria ventura. Confuso, quer-se
amarrado ao mastro. Neblina que saliva, afoga-se.
À flor do abismo, tão só, o obsessivo
ri.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 03 de setembro de
2020.
Nenhum comentário:
Postar um comentário