quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Olho por olho

 

Olho por olho

 

Pornográfico! Está na cara.

Presumindo que, em algum lugar menos raso que minha cachola, haja uma explicação simples pros tumultos morais que muito têm me aturdido ultimamente. Entretanto, por mais fácil e bem simplório, jogo no colo da pandemia a insensatez que me ouriça.

Que o faça com arroubos pudicos...

Por estar sob os efeitos desse mantra narcótico: cercado de zeros, uma nulidade ganha o centro do desprezo. Por deslealdade a quem me conduz à aliança de bem-estar e paz de espírito.

Desancora-se o barco.

À deriva das verdades da TV, brota em mim um quarto lacrado, de sondagem complicada, em cujo solo encoberto por imagens incertas germinam obscuridades de náufrago.

Sofro, consigo respirar.

Imprescindível, ao explícito da configuração, da névoa à sombra, a luz do sol vencer a janela cerrada, ultrapassar a moldura das cortinas sobrepostas, sair pelo fundo daquele olho.

Seria pela barragem do olhar do mundo exterior que a vida sorriria sua normalidade torta. Conquanto fosse prosaica, com os avatares de heroísmos canhestros a arrastar os pedestais pelas calçadas já muito atormentadas.

Convidado de pedra? De perturbações físico-químicas.

Com previsibilidade, havia dias os fatos emocionavam, ungidos de contradições atordoantes, eivados de deslumbramentos.

Abria-se, ainda que lhes faltasse a compreensão do absurdo, uma realidade domesticada por afazeres boçais e rotinas imbecis.

Tem algo errado.

Então, de vez que se diga, fingia-se o bem composto.

Nauseabunda composição que notícias detalhavam com tão fúteis pormenores. Aninhando-se na praça os bancos, as pombas e idosos a dar de comer às preguiças de pálpebras cediças.

Mas, a vida como ela é dispensa comunismos sem classe.

Cresça a cortiça. Tape-se o mortiço.

O que fisga a mediocridade do idiota?

Apregoa-se: democrática, a voz que opine pelo aprovado; popular, o tom a ecoar o refinado; autêntico, o canto que não muda nada.

A quem rico, o desfrute; ao contrário, o acinte. Besteira, e besteira pega fácil no chão dos ignorantes. Já não angustia quem argumenta. Não é a fome, é a cunhada. Choram professorinhas humilhadas, com alunos batucando seus fantasmas.

Querendo ver-se alegre, não dorme. Pede por outra sorte, menos indigesta. Tenha braços, deseje beijos, permita entalhar os corações esperançados.

No reino dos homens, o banal corre perigo.

As retinas cobertas pelo ordinário. A gramática do horror na linha dos olhos. A agulha oscila. A fortuna vai atraindo cardumes. As redes esgotam pargos. Embora imersa no sal, a carne apodrece. Pensa no marujo vomitando no convés. Renega-se tanto, que exagera. Navega melhor o marinheiro que delega norte aos ventos da própria ventura. Confuso, quer-se amarrado ao mastro. Neblina que saliva, afoga-se.

À flor do abismo, tão só, o obsessivo ri.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 03 de setembro de 2020.

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