A par dos fatos
Domingo.
Sensível. Uma sensibilidade tal a
pedir que lhe seja dada a virtude de explorar-se. Mesmo que mais confunda. Que nem
gente roncando sob o ipê, frondosamente azul. Vencido o inverno, faz primavera
além do calendário. A matéria respira, e a artéria encavala. Desespera-se o cão
com tantos cinismos. Há abismos rosnando caninos. Tanto teme o tempo que se
liberta. Libertado, liberta ─ não quando quer, quando ama. Amor é vírus que
fortalece quem ama. Drummondiando, em sol maior, a pele geme: “amar se aprende
amando”.
Segunda-feira.
Por pouco entender de
economia, fazendo a ressalva de chamá-la prospectiva, com um quê de sabedoria
em construção, com fortíssimo viés de verdade alternativa, sem jurar sobre o
leite desnatado, pondo render o que não acumula energia, estimula-se a emitir a
sua opinião: “a conselho dado não se arregacem os dentes”.
Terça-feira.
Com o mundo de cabeça
para baixo: furar o teto não leva à China nem lava a criança na bacia das
almas. Nesta canoa furada, fanáticos pregam sua matilha de terror. Lobos de
lodo enfrentam moinhos com flores de lama. Uivam: “só valentes combalentes caem
de pé”.
Quarta-feira.
Como o medo manda recado
pelo desejo que me descontrola, dou um tempo. Paro na pista. Ouço o vento, especulo
estrelas. Entendo o que quero como quem compreende. Há em mim um outro, esse um.
Para endossar o caldo, esboço: “nem toda rã come sapo”.
Quinta-feira.
Por um mundo melhor, o
honesto labuta: de sol a sol, de grão em grão ─ até que a morte o separe dos
seus. No melhor dos mundos, o safado matuta: de lábia em lábia, de cabo a rabo
─ até que a sorte o separe dos seus. Como o mundo é girassol em céu nublado, o
pacato capota, entrega os pontos, rói certo o osso torto de roer ─ nem vê que o
norte guarda o que o separa, no sul. Cá entre nós? Movido a álcool, enche o
tanque no bar da esquina. Lá entre eles? Destila ódio quem bebe fel. A
temperatura sobe, a pressão varia; num pigarro, tudo?
Ê pindaíba: “espírito de
porco encarna fácil em corpo mole”.
Sexta-feira.
Vida: dor que não
cicatriza; exposto júbilo que cresce dentro. Que o sangue baile, o suor dê
calafrios, a boca rodopie, os pés azedem.
Quando o frêmito arrepia
mais do que um tenso tormento, há raios e trovões. No súbito do olho da cólera,
o marasmo parece ignorar que qualquer “fogoso no gatilho torra logo o
contracheque”.
Sábado.
Se não há céu todo azul nem há mar
todo sal, a enseada da tarde que tanja seu alaúde. Nem mais nem menos. Já a cotovia?
Ela cante, desencante: Todavia... Todavia... No verão da andarilha, a chuva vem
de repente. Dona, cubra a tristeza com o lenço. Veja, toque, aprecie.
A beleza do bordado parece um nó cego na
linha d’água?
Eu posso, ela possa. Eu passo, ela
passa. Eu poço e ela poça. Eu moço e ela passa. Daí já é demais, feito negar de
imediato que “ideia boa nem cócegas faz em cabeça oca”.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 01 de setembro de 2020.
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