terça-feira, 1 de setembro de 2020

A par dos fatos

 

A par dos fatos

 

Domingo.

Sensível. Uma sensibilidade tal a pedir que lhe seja dada a virtude de explorar-se. Mesmo que mais confunda. Que nem gente roncando sob o ipê, frondosamente azul. Vencido o inverno, faz primavera além do calendário. A matéria respira, e a artéria encavala. Desespera-se o cão com tantos cinismos. Há abismos rosnando caninos. Tanto teme o tempo que se liberta. Libertado, liberta ─ não quando quer, quando ama. Amor é vírus que fortalece quem ama. Drummondiando, em sol maior, a pele geme: “amar se aprende amando”.

 

Segunda-feira.

Por pouco entender de economia, fazendo a ressalva de chamá-la prospectiva, com um quê de sabedoria em construção, com fortíssimo viés de verdade alternativa, sem jurar sobre o leite desnatado, pondo render o que não acumula energia, estimula-se a emitir a sua opinião: “a conselho dado não se arregacem os dentes”.

 

Terça-feira.

Com o mundo de cabeça para baixo: furar o teto não leva à China nem lava a criança na bacia das almas. Nesta canoa furada, fanáticos pregam sua matilha de terror. Lobos de lodo enfrentam moinhos com flores de lama. Uivam: “só valentes combalentes caem de pé”.

 

Quarta-feira.

Como o medo manda recado pelo desejo que me descontrola, dou um tempo. Paro na pista. Ouço o vento, especulo estrelas. Entendo o que quero como quem compreende. Há em mim um outro, esse um. Para endossar o caldo, esboço: “nem toda rã come sapo”.


Quinta-feira.

Por um mundo melhor, o honesto labuta: de sol a sol, de grão em grão ─ até que a morte o separe dos seus. No melhor dos mundos, o safado matuta: de lábia em lábia, de cabo a rabo ─ até que a sorte o separe dos seus. Como o mundo é girassol em céu nublado, o pacato capota, entrega os pontos, rói certo o osso torto de roer ─ nem vê que o norte guarda o que o separa, no sul. Cá entre nós? Movido a álcool, enche o tanque no bar da esquina. Lá entre eles? Destila ódio quem bebe fel. A temperatura sobe, a pressão varia; num pigarro, tudo?

Ê pindaíba: “espírito de porco encarna fácil em corpo mole”.

 

Sexta-feira.

Vida: dor que não cicatriza; exposto júbilo que cresce dentro. Que o sangue baile, o suor dê calafrios, a boca rodopie, os pés azedem.

Quando o frêmito arrepia mais do que um tenso tormento, há raios e trovões. No súbito do olho da cólera, o marasmo parece ignorar que qualquer “fogoso no gatilho torra logo o contracheque”.

 

Sábado.

Se não há céu todo azul nem há mar todo sal, a enseada da tarde que tanja seu alaúde. Nem mais nem menos. Já a cotovia? Ela cante, desencante: Todavia... Todavia... No verão da andarilha, a chuva vem de repente. Dona, cubra a tristeza com o lenço. Veja, toque, aprecie.

A beleza do bordado parece um nó cego na linha d’água?

Eu posso, ela possa. Eu passo, ela passa. Eu poço e ela poça. Eu moço e ela passa. Daí já é demais, feito negar de imediato que “ideia boa nem cócegas faz em cabeça oca”.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 01 de setembro de 2020.

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