domingo, 23 de agosto de 2020

Uns amorecos

 

Uns amorecos

 

Quem dá ouvido ao que não é dito escuta o quê?

Talvez caiba a audácia de umas palavrinhas...

Há histórias que só o amor sabe de cor, e põe cartaz dizê-las sem tardar. Esta vivida por Songa Monga e Tíbio Pateta era magnífica em desencontros, recuos e noves fora; e amofinava quem tinha o azar do envolvimento, senão por terceiros, com intenções vagabundas.

Entrando de cabeça, punha-se em maus lençóis a pessoa que se interpusesse nos negócios dessas almas imbecis. Aberrações: torpes no mando; hediondas na saliva.

Tarde demais para tirar da boca a rabanada.

Envolvida em guerra alheia, sucumbia à estupidez e ao desatino; menos como público, mais como diretor a lutar por outra dramaturgia, a querer salvar do ridículo o que já vinha ao proscênio com as cartas marcadas pela arrogância desmiolada e pela vilania renitente.

E Songa Monga, nesta ocasião trazida à baila aqui, pedia um café sem o açúcar tão proeminente, porque seu paladar ofendia-se com o xaroposo. Usualmente comovente a basbaques, a quem sentado com ouvidos e olhos vidrados em alguma tela, fosse fixa ou móvel.

E Tíbio Pateta, a ele viera a luz de passar outro fio de água fervida naquele café já coado, mas a sua ideia, tirada ao propósito do veloz e do agrado imediato, desperdiçaria o patrimônio. Movido por agilidade janota em prol de ninguém, que Songa Monga cuspiu o lixo frio, com os seus furibundos naturais de desapreço, desgosto e esconjuros.

Belo par que a Arca não previra sequer premeditara, agora se vê o tanto de barro a correr pelas veias deste Novo Mundo.

Se parasse neste ponto, todavia, a nossa história ficaria entrevada no fundo da ostra. Mas o colo almeja outra pérola:

― Benzinho, tirei o doce com mais água. Experimente, coração.

― Mozinho, tá uma droga de ruim. Dê pra Fina Estampa, ela bebe que nem reclama, uma dengosa.

Fina Estampa, pela força do nome que tão bem a define, é a parte inocente, nada afetada, perigosa ou cruel. É a coda que encerra este causo pedindo a piedade das leitoras e leitores, gente feliz que sabe por A mais B como as artes e os jeitinhos de filhotinhos tão fofurentos pedem muxoxos e guti-gutis. De fato, a dálmata é gema malhada.

Uau! Outro exemplo a troco de nada.

Como assim, “nada”? Cadê a moral da história? O senhor precisa admitir: sem estátua, serve o poste; uma vez que é da natureza dos cães mijar gostoso. Nem pombas pra batizar o bronze eterno?

O moral capenga... Pelas tabelas... Indo pro beleléu...

Ai ai ai.

Diz o homem que não dorme faz três dias:

― Quando o Diabo veste Lúcifer, o farol regurgita escuridão.

Certa de si, outra pessoa sorri:

― Pra ouvir a voz do silenciado, escute bem a de quem o silencia.

De curta imaginação, alonga o douto a língua morta:

― Brigam os homens por maçã que não mordem.

Oxe.

Sem Noel que a traduza num maxixe porreta, a ideia biruta sopra ares de pensamento grego.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 23 de agosto de 2020.

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