Estaca
zero
Na hora da verdade, a onça mija na
água, o macaco não quebra o galho, o palhaço toca fogo no circo. Afinal, quando
dois com dois dão vinte e dois, milagre de casa desfaz o santo. Sim, senhor,
quando for chegado o momento de recontar as favas, o jeito será meter as mãos
na cumbuca e gritar por quantos paus se vende canoa furada.
Convenhamos, também não era para
tanto. Rasgou o papel. Seria o caso de subir do fundo da joça? Pôs no bilhete a
sorte grande:
já
volto, vou ali comprar cigarro.
Deve ser por causa desse negócio de
ficar em casa com a patroa no cangote, mais a sogra reclamona; sem falar da filharada
que Deus parece ter deixado à míngua.
A cabeça estava um balaio de gatos,
cheio de ratos mortos. Fedia a rancor e exalava ódio; putrefata de tanto marcar
passo na ladainha de sempre, no coro dos descontentes que reclamam de barriga
vazia.
Como assim, não dá no couro? Sem almoço
nem janta? Não pode o leite na madruga? Vai ter de cravar pino em vampiro?
Ô quiabo!
Tentar é humano, mas tentar duas vezes
é perseverança. Já dizia vovó, que sabia da vida, da morte, e de tudo, mais um
tanto.
Era o caso de pagar o cigarro e ir de
volta.
Tinha aonde ir; fosse, então. Logo, da
cachaça tomou a talagada.
Era o caso de rumar pra casa. Deitar a
cabeça no ventre da noite, e transar com o medo todo.
Embora soubesse que procriaria monstros,
copulou.
Caramba, não era dos filhos que tinha pavor.
Ainda eram crianças. E não teriam a vida toda pra aprender que a vingança ferve
o sangue; então, quanto mais alto o fogo, mais rápido a pururuca.
Teve sede, bebeu água. Da torneira.
Passava do meio-dia, voltou pra cama.
Com fome, fumou de novo. O mata-rato pela metade, voltou pro bar; entornou lá uma
maria-mole. Pagou caro por outra carteira. Não queria mas, sem dinheiro, voltou
e foi lutar com suas vertigens. Farto do futuro, queimou tantas quimeras que correu
vomitar a cólera e sangrar pela boca.
Se não, não. Nunca que podia dar o troco?
Aquilo ofendia um desassossego na
gente. E nele doía mais, pela fome que se ria dele, no olhar dos filhos.
Condoía-se, era um canalha condenado a dar as migalhas do pão que o diabo fingia
render.
A estrada era songa, cabulosa, travada
no fim da picada.
Se sabia, por que ia? Se sofria, por
que seguia?
A dor era tanta, por isso fumava. O
paredão, morro acima, aquilo é que punha abaixo a vontade de subir. Muito quisera,
muito perdera.
Os pulmões cavernosos. Havia morte no
pigarro.
Da vizinhança, que ouvia até
pensamento, o eco vivia dizendo que os
ventos da mudança não vão parar, nem pra pensar nem pra pôr a mão na
consciência, vão tocando a viola, porque o ar em movimento roda uma pá de moinho.
Cadê o doce da cocada doce?
Tainha arregalada, com o teto na cara,
tremendo, fisgado de modo torto, ainda que limão no ouvido ardesse o caramba:
ê
trem danado, poeta meio louco, peço mais que o pouco.
É pra já? Pra 2022.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 16 de agosto de
2020.
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