domingo, 16 de agosto de 2020

Estaca zero

 

Estaca zero

 

Na hora da verdade, a onça mija na água, o macaco não quebra o galho, o palhaço toca fogo no circo. Afinal, quando dois com dois dão vinte e dois, milagre de casa desfaz o santo. Sim, senhor, quando for chegado o momento de recontar as favas, o jeito será meter as mãos na cumbuca e gritar por quantos paus se vende canoa furada.

Convenhamos, também não era para tanto. Rasgou o papel. Seria o caso de subir do fundo da joça? Pôs no bilhete a sorte grande:

já volto, vou ali comprar cigarro.

Deve ser por causa desse negócio de ficar em casa com a patroa no cangote, mais a sogra reclamona; sem falar da filharada que Deus parece ter deixado à míngua.

A cabeça estava um balaio de gatos, cheio de ratos mortos. Fedia a rancor e exalava ódio; putrefata de tanto marcar passo na ladainha de sempre, no coro dos descontentes que reclamam de barriga vazia.

Como assim, não dá no couro? Sem almoço nem janta? Não pode o leite na madruga? Vai ter de cravar pino em vampiro?

Ô quiabo!

Tentar é humano, mas tentar duas vezes é perseverança. Já dizia vovó, que sabia da vida, da morte, e de tudo, mais um tanto.

Era o caso de pagar o cigarro e ir de volta.

Tinha aonde ir; fosse, então. Logo, da cachaça tomou a talagada.

Era o caso de rumar pra casa. Deitar a cabeça no ventre da noite, e transar com o medo todo.

Embora soubesse que procriaria monstros, copulou.

Caramba, não era dos filhos que tinha pavor. Ainda eram crianças. E não teriam a vida toda pra aprender que a vingança ferve o sangue; então, quanto mais alto o fogo, mais rápido a pururuca.

Teve sede, bebeu água. Da torneira.

Passava do meio-dia, voltou pra cama. Com fome, fumou de novo. O mata-rato pela metade, voltou pro bar; entornou lá uma maria-mole. Pagou caro por outra carteira. Não queria mas, sem dinheiro, voltou e foi lutar com suas vertigens. Farto do futuro, queimou tantas quimeras que correu vomitar a cólera e sangrar pela boca.

Se não, não. Nunca que podia dar o troco?

Aquilo ofendia um desassossego na gente. E nele doía mais, pela fome que se ria dele, no olhar dos filhos. Condoía-se, era um canalha condenado a dar as migalhas do pão que o diabo fingia render.

A estrada era songa, cabulosa, travada no fim da picada.

Se sabia, por que ia? Se sofria, por que seguia?

A dor era tanta, por isso fumava. O paredão, morro acima, aquilo é que punha abaixo a vontade de subir. Muito quisera, muito perdera.

Os pulmões cavernosos. Havia morte no pigarro.

Da vizinhança, que ouvia até pensamento, o eco vivia dizendo que os ventos da mudança não vão parar, nem pra pensar nem pra pôr a mão na consciência, vão tocando a viola, porque o ar em movimento roda uma pá de moinho.

Cadê o doce da cocada doce?

Tainha arregalada, com o teto na cara, tremendo, fisgado de modo torto, ainda que limão no ouvido ardesse o caramba:

ê trem danado, poeta meio louco, peço mais que o pouco.

É pra já? Pra 2022.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 16 de agosto de 2020.

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