domingo, 30 de agosto de 2020

Atento e forte

 Atento e forte

 

 Sentado; por volta das sete e meia. Tomando café; manhã de uma sexta-feira chocha. Com a mecânica dos gestos sem os prazeres do casual, não bastasse limitado pelo físico ao corporal, sujeitava-se ao mando que o medo inoculara na veia: melhor temer a ficar exposto ao vírus.

E veio, inesperada, uma visita.

Entrou pela janela e pousou na escova de dente pros rejuntes da bancada da pia. Inspecionou a lixeirinha. Experimentou o detergente. Foi-se.

Aquela estada despertou o sonso de sono: o pão acabou; o desejo de ir comprá-lo, intacto e estimulante, surgiu-lhe.

Com as ansiedades represadas numa rotina de pouca mobilidade, ir da porta da sala à da varanda, naquele apartamento do mundo que dava nos nervos. Sem dó os metros quadrados deprimiam o cotidiano ao diário fantasmagórico, de broto secando a clamar por oxigenação solar. Livrar-se, ir-se por um ar menos mofado, soltar-se a incertezas do riso, impulsionar-se a encantamentos do triste ─ bastaria sair.

Com o desconfiômetro correndo, moedas seriam necessárias.

Correu pegar o que tinha enfiado no bucho do primeiro porquinho, que era mesmo um cofrinho em formato de porco. Estilhaçou-o, e foi catando os dinheiros que empanturravam o barrigudinho. Tinha grana pro copão de guaraná, as fritas grandes, as esfihas de queijo e carne, pro sorvetinho também, óbvio.

E para comprar outros pares de meia? Sem problemas. O duende tem aprontado das suas, sumindo sempre com o pé esquerdo entre a cesta de roupa suja e o cordão do varal, talvez na lavagem. La plata pra tal negócio viria do bolso da jaqueta de couro, reserva estratégica a que recorria quando emergências pediam solução instantânea.

Lavou as mãos com a consciência adquirida no enfrentamento do coronavírus, afinal aquela peça de roupa precisava mesmo de tomar um banho de luz e vento desinfetantes.

Por fim, o cartão do banco.

De nenhuma maneira poderia deixar de pô-lo na carteira. Levaria para pagar o pão mais a compra da quinzena.

Tudo OK. Que alegria proteger nariz e boca com a máscara, a sua marca registrada ─ a amarelinha com três listras verdes.

Cumprido o roteiro, voltara. Contrariado, higienizava item por item. Com câimbras, forçou esticar a perna. Convicto de que precisava de potássio no sangue, devorou uma banana.

Tão certo de estar certo, não duvidava de si. Há muita coisa pouco trivial naquele cérebro de pensamentos aos borbotões.

Na chuveirada, ia emendando ideias. Precisava manter-se à tona no fluxo, sentia a adrenalina que o punha elétrico.

Tinha domínio sobre a razão de ser como era.

Todavia, na varanda do apê, queria aproveitar o solzinho do fim da manhã; acabou se irritando, é verdade, com alguns vizinhos do prédio da frente, que não paravam de gritar palavrões. Um baita vexame.

Resolveu entrar.

Ô cabeça!

Do pijama em cima da cama, esquecera-se.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 30 de agosto de 2020.

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