quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Milagre de casa

 

Milagre de casa

 

Caraca, logo agora?

Sim, vovó, está todo mundo pela hora da morte. Por isso, deixe de manha e faça-nos a gentileza. A senhora entre neste carro brilhante, majestoso, que vai puxado pelos hieráticos corcéis de crinas de ouro, verdadeiros Pégasos. Embora mitologicamente metamorfoseados em reles cabo de vassoura, e pau para toda sova no lombo da criançada baguncenta ― a minha prima e eu. Que infestávamos com balbúrdia a ordem que ali tinha se domiciliado desde antes do Getúlio; nos idos dos novecentos e quatro ― quando da chegada da dupla ancestral: o patriarca, Antonio, e a matriarca, Antonia.

Não estou brincando; eram mesmo: vovô e vovó.

Vovô viera da sua Coimbra na toga recém-empossada, carregado daqueles perdigotos bacharéis que ornamentam as paredes, enfiados entre molduras tão diplomáticas, a dar banana a quem duvidasse da honestidade dos títulos, do mérito assinalado universal por brasão.

Já vovó, a Antonia do coche refugado, viera de Coimbra fiada nas promissórias de um Ernesto, que a tapeou direitinho com a promessa de rasgar seda, emendar o soneto e tirar moedas do nariz. O castelo fedeu a maré, que a mãe de mamãe deu com as burras n’água.

Carvalho, Antonio!

Para aligeirar o nosso passo, pomos Antonio e Antonia já casados na mesma história. No entanto, pra verdade do bem, não foi isso que vovó gritou quando viu o avoado esposo estatelado no chão, caído da legendária jabuticabeira, em cujo galho que enveredou serrar tomara lugar, sentado e pimpão.

É coisa séria?

Bem, vovó Antonia nunca molhou os pés na Jureia. Botei isso pra tornar menos dramático o calamitoso do momento. Uma vez virada a sorte, se o lobo corre pro mato sem ser notado, trato de tirar o jaleco do nostálgico pra não trajar as velharias de velhaco.

Voltando ao causo da Jureia. Sabe, perto de Iguape? Foi na barra daquele rio, que o vovô ilustre, mão pra toda obra, resolveu dar jeito naquilo. Pra dormir sossegado, óbvio. Porque um dos dedos folhudos do dito cujo instrumento do diabo pra testar a calma ficava roçando a veneziana do probo ancião. Ora bolas, antes de surtar possesso com antanha ousadia, o Serrote de Ouro pôs abaixo pau e buzanfa.

Parece peta?

Gente, vovó Antonia não partiu de Portugal; vovô, sim. Antonia foi nome abraçado pra acoplar com Antonio, que tomo espirituoso extrair o vinho da uva.

Pareço lelé?

Entusiasmado com a química, virei outra pessoa.

Sem chilique, conto o bê-á-bá por uma vida melhor, que a mágica está na substância secreta.

Cumé?

Para deixar a casa piscando sem ficar esfregando os rejuntes feito condenado, cloroquina na cândida. Para temperar alface sem adição de sal que azeda a pressão, cloroquina no vinagre. Prum sono manso nos cornos da lua, cloroquina na cachaça.

Vamos, vó! Salte de banda. Entre no coro:

Cloroquina... Cloroquina... Cloroquina de Jesus.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 13 de agosto de 2020.

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