quinta-feira, 23 de julho de 2020

À flor da pele


À flor da pele

Uma árvore cai na mata, o estrondo não tem testemunha humana. À vista de tal condição, o evento terá ocorrido de fato? Sim, ocorreu. A realidade existe, ainda que o ser humano pressuponha a chancela de dizê-la universalmente percebida.
Percebemos, logo criamos.
Se pesa um bocado em quem se dispõe a narrar as aventuras da espécie? Que responsabilidade.
Acerto o passo.
Pessoa amiga, a Luísa, nome trocado para preservar a identidade, costuma dizer que meus textos parecem relógio: como nada está fora do lugar, tudo funciona na hora certa.
Vem-me a imagem da matriosca. Aquelas bonequinhas russas: da maior à menor. Assim, tiro do assunto amplo um tema mais focado e deste retiro o tópico específico, e vou até chegar à palavra-chave.
Exemplo?
Eis que baixei no computador o Zoom, meio a contragosto, mais a pedido da Bruna e do André, ambos nomes mudados pra obviedade da mentirinha. Enfim, pro bate-papo virtual via internet, instalei a dita cuja ferramenta na bugiganga eletrônica que utilizo.
E a conversa estaria restrita ao trio?
Mal começamos, entrou em cena uma senhora que não conheço. Encantadora, lembra a voz da Divina e pelo centenário de nascimento da cantora, passo a chamá-la de Elizete. E ela botou reparo na minha crônica Retrato fiel, que ficaria mais saborosa se o bolo de morango citado levasse cobertura de chocolate.
Nem sei bater bolo...
Mas, acrescentei que o parágrafo naquele texto tinha a função de destacar o uso da preposição sobre com os significados em cima de e a respeito de. Ora, está na moda dizer “discutir sobre a lei” em vez de “discutir a lei”. Ah!
Em Retrato fiel, não escrevi chocolate. Desejei ir por outra vereda que não a do racismo, por isso tracei o perfil de um cínico.
Mas cínico tem muitos tipos. Seu Rodrigues, de que tipo?
De quem fala de boca cheia: povo, vontade popular, humanidade.
Que povo? Qual vontade? De que ser humano está se falando?
Dessa gente aliviada porque a pandemia atingiu o platô, como se, ultrapassando mil mortes por dia, pudéssemos retomar os rotineiros comércios. De pessoas querendo o novo normal de sempre, como se fosse natural negar ao fluxo mudar de rumo.
Dá raiva? Dá.
E dou Cego de amor.
Ouvindo-me, a Elizete, tendo compartilhado este texto no grupo de leitura, alegrou-se com suas amigas que entenderam narcisista quem ama seu semelhante mas odeia não ser correspondido.
E como nutre a ilusão de não ter preconceitos. Quem?
Quem, com muitíssimo orgulho de si, se intitula brasileiro, patriota, nacionalista, gente comum, igual a todo mundo. Sim, sim, igualzinho a quem não viu, não vê e continuará sem ver a cor da maioria deste outro Brasil: a dos jovens mortos pela polícia, de quem sobrevive nas ruas, de pessoas desalentadas.
Latindo de ódio, respiro.
E minha matriosca não lavra o amor como outro relógio pulsando no peito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de julho de 2020.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Retrato fiel


Retrato fiel

Então, a crônica de hoje é sobre o quê?
Poderia ser sobre a cobertura de morango num bolo de morango. A dizer respeito à camada que fica em cima, uma tentação pra mudar a cara destes dias. Se poderíamos falar sobre o queijo? E justamente por imprecisarmos disso, a verdade seja dita: quando falamos sobre o queijo, nele jogamos perdigotos, espargimos aerossol. Um horror!
Sim, a consciência abre os olhos da gente.
A palo seco: curando a sarna, ficam as pulgas?
Corpos a mais, mortos a menos.
Que a imprecisão alivia o que entendemos por achatamento, pela visibilidade do tal platô. No limite da platitude, escancaramos.
Até aqui viemos, então daqui voltaremos.
Mais à frente. Voltaremos dois passos à frente. Para o futuro. Sim, não retornaremos, pois somos do amanhã, de onde Sebastião ainda espera. Fomos ungidos a priori. Batizamos a lágrima serena da noite do universo. A nós não nos resta senão cumprir com o nosso caráter.
Destinados à glória; submissos à glorificação em vida.
Sem desdém, vamos.
E se há fios soltos, com eles tecemos a humildade da nossa fibra. Com as gotas de sangue de nossas pacificações tropicais pincelamos a irreverência de nossas alegrias tacanhas. Com a galhofa de nossos pecadilhos confessionais nutrimos os famintos que desabrochamos a meio do caminho de lugar nenhum.
Pelo povo, pela vontade popular ― não estamos a passeio.
A pedir mais. Quer porque quer. A ele seja negado. Pra que possa o aprendizado da dor, da fome, da miséria. Perca o enfezamento.
A brisa noturna lambe o chão das covas. O triste sofre e chora. De cara amarrada. Fechado no mistério. Tem mãos pro trabalho, mas os calos lamentam, imploram. A luta ainda está vindo, segue vindo, não para de vir. À venda? Venda-se.
Se conhecemos? De passagem.
Abençoamos a nós que nos julgamos abençoados. Seguimos pela modéstia que nos faz bem-humorados, cientes da iluminação que nos orienta na escuridão dos sentidos. Temos luz interior, somos farol. A quem perdido, ditamos o caminho. Basta ouvir. Ouça nossa voz. Siga à sombra. E coma do farelo, porque o nosso pão é doce, energético e salubre. Não há no mundo mágoa que nos paralise, nem infelicidade que nos vitime, e nenhum eco nos guia. Soltamos à palavra o que em nós é água, maná, origem que perdura, inesgotável fonte, compaixão que nos faz desbravadores. Vocacionados, tradutores do amor. Sim, amar nos faz condutores, então induzimos. Solidários, motivamos.
Mas, conseguirá suportar? Suporte; dê sustentação.
Seja ombro, seja amigo.
Vê? É nosso o céu do Cruzeiro, das Três Marias.
Ah! Sim!
Com o lobo intacto, o coração em faíscas, mãos untadas de cuspe abundante, tomemos a dose certa do amor. Gozemos por abraços. E beijemos por aliança. Amemos agora, bem na hora.
Pra completar este retrato do cronista feito cão vivo?
Alegra... Pondera... Gardenal!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2020.

domingo, 19 de julho de 2020

Viagem na carne


Viagem na carne

Disposto a encarar o dia que chovia, ocupei o posto de observador equidistante: protegido pelas lentes lamentáveis dos meus óculos; e seguramente a quatro palmos da tela do computador de mesa.
Entre o factível e o fictício, o factídico.
Foi quando, neste dia 13/07/2020, neste Estadão, neste Caderno 2, nesta matéria assinada por Julio Maria, não sei o quê me assaltou desde as garrafais: sons da alma em construção.
Logo me pus a cofiar uns fios do cavanhaque.
Não relinchei nem escoiceei, todavia empaquei. E empacado, este pônei miúdo de suíças em cultivo coçou a calva, lisinha por lâmina de barbear. O careca de pijama amarelo gosta de deliciar-se com a pele desnuda da cabeça. Algo infantil, num prazer de deslizar a mão pelo cocuruto. Sem estudá-lo na forma, reconfortando-se com o quentinho. De um gostoso calmo, tranquilo, sereno.
Uma gota de serenidade brotou-me da página em que escrevo, aí a imaginação viu diversamente: o que se forma.
Irei mudado pelo que acho que vi?
Os sons das palavras, a delícia de dizê-las em pensamento. Que morar sozinho admite relacionar-me comigo apenas na cabeça, dizer aos neurônios o que me dá na caçoleta. A escutar-me vivo a viver. No impulso, o momento de agir por mim. A vivenciar-me sem a obrigação do juízo certinho, de ouvir a voz da razão. Sobretudo, sem medir cada uma das minhas bobagenzinhas, aquilo que faço sem o compromisso da sanidade que pondera, calcula e ajuíza.
Quero a conta errada, imperfeita, fora do prumo da chave posta.
Cacos de um espelho fosco. Mole, pelo sorrisinho malicioso.
Deliciosamente vago, flutuando no ar da sala. Livre em mim, tendo a cachola mergulhada em ir pensando sem pensar que pensa. Que a âncora siga sendo a cadeira, com o corpo sentadinho. Sem o líquido e certo, sem a frieza do gelo, sublimando-me rarefeito. E que a mente siga enfunada pelo vento da imaginação, rumo ao desconhecido que em mim navega em silêncio.
Sem palavra, sem sentido?
Uau!
Tem o outro. Este outro. Aquele outro. Tantos, num só. A fazer-me esquisito. Sem a autorização de sentir-me estranho. Não me outorgo o direito de instituir-me familiar. O mundo informa, deformo. Conforme a hora passa, me reformo num segundo.
Mesmo já? Agora.
Há um propósito que faz cócega na ponta dos dedos. Há a barriga que ronca, vem pra página. Há a brisa boa que não afoga a realidade nas abstrações mentais. Poderia fluir na corrente das sensações que fervem nos vasos do corpo.
O que não calam os cotovelos? Que a carne tem dores.
E a minha boca, nada? Salivo.
Se caído estivesse, com os braços apoiados no tampo de vidro da mesa e a tela recolhendo o que vou digitando, poderia jurar que estou tonto, rodopiando no imóvel.
E como ninguém de nós foi sugado pro mundo da lua, a título de quê assumo que a sensualidade seduz?
Obviamente, analisa-se bem melhor quem faz análise.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de julho de 2020.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Brilhante


Brilhante

Em A vida e o tempo, texto do dia 12 de julho de 2020 no jornal O Globo, atribuindo a Nietzsche, Martha Medeiros citou: “Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo”.
Nem bem me ocorre se acaso serei, soa o interfone.
Minha água acabou, o entregador veio rapidinho trazer o garrafão. Até aí, nada de novo sob a chuva; a não ser a capa plástica deixando molhados os pés enfiados na típica sandália de borracha, cuja marca nem preciso nomear. Mesmo na adversidade, a perseverança. Mas, divago. Retribuindo o bom-dia, o jovem fez o sinal com a mão que por estas plagas quer dizer... joia.
Subo para continuar a ler os jornais, em versão digital, cópia fiel à edição impressa. Ao final do texto, é-me oferecida a oportunidade de avaliar o que li por meio de dois sinais gráficos: o polegar para cima, gostei; o polegar para baixo, não gostei.
Para entender a semiologia da coisa, visualizo a minha identidade. O documento de registro geral, o famoso RG. Uma vez que a cédula de identidade contém uma série de dados, como o nome, a filiação, a data e o local de nascimento, origem e data da expedição, o número do registro, com a localização de lavratura.
E a foto?
Digo que, nas circunstâncias em que é preciso a comprovação da idade ou o reconhecimento físico, o RG é solicitado. Você quer entrar no cinema pra ver filme só permitido a maior de 18 anos?
O seu RG, por favor.
O lanterninha estabelece a conexão entre você, de carne e osso, e a imagem no documento. A foto é sua. Contudo, não passa disso: uma representação da sua pessoa.
A ubiquidade... Que tentação vivenciá-la.
Será banal saber o quanto há de mim em quem me conhece?
Vence a vontade.
Então, nas redes sociais não fica surgindo gente do nada só para atormentar, perseguir, atacar as pessoas que ganham fama?
Bem instruída, essa gente age como se nem gente fosse, pois tem o dom de multiplicar-se e atingir milhares de pessoas numa rapidez.
Por curiosidade, entro numa página. Algumas fotos. Pouquíssima interação com os amigos do perfil. Amigos?
Continuo, seleciono comentários idênticos. Procuro mais. Prossigo e vou entrando nas páginas de pessoas com poucas fotos e raríssima relação com outra leva de amigos tão diferentes.
Quando vejo, isso de ficar indo atrás de perfis que se comportam como fantasminhas nada camaradas, gastei uma boa parte da tarde.
Que babaquice a minha.
Cada minuto, cada clique... Sem que me pedissem, fiquei gerando dinheiro pros robôs, fiquei trabalhando de graça.
Nos coliseus do mundo, não estou nas tribunas entre convivas de togas elegantes nem nas arquibancadas boquirrotas, e nem na arena como leão que ataca ou cristão assassinado, sigo me condenando a exercer o posto de narrador da carnificina nossa de cada post.
De novo, fígado, quero ter outro futuro?
Irra! Preciso da Lei de Abolição de Servidão Digital.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de julho de 2020.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Moléstia factual


Moléstia factual

São seis horas e sete minutos, começo o texto.
Fiz questão de marcar o início, pois esta é uma experiência inédita para mim. Nunca antes escrevi sem rascunho, direto no computador. Digitando letra a letra, palavra por palavra, frase depois de frase, sem o auxílio de dicionários, sem apagar nada, sem perder tempo. Dando ao pensamento a velocidade dos dedos que batucam as teclas.
Sim, esta é uma vivência toda minha. Por que me decidi fazê-la?
Acordei no horário habitual, mas virei pro outro lado.
De ontem para hoje, esfriou. Está chovendo. Uma chuvinha fria. O esperado, próprio da estação, algo típico do inverno. As andorinhas e os cães, no entanto, eles e elas não sabem carregar nos corpos estas prescrições. E haverá quem sustente: irracionais.
Não me definiria irracional nem me acusaria mandrião, vagabundo ou imbecil, por ignorar em mim alguma característica moral a que me possam, de fato, atribuir, como caráter. Traço próprio, marco típico, e procedimento previsível de adversário à ordem natural das coisas.
Minha cabeça está cheia de coisas. Por fazer. Mas, vá lá: admito a inclinação de ficar quieto, longe da disposição que este dia requisita. Com um sentimento difuso que me põe incapaz de agir conforme ao figurino do óbvio, quero mais é ter tempo pra não fazer nada.
Contudo, não vou transformar o sofá em divã. Estou desconfiado que as tempestades que minha mente julga como fundamentais para definir quem sou não passam de fumaça. Nevoazinha sem febre, que a brasa é fantasia de quem não tem tutano para enfrentar fantasmas de origem inconsciente. Daí a densidade da nuvem, estacionada em mim como preguiça.
Pego o Lafarque que havia separado para ler hoje, todavia "uma estranha loucura está possuindo as classes operárias das nações em que reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta na sua esteira misérias individuais e sociais que, há séculos, estão torturando a triste humanidade”. Largo o livro.
Continuo a escrever sem criar expectativa alguma. Para não gerar decepções que, sem dúvida, irão me aporrinhar, como frustrações.
E aí, como eu lido com as minhas frustrações?
Quimicamente humano, recorro a cápsulas, pílulas e comprimidos. Por prédica profissional, ajeito minha mente. Fisiologicamente, estou sereno. Prudente, ignoro a hora informada pelos fatos. Sinceramente, desconheço a história que não busco. Honesto, escolho a sabedoria de não confirmar a realidade configurada pelas notícias.
Aos fatos ― o que acontece, o que conta como acontecido, o que produz reações ao que se conta como teria acontecido. Donde posso concluir que há uma fantasia, um discurso artificial, uma narrativa que conta pra mim o que pensa e faz o mundo.
O que estou fazendo? Quero viver o momento?
E o sofá ali.
São seis horas e treze minutos... Adeus, crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2020.

domingo, 12 de julho de 2020

Anatomia do abismo


Anatomia do abismo

Em vez de autorretrato: outrorretrato. As visões dos outros ajudam a ver-se com matizes variados, além do branco e preto das certezas. O que pode ser um problema a quem não quer dúvidas, certo de que o mundo só fica complicado quando há normas, regras e leis que ora dizem, ora contradizem. Com história única, própria e particular, cada pessoa contribui para torcer e distorcer, travar e destravar, avançar e recuar a figurinha que cada qual faz de si.
Muitas vezes, ouve-se mais a voz interior, dando valor exagerado ao que o ego diz. Outras tantas, ouvidos moucos dissimulam o que se pretende projetado de quem está por perto. Entretanto, a comédia e o drama resultam das misturas, das sopas que se faz, errando a mão, o passo retificando.
Quer agradar? Aborrece. Quer-se repugnante? Apetecível.
Mas... Saindo da abstração.
Aí, por estes dias, me peguei pensando em Leonor Watling, atriz e cantora espanhola, casada com o cantautor uruguaio Jorge Drexler. E vejo/ouço o casal em Toque de Queda. Ambos estão recuperados da Covid-19, então, acolho: que o amor penda a balança para a vida.
E posso recolher da coluna de Hélio Schwartsman, Por que torço para que Bolsonaro morra, a lição ética do racionalismo, um cálculo moral do consequencialismo que supõe que as “ações são valoradas pelos resultados que produzem”, porque, passando de 70.000 mortos no país, para que vidas sejam preservadas, a lógica deve prevalecer.
Indiferença ao milhão de infectados numa estatística?
Alvoroço pela personificação num título?
Tento ouvir o mundo. Há gritarias. Há trovoadas. Há tornados. Há sussurros. Há silêncios. Há pardais pipilando. A vida ouve o mundo? Quem dá ouvidos ao que a vida diz?
Não ando sofrendo de surdez. Todavia, com o volume mais baixo dos ruídos cotidianos e com o espaçamento entre os barulhos, posso comparar ontem e hoje.
A minha deficiência auditiva baseava-se em ouvir sem escutar, no automático, sem prestar atenção. Agora, me certifico da respiração e acompanho o pulso. Impressiono-me, pois noto o meu corpo vivendo. Assombrado, mantenho a escuta sensível ao que antes sequer ouvia, mesmo consciente de que, sob as mesmas camadas do defectível e sondável de sempre, a realidade está tão factícia por suas sutilezas.
Enquanto me for suportável, mantenho o abismo da vigília.
Não obstante, com um pé na razão e outro na emoção, assisto ao Sr. Brasil na TV Cultura, edição comemorativa dos quinze anos do programa. De Êta nóis!, cantada por Ney Matogrosso e Luli e Lucina, compositoras da canção, colho: no milagre da lida, o amor vira mel.
Para reconstruir o destruído?
Ainda do programa do Rolando Boldrin, de Pesadelo de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, colho: quando um muro separa uma ponte une.
E retorno a Leonor: poco a poco la pena se va.
E que vá? O amor canta que: vá!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de julho de 2020.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Luz da mirada


Luz da mirada

Leonor, estou com um ciclone nas veias...
Cansado, descanso? Nada.
Como os dias não estão fáceis, corro. E dou uma corrida em mim, que não me entrego ao facismo. A facilidade atrapalha, pois coloca o carro nas costas do boi. E já viu: se vai um boi, vai uma estrada.
E estrada não tem calçada. E pela calçada: vou parar na fila. Nela fico quase duas horas e meia. Quinto dia útil do mês. E torro no sol.
Foi terça?
Com esse tanto esperando para pagar contas, as minhas leituras dos jornais ficam acumuladas. Corro ler as edições do Estadão, não consigo. Me embanano todo. Retomo. Recomeço de segunda e volto pro sábado. Me confundo, mas me acerto.
E também a Folha. E ainda O Globo. Tudo junto?
Tem ainda o Fernando Pessoa que levo comigo ao sonho diário. E será que “sussurro gemebundo” é do Ricardo Reis? E “sinto todo meu corpo deitado na realidade” é do Alberto Caieiro?
Nem respondo. Já estou desejando outra coisa.
Desejando coisíssima nenhuma, é que já estou pegando imagens públicas na internet.
Quero juntar uma mão verde e outra amarela, ajuntadas, que nem estivessem rezando. Há em mim este amor ao próximo que muito me descontrola e, desabalado de tal maneira, bolo a frase que digito no rodapé da figura: rezando pela pronta recuperação do Brasil.
Risco do Brasil e coloco de todos nós. E assim:
rezando pela pronta recuperação de todos nós.
Ajeito daqui, arranjo dali. Aprovo as mudanças. Posto na rede: as mãos em oração, com a legenda em caixa alta, em negrito vermelho.
Quarta-feira na correria. Nem consegui ler os jornais, ainda.
Sei lá o que me deu, mas troquei o travesseiro fofo e baixinho por um mais alto e mais duro. O resultado?
Estava testando. E atento ao que me podia ocorrer: a coluna voltar a doer, como houvera acontecido recentemente. O pescoço, a nuca e as agulhadas problemáticas, incômodas. A densidade do desconforto e o meu método científico de experimentar na pele, digo, no corpo.
E bastaram três noites: de sexta para sábado, deste para domingo e deste para segunda. Troquei o travesseiro, voltei com o anterior.
Ah... Então, estou sob tortura.
Toca ouvir Ennio Morricone. Já estou embaralhando Cazuza com os convidados do Fronteiras do Pensamento, com Mia Couto, Paula Toller, Andrew Solomon...
Caramba. Faz trinta anos que o Cazuza morreu.
Maravilha. Cacá Diegues especula sobre a raiz comum de solidão e solidariedade... Ele diz algo bem bacana: a solidariedade é “o amor sem sentimento de propriedade sobre o outro”.
Antes da pane, o pânico? Não. O pânico já é a pane.
Tentando manter a sobriedade, apesar das horas aceleradas que andam comendo a rotina. Uma ova que tá tudo bem.
Li certo? Paula Toller? Para falar o quê?
Preciso correr pro YouTube, quero ver Peça, monólogo com Marat Descartes e direção de Janaina Leite.
A crônica? De um jato.
Ai! Que pena, que peninha, Leonor...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2020.




terça-feira, 7 de julho de 2020

Que coisa mais doida


Que coisa mais doida

O jornalista Zuza Homem de Mello anuncia uma biografia de João Gilberto. Hum...
Pessoas admitidas à privacidade do famigerado bossa-novista de Chega de Saudade relatam que o baiano, premiado com um desses raros fenômenos da natureza, tinha ouvido absoluto. O compositor de Bim Bom era capaz de reconhecer uma nota musical sem precisar de referências. Sua percepção era de um profundíssimo apuro, o que lhe permitia identificar semitons de imediato.
Assim, para dar ao público sem audição naturalmente preciosa ou tecnicamente estudada, ele ensaiava durante horas, ficando a repetir um único acorde até expressar as variações microscópicas que podia escutar de modo tão aguçado.
A sua técnica não estava a serviço da perfeição como costumam julgar, dava-se em função educadora, para que os tímpanos comuns pudessem gozar de experiência estética peculiaríssima.
Talvez seja historinha ao redor do mito, mas contam que o Mestre de Juazeiro tinha verdadeira fascinação por pessoas azuis, aquelas que têm voz afinada em si bemol e não em dó maior como a maioria.
Sei. Algo me diz que o referido músico era... doidinho.
É carinhosamente crítico este doidinho. O exemplo de ser humano diferente da chamada loucura “normal”, dos que se acham um Nero ou Napoleão. O termo é aplicável àqueles que vão levando uma vida pacata, cotidiana, sem grandes abismos metafísicos, que, entretanto, tem particular fixação por algum detalhe, alguma minúcia, o que só a eles deixam malucos a ponto do exagero, da desmedida, de se verem atirados ao sério, de fazê-los parecer dementes de tão atraídos.
Bem capazes de ficarem horas e horas no bendito acorde, até que o gato, bicho que possui uma audição assombrosamente aumentada, resolve pegar o chapéu para ir miar em outro canto. Fato este, aliás, sempre citado quando se quer carimbar como mal-agradecido quem prefere a privação das sutilezas expressas naquele bim bom bim bom bom bom.
Caramba, isso de associar cor com a pessoa, por sua voz ou pela aura da sua presença, dá o que pensar. Será que foi por causa desse ouvido absurdamente refinado que Van Gogh usava cores berrantes, fora do padrão, ou teria cortado a própria orelha?
Opa. Sem a pretensão de retificar o que me parece um equívoco, não sigo quem diz o mesmo em relação a Arthur Rimbaud. No poema Vogais ele tratou de associar vogais a cores, assim o A é preto; o E é branco; o I é vermelho; O é azul; U é verde.
Ah tá! Quando ouço “dia” não imagino algo rubro-negro. Por certo, minhas limitações põem o sol brilhando no céu de anil.
Aliás, longe de mim querer me juntar ao poeta francês ou ao pintor holandês, que tinham certos cacoetes, de nascença ou pela força de hábitos invulgares. Como gosto muitíssimo de ambos, fico tentado a chamá-los... doidões.
E?
E no vaivém da vida, valsa mal este cronista... doido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2020.

domingo, 5 de julho de 2020

Zaragata


Zaragata

De bobeira, por intuição. Talvez por que seja domingo, ou por que esteja com uma sensação de alívio. Quiçá o sufoco da ocasião tenha saído dar uma voltinha no quarteirão.
Uma saída...
E ir sem pressa. Ir com a disposição dos descobridores. Não, indo com olhos que inventam o caminho. Ir disposto a inventar-se menos pesado, angustiado. E deixar-se ir mais afeito ao contentamento que não se explica, vive-se. Uma maravilha.
Tratar de viver os sentimentos que estão vindo sem mais. Porque o instante é agora, com o sabor do inadiável, do que se faz único.
Tolice? Bobeira, mesmo. De uma leveza. De quem não está nem aí para projetos, projeções, programações.
De graça. Bem engraçada.
O negócio mesmo é não ter cabeça para negociar. Poder degustar o momento. Fazê-lo, o prazer de estar de bobeira, inegociável. Então, por que um grão de silêncio quer se passar por algaravia?
Uma palavra cheia de luz. Praias que escancaram o horizonte. De alegrias contagiantes. E de tamanha magnitude: algaravia.
Ó algaravia que está na alma, dá-me, ó encanto, a calma de quem ouve a grama crescendo. Por um momento, ouve sem perceber.
Ó algaravia que brota da lama, venha-me, ó quietude, traga-me a chama que ilumina o ar que respiro. Por um segundo, brilhe a paz.
Ó algaravia que resgata o corpo, abriga-me, ó sopro, no lume que regenera o músculo estafado, o tendão agastado, o nervo enfatuado.
Por um instante, por este instante, sem cálculo. Para existir a seu bel-prazer, pelo bom de vivê-lo à medida de sua oportunidade.
Assim, os olhos encontram os olhos. Que sorriem. Estão sorrindo. Sem saber que sorriem, que podem sorrir, nem pedem para sorrir. Os olhos dão com o olhar que encontra porque não o estava procurando. Porque havia de descobrir o que não estava encoberto. Porque há de revelar o que não está oculto.
Basta este encontro, o fortuito.
Entretanto, para que o acaso possa o enlace, a união de universos tão distintos, é preciso estar desatento, distraído, como ausente de si, em si. Entretanto, que se permita a presença na lacuna, no vazio que se abre entre um passo e outro, na passada que não cessa.
Então, neste estado de espírito, nesta emergência do que ignora o sentido do que está sendo feito, nesta existência que dispensa o teor do que se vive, aí o inefável, o indizível, o incomunicável, sorri.
É o sorriso da gata que se lambia todinha, se limpava de alguma coisa invisível, se entrega àquilo, e, repentinamente, o inesperado se desprende.
Da cor da beterraba... Da terra.
A danadinha esteve fuçando os vasos. A discreta esteve cobrindo suas pegadas. Esta bichinha de sete meses, tranquilamente no sofá, no seu lugarzinho no sofá, é aí que ela basta a si mesma, é daí que o infinito escapa e, sorrindo, se deixa materializar como encantamento.
Nana nina não? Sim.
Só um bobo para acolher a misericórdia que mia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de julho de 2020.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Cego de amor


Cego de amor

Com a realidade bem-comportada atrapalhando quase um nada a visão clara dos fatos, o homem muito educado desce à rua com seus conceitos nutridos nos bons modos que traz do berço. Afinal, hoje em dia, é preciso estar certo da postura correta, de acordo com o figurino da cabeça boa que sabe agir com propriedade na hora exata.
Sem tirar nem pôr, antes de chegar à esquina, a verdade cristalina logo lhe dá bom-dia. Eis dois rapazes tomando uma geral de policiais, isto é, os adolescentes, de boné e sem camisa, estão em pé, com as pernas afastadas, as mãos pouco acima da nuca. Certamente, devem ter aprontado alguma ― pensa o moralmente lúcido.
Sem tempo para ficar reparando na vida dos outros, uma vez que a manhã tem suas tarefas por cumprir, o negócio é acelerar o passo e ir direto para o banco.
À porta da agência, sentados sobre o papelão, a mulher passa um cigarro para o homem. Em plena luz do dia e à vista pública. E como fede, aquilo só pode ser droga. E isso não está nada certo ― pensa o politicamente ético.
Com sorte, desvia da moça que cata latinha que está trabalhando de cara limpa. Passa rápido pela farmácia, para pegar mais máscaras e frascos de álcool em gel. E quede que venha alguém chamá-la ao respeito ― pensa o cidadão indignado.
O mundo anda no avesso. Com uma tempestade de poeira vindo do Saara para a América; com uma nuvem de gafanhotos atacando as plantações na Argentina; com um ciclone devastando o Sul; tudo por causa da conduta mundana ― pensa o fiel resignado.
Que a sua mente concentre-se na lida.
De lista na mão, vai pegando os itens. Enquanto o segurança do supermercado dá uma dura no sujeito que está sujo, cheirando mal, balançando de bêbado no setor de bebidas. Mais um vagabundo que não toma vergonha ― pensa o naturalmente humanista.
Segura de si: a pessoa que não gagueja quando grita com quem quer corrigi-la; a consciência tranquila que dorme o sono dos justos; a alma satisfeita que lava o prato das suas refeições. Ela garante que merece o que tem porque é tudo fruto do trabalho ― pensa o maior dos defensores da história.
E verdade seja dita, sem medo e preconceito algum. Que seria da civilização brasileira se homens como ele, íntegro e incorruptível, não vigiasse, lutasse e perseverasse pela decência, pela honradez, pela disciplina? A pátria já estaria entregue a quem só sabe exigir direitos e mais direitos ― reflete o exemplar da nação pacífica, sem vulcão e sem terremoto, de uma gente alegre e única, unida pelo mais sensual dos sentimentos: a igualdade.
Tão leal a si mesmo, diz o singelamente modesto brasileiro que é preciso tomar partido para agir com imparcialidade, é preciso praticar a parcialidade do lícito que fundamenta a validade dos legítimos.
Com simpatia espetacular, salta um cordialmente realista:
― Quem ama seu semelhante odeia não ser correspondido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de julho de 2020.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Cronicamente humana


Cronicamente humana

Por amor à humanidade, quem poderia muito bem estar narrando a crônica está meio inquieto, andando pausadamente, disposto a não despertar a curiosidade dos passantes. Pois é, a pessoa que poderia estar narrando está numa esquina movimentada da avenida, ali, num lugar estratégico, bem na entrada daquela galeria em que se vendem camisetas com os mais quentes slogans políticos do momento e há aquele restaurante cujo chopinho vem com um colarinho densamente saboroso. Sim, sim, o ponto é deveras relevante para observações de campo, porque todo tipo de gente não para de passar. Ou seja: basta um pouco de paciência, olho clínico para a coisa e, voilà, obtém-se o registro do que realmente interessa. Por isso, pelo amor ao próximo e à bisbilhotice mundana, quem fica se ocupando com a fisionomia dos transeuntes não faz caso de contar.
Em vez desta prosa que pisca à amiga leitora e ao amigo leitor, a pessoa dedica-se a acreditar que está oculta atrás do recato da sua presença. Contudo, as demais que se veem obrigadas a desviar não resmungam nem gastam saliva com impropérios ou zombarias.
Elas procuram evitar quaisquer tipos de choque, o frontal quando desatentas ou os esbarrões, uma vez que a pessoa que deveria estar mais esperta fica viajando por um universo paralelo.
Aparentemente, pois a pessoa solta um palavrão assim que ouve alguém questionando a razão dos ônibus lotados em plena crise do corona, como se houvesse um quê de loucura coletiva em insistir em ganhar dinheiro para o pão com queijo de cada dia.
Pensando melhor, mesmo o pão de queijo que está comendo tem o sabor indigesto de algo bom feito na hora errada. A pessoa que não está narrando quer doar o saquinho inteiro, comendo só aquele que já tinha dado uma boa mordida. Afinal, é preciso ter consciência.
Assim, certa de ter passado a agir para o benefício da sociedade em geral, ela acende um cigarro e senta-se para fumar sem pressa. De pernas cruzadas, pigarreando de vez em quando, cuidando limpar umas sujeirinhas embaixo das unhas, passa a escutar o que a fila da lotérica anda comentando.
Alguém reclama, com o ardor dos inconformados, que uma vizinha que vende bolo caseiro no portão lá do shopping vem recebendo sem atraso a parcela emergencial do governo e ela nada de ver pingar um tostão na conta, mesmo tendo feito o cadastro com dois nomes, o de solteira e o de casada.
A pessoa que não está narrando, por uma solidariedade exemplar, acha legítima a indignação da mulher que critica a incompetência do governo que nem para ajudar quem mais precisa faz isso direito, na rapidez com que a fome vem comendo os estômagos do país.
Precisa ter atitude.
Mesmo que pensem que está sendo espertalhona, a pessoa que gostaria de estar narrando escreve num pedaço de papelão:
OUÇO AS SUAS DORES.
E uma meninota corre ser a primeira.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2020.

domingo, 28 de junho de 2020

A coisa certa


A coisa certa

Peraí, quer dizer que você faz uma coisa de cada vez? Age assim pra não gerar confusão? Pra dar conta do pouco tempo que tem? Ou quer acreditar que consegue manter-se sóbrio?
Um momento. Respire, pense.
Eis o ponto no qual há duas ações simultâneas: pensa enquanto respira. Acrescente-se: envelhece. Vive numa embolada só. No ritmo que você dita a si. Além do pensamento, da organização das ideias e do entendimento consciente. Para que haja consenso em aceitar que pensa, age ao pensar e põe em palavras.
Atos, palavras e pensamentos, até no dissenso.
Nesse ínterim, ocorre-lhe:
“Sabe aquele ambiente do tipo confronto eterno num cubículo sem saída? Haja peleja, haja resistência. Daí alguém sucumbe, entrega de bandeja. O outro não vence, ele tripudia. Sem vitória a ser celebrada. Sem conquista a ser comemorada. Há o peso tacanho da submissão imposta. Não há bravura nem coragem. Prepondera o ato autoritário, vil, humilhante. O oco do osso, o sombrio do fechado, o ar que some, que asfixia, e extermina. Então, que haja a retratação, uma vez que o horizonte revela-se o confronto moral num poço sem justiça”.
Foi para ficar embriagado, não de palavras ou de sensações, com a cerveja? Em plena quarentena? Voltar do boteco neste estado? Pra ficar falando nada com nada, um palavrório estúpido?
E aqueles livros que sempre esteve a fim de ler? Por que não os ler agora?
Primeiro: A Peste, de Albert Camus. As circunstâncias já bastam. Se está vivendo a clausura por recomendação científica, a sanidade pede não cavar mais funda a caverna onde pressente o enfarto.
Não lerá.
Porque sente o coração na boca, a veia tensa do pescoço, a nuca dura. É preferível não riscar o fósforo. Acender a vela para quê? Para deixar menor o cárcere; pra consumir rapidamente o ar que resta.
É lógico: fica difícil ler O Doente Imaginário, de Molière.
Enfim, como estátua viva que faz da cadeira cativa seu pedestal, o narciso pouco dado aos zumnidos da família correu chorar da própria desgraça. Não queria expor a barba rala aos escrutínios da tia metida à modista, mas, sem máscara pra ir bebericando sua cervejinha, até agradece quando notam o cavanhaque grisalho que tem cultivado no isolamento. Lá pelas tantas, chupando caroço de azeitona, passa-lhe pela cabeça o xeque-mate: será que vírus roda ou vomita?
Bebendo... Bebendo... Babando.
É melhor voltar. Não adianta ficar onde não querem que fique.
E já está até vendo que vão contar tudo. Como falam. Falam pra caramba! Será possível?
Eis as duas brincando no cercadinho. A menina pega do chocalho para bater na testa da outra. Não são gêmeas, parecem. Há diferença de meses entre elas. Trocam tapas, puxam cabelo, abrem o berreiro. Alguém ri da briguinha. Lilith com Eva, dizem ao fundo.
Será que disseram isso mesmo?
Como tombo não é pirueta, vai direto pro chuveiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de junho de 2020.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O sabor do tempo


O sabor do tempo

Na mão esquerda uma laranja, vistosa de tão apetitosa; na outra, tão cheia de dentes que dá medo, uma faca. A quem o veja naquela pose talvez ocorra que esteja pensando na morte da bezerra. E que bezerra será essa que possa ter a cara à vista de quem lê?
O homem retirado da previsibilidade, posto que suspende o tempo ao gerar o vácuo do instante, de pergunta sem resposta, ele está se questionando: haverá jogo mais fútil do que, ao ver-se constrangido a dizer o que nem pensa, acabar ridicularizado por atender a vontade alheia ao presente?
O homem que se descobre submisso à tamanha inquietude que o paralisa, ó doce ilusão, assegura-se íntegro ao afigurar-se o pensador com a faca e a laranja nas mãos.
Sim, um coração como o dele, de homem que se revela parado a sustentar o gesto de abandonar-se aos próprios devaneios, ele pulsa a criança implicante quando há tentativas de cerceamento.
Sim, o homem alimenta-se da infância que traz dentro do peito, na bufada a contragosto, na arrebentação do ar para fora, que o suspiro vem com a pujança de menino contrafeito.
Este sentimento rebelde acorda-o para o mundo desconhecido, de inexperiente afeito aos sustos do aprendizado, de quem surpreso ao desvendar viva dentro de si outra pessoa.
A pessoa que se permite estar consigo mais do que um segundo nem liga manejar a lâmina a favor, no corte preciso, para que a casca retirada libere o desfrute do sumo da laranja, como sobremesa sutil.
Quer a satisfação do fruto maduro, a felicidade de fruta colhida na plenitude. Sem a pressa a qualquer preço, que azeda de ácido.
No abismo do desamparo, feito pedra no tênis, a realidade dispara a imagem que incomoda: o fogão. De fato, aquilo está imundo.
A pessoa que resiste teve mesmo que aprender por si a ser dona do próprio nariz, do tempo que pode dar a si, da laranja e da faca nas suas mãos, porque o mundo vai em frente, então, que siga, prossiga e vá como lhe aprouver.
As veredas de sua mente estão respirando pelo corpo tenso, com o mistério do reconhecimento do mesmo ser que tivera cabeleira de menino, dentes de leite, joelhos sem cicatrizes, miopia em dicionário, e a alegria de poder diferenciar a lima do limão.
Outra vez, interpondo-se como formiga cortando barata morta, tem a imundície do fogão a primazia do nojo. E enojado, suspira. O ombro prevê o esforço de esfregar o desengordurante com a buchinha e, por necessidade, pedir o reforço da palha de aço. E tasca mais a química do sapólio, da água sanitária, numa trabalheira do cão.
Mas, além disto?
Já que o tempo não para, o homem entrega os pontos, aceita que ficar corroendo-se não vai impedir o desenlace, o que vem.
Entre a humilhação do agrado que motiva o desprezo e a firmeza na integridade que preservará a dignidade, o homem chupa a laranja com bagaço e tudo.
Tudo? É certo que as sementes dão gosto de futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2020.








terça-feira, 23 de junho de 2020

Mensagem expressa


Mensagem expressa

Ótimo! Levantara antes das seis. Leu os jornais de ontem que não tivera tempo. Tomou o desjejum. E, como quem sabe o que tem pela frente, cuida do dia.
Faz o trajeto de sempre. Sobe em direção à praia. Engraçado que a topografia da cidade contradiz as expressões do cotidiano: todinha plana, como subir?
Sem mais, vai pela rua onde fica o prédio, dobra à direita, dobra à esquerda, mais outra quebra à direita, e chega ao supermercado.
Pega o pão, integral na promoção. Queria ter forças, mas os olhos alcançam o descontinho do refrigerante de cola, mas dois? Retoma a lista, e escolhe a alface mimosa, e seleciona tomates quase maduros, e, inebriando-se, cheira laranjas, peras e maçãs.
Feita a compra, refaz o percurso, em sentido inverso.
Somando tudo: ida e volta; espera na fila do caixa; três palavras, à porta do edifício, com o zelador; higienização do que trouxe; livrar-se das roupas; banho tomado: trinta e três minutos.
O resumo do dia, conforme narra ao telefone.
O que o nosso bom informante não diz? Enfim, lupa não é para ler melhor o que se põe invisível a olho nu? Topamos o desafio?
Então, o cronista foi às compras, cumpriu o propósito de fazê-las e sentou-se sossegado, com um suspirozinho de dever realizado sem a afobação dos ansiosos.
No entanto...
No entanto, a boca que nada esconde nem se lembra de relatar que topou com uma pessoa conhecida na esquina do mercado.
E ela estava entregando a um rapaz malabarista de semáforo uma quentinha do restaurante onde eventualmente se esbarravam antes da Covid-19 impedi-los de tal socialização.
Mais ainda, a alma boa gentil que oferece comida estava sorrindo, como se pandemia não houvesse, como quem ama o próximo sobre todas as desgraças deste mundo.
O que o narrador da crônica também não quis falar é que a cidadã veio sorrindo, de braços abertos, louca, muito louca, sem a máscara da resignação e sem o gel da prudência. Evidentemente, motivada a compartilhar o sentimento de bem-estar, apesar do corona. Doida, tão doida, que se sentia livre o bastante para contaminá-lo com aquela alegria ávida de viver.
Foi portanto, à vista disso, que o fraterno mas nem tanto recuou; o fez num sobressalto, assim convicto de manter-se longe o suficiente para demonstrar a sua resoluta desconfiança da terapia do abraço.
Poxa, o sujeito é bacana, tenta ser útil como pode, mas deve fazer o que recomenda o senso científico do painel da moça da TV.
Logo, ao contar as novidades, melhor nem tocar no assunto. Para que botar mais medo em quem já tem o seu quinhão, de gente lúcida com leve hipocondria.
Concluindo: com o seu pijama amarelo candidamente pendurado no varal, o careca detalhista nem menciona a loja apinhada de caras terrificadas, uma vez que aqueles vinte e sete graus do solstício estão anunciando um dos mais tórridos invernos do século 21.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2020.

domingo, 21 de junho de 2020

Dia de sol


Dia de sol

O domingo amanhece com aquele céu azul, umas nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Como crônica antiga caprichada na emoção de sentimentos à tona, a página disposta feito espaço livre ao poético na veia da escrita. Daí que esta combinação do azul com o branco leve a pensar que: sim, é possível que o mundo continue encantador.
Entretanto, nem só de encantamentos vive-se.
O chato da vida pode estar em ficar pensando sobre o que fazer, quando, na verdade, em algumas circunstâncias nem dá tempo para isso. Ou vai ou racha, sem as finuras de meio-tom. Não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da loucura.
De tanto pensar, pensar, pensar? A restrição impõe-se como ideia fixa: cérebro trabalhando. O confinamento dita o ritmo do tempo que a cabeça preenche com falta de humor. O isolamento, portanto, é uma condenação a rotinas impensadas. O réu nega as suas culpas, pois os seus erros não passam de enganos. E ninguém em sã consciência vê-se como digno disso que o mundo está propondo. Dor, sofrimento, desconforto, o futuro preso a indefinições. Daí que o presente travou, feito página que, nos dias de internet discada, rodava, rodava aquele:
CARREGANDO...
Ficasse nisso, a manhã engasgaria. Mas as maritacas gracejaram; os casais se amaram; os corredores voltaram do calçadão; e o ar do apê foi ganhando os timbres de frango no forno, molho no macarrão e embriaguez do satisfeito.
Então, sem dar trela de si, o oxigênio vai circulando de norte a sul, da cabeça aos pés. Pondo-se a degustar o disco inteiro, Até Sangrar da Áurea Martins, toma-se de surpresa. A cada verso, achando bem esquisito que “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”, que o seu "retrato fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”, como se a vida estivesse dizendo “que ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”, que “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”. E, por sinal, de olhos fechados.
O destino falando com ele, uma pessoa qualquer, com problemas e alegrias de gente comum, cuja mortalidade zanza pelo fio invisível que suspende o instante, numa perplexidade que angustia?
A sua mente solta do nada: volte à vida, tire o pijama!
Pijama? Como não tem nenhum, vai ter que comprar um.
E os pelos das pernas ficam eriçados, só de pensar em ir atrás de um pijama novo, bonito, colorido. E de que cor? Nem vem com a ideia de vermelho que isso é coisa de esquerdopata; nem verde-amarelo, que é para minions trogloditas.
Faça a escolha consciente.
O algodão menos traumatizante, a estampa floral mais calmante e o tamanho justo para o físico da criatura que é.
O bicho que, no presente segundo, cochila. Sim, existe coisa mais importante do que vestir um pijama: tirar uma pestana no sofá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de junho de 2020.