terça-feira, 14 de julho de 2020

Moléstia factual


Moléstia factual

São seis horas e sete minutos, começo o texto.
Fiz questão de marcar o início, pois esta é uma experiência inédita para mim. Nunca antes escrevi sem rascunho, direto no computador. Digitando letra a letra, palavra por palavra, frase depois de frase, sem o auxílio de dicionários, sem apagar nada, sem perder tempo. Dando ao pensamento a velocidade dos dedos que batucam as teclas.
Sim, esta é uma vivência toda minha. Por que me decidi fazê-la?
Acordei no horário habitual, mas virei pro outro lado.
De ontem para hoje, esfriou. Está chovendo. Uma chuvinha fria. O esperado, próprio da estação, algo típico do inverno. As andorinhas e os cães, no entanto, eles e elas não sabem carregar nos corpos estas prescrições. E haverá quem sustente: irracionais.
Não me definiria irracional nem me acusaria mandrião, vagabundo ou imbecil, por ignorar em mim alguma característica moral a que me possam, de fato, atribuir, como caráter. Traço próprio, marco típico, e procedimento previsível de adversário à ordem natural das coisas.
Minha cabeça está cheia de coisas. Por fazer. Mas, vá lá: admito a inclinação de ficar quieto, longe da disposição que este dia requisita. Com um sentimento difuso que me põe incapaz de agir conforme ao figurino do óbvio, quero mais é ter tempo pra não fazer nada.
Contudo, não vou transformar o sofá em divã. Estou desconfiado que as tempestades que minha mente julga como fundamentais para definir quem sou não passam de fumaça. Nevoazinha sem febre, que a brasa é fantasia de quem não tem tutano para enfrentar fantasmas de origem inconsciente. Daí a densidade da nuvem, estacionada em mim como preguiça.
Pego o Lafarque que havia separado para ler hoje, todavia "uma estranha loucura está possuindo as classes operárias das nações em que reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta na sua esteira misérias individuais e sociais que, há séculos, estão torturando a triste humanidade”. Largo o livro.
Continuo a escrever sem criar expectativa alguma. Para não gerar decepções que, sem dúvida, irão me aporrinhar, como frustrações.
E aí, como eu lido com as minhas frustrações?
Quimicamente humano, recorro a cápsulas, pílulas e comprimidos. Por prédica profissional, ajeito minha mente. Fisiologicamente, estou sereno. Prudente, ignoro a hora informada pelos fatos. Sinceramente, desconheço a história que não busco. Honesto, escolho a sabedoria de não confirmar a realidade configurada pelas notícias.
Aos fatos ― o que acontece, o que conta como acontecido, o que produz reações ao que se conta como teria acontecido. Donde posso concluir que há uma fantasia, um discurso artificial, uma narrativa que conta pra mim o que pensa e faz o mundo.
O que estou fazendo? Quero viver o momento?
E o sofá ali.
São seis horas e treze minutos... Adeus, crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2020.

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