Retrato
fiel
Então, a crônica de hoje é sobre o
quê?
Poderia ser sobre a cobertura de morango
num bolo de morango. A dizer respeito à camada que fica em cima, uma tentação
pra mudar a cara destes dias. Se poderíamos falar sobre o queijo? E justamente
por imprecisarmos disso, a verdade seja dita: quando falamos sobre o queijo,
nele jogamos perdigotos, espargimos aerossol. Um horror!
Sim, a consciência abre os olhos da
gente.
A palo seco: curando a sarna, ficam as
pulgas?
Corpos a mais, mortos a menos.
Que a imprecisão alivia o que
entendemos por achatamento, pela visibilidade do tal platô. No limite da
platitude, escancaramos.
Até aqui viemos, então daqui
voltaremos.
Mais à frente. Voltaremos dois passos
à frente. Para o futuro. Sim, não retornaremos, pois somos do amanhã, de onde
Sebastião ainda espera. Fomos ungidos a priori. Batizamos a lágrima serena da
noite do universo. A nós não nos resta senão cumprir com o nosso caráter.
Destinados à glória; submissos à
glorificação em vida.
Sem desdém, vamos.
E se há fios soltos, com eles tecemos
a humildade da nossa fibra. Com as gotas de sangue de nossas pacificações tropicais
pincelamos a irreverência de nossas alegrias tacanhas. Com a galhofa de nossos
pecadilhos confessionais nutrimos os famintos que desabrochamos a meio do
caminho de lugar nenhum.
Pelo povo, pela vontade popular ― não
estamos a passeio.
A pedir mais. Quer porque quer. A ele
seja negado. Pra que possa o aprendizado da dor, da fome, da miséria. Perca o
enfezamento.
A brisa noturna lambe o chão das covas.
O triste sofre e chora. De cara amarrada. Fechado no mistério. Tem mãos pro
trabalho, mas os calos lamentam, imploram. A luta ainda está vindo, segue
vindo, não para de vir. À venda? Venda-se.
Se conhecemos? De passagem.
Abençoamos a nós que nos julgamos
abençoados. Seguimos pela modéstia que nos faz bem-humorados, cientes da
iluminação que nos orienta na escuridão dos sentidos. Temos luz interior, somos
farol. A quem perdido, ditamos o caminho. Basta ouvir. Ouça nossa voz. Siga à
sombra. E coma do farelo, porque o nosso pão é doce, energético e salubre. Não
há no mundo mágoa que nos paralise, nem infelicidade que nos vitime, e nenhum
eco nos guia. Soltamos à palavra o que em nós é água, maná, origem que perdura,
inesgotável fonte, compaixão que nos faz desbravadores. Vocacionados, tradutores
do amor. Sim, amar nos faz condutores, então induzimos. Solidários, motivamos.
Mas, conseguirá suportar? Suporte; dê
sustentação.
Seja ombro, seja amigo.
Vê? É nosso o céu do Cruzeiro, das
Três Marias.
Ah! Sim!
Com o lobo intacto, o coração em
faíscas, mãos untadas de cuspe abundante, tomemos a dose certa do amor. Gozemos
por abraços. E beijemos por aliança. Amemos agora, bem na hora.
Pra completar este retrato do cronista
feito cão vivo?
Alegra... Pondera... Gardenal!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2020.
Nenhum comentário:
Postar um comentário