terça-feira, 21 de julho de 2020

Retrato fiel


Retrato fiel

Então, a crônica de hoje é sobre o quê?
Poderia ser sobre a cobertura de morango num bolo de morango. A dizer respeito à camada que fica em cima, uma tentação pra mudar a cara destes dias. Se poderíamos falar sobre o queijo? E justamente por imprecisarmos disso, a verdade seja dita: quando falamos sobre o queijo, nele jogamos perdigotos, espargimos aerossol. Um horror!
Sim, a consciência abre os olhos da gente.
A palo seco: curando a sarna, ficam as pulgas?
Corpos a mais, mortos a menos.
Que a imprecisão alivia o que entendemos por achatamento, pela visibilidade do tal platô. No limite da platitude, escancaramos.
Até aqui viemos, então daqui voltaremos.
Mais à frente. Voltaremos dois passos à frente. Para o futuro. Sim, não retornaremos, pois somos do amanhã, de onde Sebastião ainda espera. Fomos ungidos a priori. Batizamos a lágrima serena da noite do universo. A nós não nos resta senão cumprir com o nosso caráter.
Destinados à glória; submissos à glorificação em vida.
Sem desdém, vamos.
E se há fios soltos, com eles tecemos a humildade da nossa fibra. Com as gotas de sangue de nossas pacificações tropicais pincelamos a irreverência de nossas alegrias tacanhas. Com a galhofa de nossos pecadilhos confessionais nutrimos os famintos que desabrochamos a meio do caminho de lugar nenhum.
Pelo povo, pela vontade popular ― não estamos a passeio.
A pedir mais. Quer porque quer. A ele seja negado. Pra que possa o aprendizado da dor, da fome, da miséria. Perca o enfezamento.
A brisa noturna lambe o chão das covas. O triste sofre e chora. De cara amarrada. Fechado no mistério. Tem mãos pro trabalho, mas os calos lamentam, imploram. A luta ainda está vindo, segue vindo, não para de vir. À venda? Venda-se.
Se conhecemos? De passagem.
Abençoamos a nós que nos julgamos abençoados. Seguimos pela modéstia que nos faz bem-humorados, cientes da iluminação que nos orienta na escuridão dos sentidos. Temos luz interior, somos farol. A quem perdido, ditamos o caminho. Basta ouvir. Ouça nossa voz. Siga à sombra. E coma do farelo, porque o nosso pão é doce, energético e salubre. Não há no mundo mágoa que nos paralise, nem infelicidade que nos vitime, e nenhum eco nos guia. Soltamos à palavra o que em nós é água, maná, origem que perdura, inesgotável fonte, compaixão que nos faz desbravadores. Vocacionados, tradutores do amor. Sim, amar nos faz condutores, então induzimos. Solidários, motivamos.
Mas, conseguirá suportar? Suporte; dê sustentação.
Seja ombro, seja amigo.
Vê? É nosso o céu do Cruzeiro, das Três Marias.
Ah! Sim!
Com o lobo intacto, o coração em faíscas, mãos untadas de cuspe abundante, tomemos a dose certa do amor. Gozemos por abraços. E beijemos por aliança. Amemos agora, bem na hora.
Pra completar este retrato do cronista feito cão vivo?
Alegra... Pondera... Gardenal!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2020.

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