Viagem
na carne
Disposto a encarar o dia que chovia,
ocupei o posto de observador equidistante: protegido pelas lentes lamentáveis dos
meus óculos; e seguramente a quatro palmos da tela do computador de mesa.
Entre o factível e o fictício, o
factídico.
Foi quando, neste dia 13/07/2020,
neste Estadão, neste Caderno 2, nesta matéria assinada por Julio Maria, não sei
o quê me assaltou desde as garrafais: sons
da alma em construção.
Logo me pus a cofiar uns fios do
cavanhaque.
Não relinchei nem escoiceei, todavia
empaquei. E empacado, este pônei miúdo de suíças em cultivo coçou a calva, lisinha
por lâmina de barbear. O careca de pijama amarelo gosta de deliciar-se com a
pele desnuda da cabeça. Algo infantil, num prazer de deslizar a mão pelo
cocuruto. Sem estudá-lo na forma, reconfortando-se com o quentinho. De um
gostoso calmo, tranquilo, sereno.
Uma gota de serenidade brotou-me da
página em que escrevo, aí a imaginação viu diversamente: o que se forma.
Irei mudado pelo que acho que vi?
Os sons das palavras, a delícia de dizê-las
em pensamento. Que morar sozinho admite relacionar-me comigo apenas na cabeça,
dizer aos neurônios o que me dá na caçoleta. A escutar-me vivo a viver. No
impulso, o momento de agir por mim. A vivenciar-me sem a obrigação do juízo
certinho, de ouvir a voz da razão. Sobretudo, sem medir cada uma das minhas
bobagenzinhas, aquilo que faço sem o compromisso da sanidade que pondera,
calcula e ajuíza.
Quero a conta errada, imperfeita, fora
do prumo da chave posta.
Cacos de um espelho fosco. Mole, pelo
sorrisinho malicioso.
Deliciosamente vago, flutuando no ar da
sala. Livre em mim, tendo a cachola mergulhada em ir pensando sem pensar que
pensa. Que a âncora siga sendo a cadeira, com o corpo sentadinho. Sem o líquido
e certo, sem a frieza do gelo, sublimando-me rarefeito. E que a mente siga enfunada
pelo vento da imaginação, rumo ao desconhecido que em mim navega em silêncio.
Sem palavra, sem sentido?
Uau!
Tem o outro. Este outro. Aquele outro.
Tantos, num só. A fazer-me esquisito. Sem a autorização de sentir-me estranho. Não
me outorgo o direito de instituir-me familiar. O mundo informa, deformo. Conforme
a hora passa, me reformo num segundo.
Mesmo já? Agora.
Há um propósito que faz cócega na
ponta dos dedos. Há a barriga que ronca, vem pra página. Há a brisa boa que não
afoga a realidade nas abstrações mentais. Poderia fluir na corrente das sensações
que fervem nos vasos do corpo.
O que não calam os cotovelos? Que a
carne tem dores.
E a minha boca, nada? Salivo.
Se caído estivesse, com os braços
apoiados no tampo de vidro da mesa e a tela recolhendo o que vou digitando, poderia
jurar que estou tonto, rodopiando no imóvel.
E como ninguém de nós foi sugado pro
mundo da lua, a título de quê assumo que a sensualidade seduz?
Obviamente, analisa-se bem melhor quem
faz análise.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de julho de 2020.
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