domingo, 19 de julho de 2020

Viagem na carne


Viagem na carne

Disposto a encarar o dia que chovia, ocupei o posto de observador equidistante: protegido pelas lentes lamentáveis dos meus óculos; e seguramente a quatro palmos da tela do computador de mesa.
Entre o factível e o fictício, o factídico.
Foi quando, neste dia 13/07/2020, neste Estadão, neste Caderno 2, nesta matéria assinada por Julio Maria, não sei o quê me assaltou desde as garrafais: sons da alma em construção.
Logo me pus a cofiar uns fios do cavanhaque.
Não relinchei nem escoiceei, todavia empaquei. E empacado, este pônei miúdo de suíças em cultivo coçou a calva, lisinha por lâmina de barbear. O careca de pijama amarelo gosta de deliciar-se com a pele desnuda da cabeça. Algo infantil, num prazer de deslizar a mão pelo cocuruto. Sem estudá-lo na forma, reconfortando-se com o quentinho. De um gostoso calmo, tranquilo, sereno.
Uma gota de serenidade brotou-me da página em que escrevo, aí a imaginação viu diversamente: o que se forma.
Irei mudado pelo que acho que vi?
Os sons das palavras, a delícia de dizê-las em pensamento. Que morar sozinho admite relacionar-me comigo apenas na cabeça, dizer aos neurônios o que me dá na caçoleta. A escutar-me vivo a viver. No impulso, o momento de agir por mim. A vivenciar-me sem a obrigação do juízo certinho, de ouvir a voz da razão. Sobretudo, sem medir cada uma das minhas bobagenzinhas, aquilo que faço sem o compromisso da sanidade que pondera, calcula e ajuíza.
Quero a conta errada, imperfeita, fora do prumo da chave posta.
Cacos de um espelho fosco. Mole, pelo sorrisinho malicioso.
Deliciosamente vago, flutuando no ar da sala. Livre em mim, tendo a cachola mergulhada em ir pensando sem pensar que pensa. Que a âncora siga sendo a cadeira, com o corpo sentadinho. Sem o líquido e certo, sem a frieza do gelo, sublimando-me rarefeito. E que a mente siga enfunada pelo vento da imaginação, rumo ao desconhecido que em mim navega em silêncio.
Sem palavra, sem sentido?
Uau!
Tem o outro. Este outro. Aquele outro. Tantos, num só. A fazer-me esquisito. Sem a autorização de sentir-me estranho. Não me outorgo o direito de instituir-me familiar. O mundo informa, deformo. Conforme a hora passa, me reformo num segundo.
Mesmo já? Agora.
Há um propósito que faz cócega na ponta dos dedos. Há a barriga que ronca, vem pra página. Há a brisa boa que não afoga a realidade nas abstrações mentais. Poderia fluir na corrente das sensações que fervem nos vasos do corpo.
O que não calam os cotovelos? Que a carne tem dores.
E a minha boca, nada? Salivo.
Se caído estivesse, com os braços apoiados no tampo de vidro da mesa e a tela recolhendo o que vou digitando, poderia jurar que estou tonto, rodopiando no imóvel.
E como ninguém de nós foi sugado pro mundo da lua, a título de quê assumo que a sensualidade seduz?
Obviamente, analisa-se bem melhor quem faz análise.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de julho de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário