Brilhante
Em A vida e o tempo, texto do dia 12 de julho de 2020 no jornal O
Globo, atribuindo a Nietzsche, Martha Medeiros citou: “Aquele que não dispõe de
dois terços do dia para si é um escravo”.
Nem bem me ocorre se acaso serei, soa
o interfone.
Minha água acabou, o entregador veio
rapidinho trazer o garrafão. Até aí, nada de novo sob a chuva; a não ser a capa
plástica deixando molhados os pés enfiados na típica sandália de borracha, cuja
marca nem preciso nomear. Mesmo na adversidade, a perseverança. Mas, divago. Retribuindo
o bom-dia, o jovem fez o sinal com a mão que por estas plagas quer dizer... joia.
Subo para continuar a ler os jornais, em
versão digital, cópia fiel à edição impressa. Ao final do texto, é-me oferecida
a oportunidade de avaliar o que li por meio de dois sinais gráficos: o polegar
para cima, gostei; o polegar para baixo, não gostei.
Para entender a semiologia da coisa, visualizo
a minha identidade. O documento de registro geral, o famoso RG. Uma vez que a
cédula de identidade contém uma série de dados, como o nome, a filiação, a data
e o local de nascimento, origem e data da expedição, o número do registro, com a
localização de lavratura.
E a foto?
Digo que, nas circunstâncias em que é
preciso a comprovação da idade ou o reconhecimento físico, o RG é solicitado. Você
quer entrar no cinema pra ver filme só permitido a maior de 18 anos?
O seu RG, por favor.
O lanterninha estabelece a conexão
entre você, de carne e osso, e a imagem no documento. A foto é sua. Contudo, não
passa disso: uma representação da sua pessoa.
A ubiquidade... Que tentação vivenciá-la.
Será banal saber o quanto há de mim em
quem me conhece?
Vence a vontade.
Então, nas redes sociais não fica
surgindo gente do nada só para atormentar, perseguir, atacar as pessoas que ganham
fama?
Bem instruída, essa gente age como se
nem gente fosse, pois tem o dom de multiplicar-se e atingir milhares de pessoas
numa rapidez.
Por curiosidade, entro numa página.
Algumas fotos. Pouquíssima interação com os amigos do perfil. Amigos?
Continuo, seleciono comentários
idênticos. Procuro mais. Prossigo e vou entrando nas páginas de pessoas com
poucas fotos e raríssima relação com outra leva de amigos tão diferentes.
Quando vejo, isso de ficar indo atrás
de perfis que se comportam como fantasminhas nada camaradas, gastei uma boa
parte da tarde.
Que babaquice a minha.
Cada minuto, cada clique... Sem que me
pedissem, fiquei gerando dinheiro pros robôs, fiquei trabalhando de graça.
Nos coliseus do mundo, não estou nas
tribunas entre convivas de togas elegantes nem nas arquibancadas boquirrotas, e
nem na arena como leão que ataca ou cristão assassinado, sigo me condenando a
exercer o posto de narrador da carnificina nossa de cada post.
De novo, fígado, quero ter outro
futuro?
Irra! Preciso da Lei de Abolição de Servidão
Digital.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 16 de julho de 2020.
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