quinta-feira, 9 de julho de 2020

Luz da mirada


Luz da mirada

Leonor, estou com um ciclone nas veias...
Cansado, descanso? Nada.
Como os dias não estão fáceis, corro. E dou uma corrida em mim, que não me entrego ao facismo. A facilidade atrapalha, pois coloca o carro nas costas do boi. E já viu: se vai um boi, vai uma estrada.
E estrada não tem calçada. E pela calçada: vou parar na fila. Nela fico quase duas horas e meia. Quinto dia útil do mês. E torro no sol.
Foi terça?
Com esse tanto esperando para pagar contas, as minhas leituras dos jornais ficam acumuladas. Corro ler as edições do Estadão, não consigo. Me embanano todo. Retomo. Recomeço de segunda e volto pro sábado. Me confundo, mas me acerto.
E também a Folha. E ainda O Globo. Tudo junto?
Tem ainda o Fernando Pessoa que levo comigo ao sonho diário. E será que “sussurro gemebundo” é do Ricardo Reis? E “sinto todo meu corpo deitado na realidade” é do Alberto Caieiro?
Nem respondo. Já estou desejando outra coisa.
Desejando coisíssima nenhuma, é que já estou pegando imagens públicas na internet.
Quero juntar uma mão verde e outra amarela, ajuntadas, que nem estivessem rezando. Há em mim este amor ao próximo que muito me descontrola e, desabalado de tal maneira, bolo a frase que digito no rodapé da figura: rezando pela pronta recuperação do Brasil.
Risco do Brasil e coloco de todos nós. E assim:
rezando pela pronta recuperação de todos nós.
Ajeito daqui, arranjo dali. Aprovo as mudanças. Posto na rede: as mãos em oração, com a legenda em caixa alta, em negrito vermelho.
Quarta-feira na correria. Nem consegui ler os jornais, ainda.
Sei lá o que me deu, mas troquei o travesseiro fofo e baixinho por um mais alto e mais duro. O resultado?
Estava testando. E atento ao que me podia ocorrer: a coluna voltar a doer, como houvera acontecido recentemente. O pescoço, a nuca e as agulhadas problemáticas, incômodas. A densidade do desconforto e o meu método científico de experimentar na pele, digo, no corpo.
E bastaram três noites: de sexta para sábado, deste para domingo e deste para segunda. Troquei o travesseiro, voltei com o anterior.
Ah... Então, estou sob tortura.
Toca ouvir Ennio Morricone. Já estou embaralhando Cazuza com os convidados do Fronteiras do Pensamento, com Mia Couto, Paula Toller, Andrew Solomon...
Caramba. Faz trinta anos que o Cazuza morreu.
Maravilha. Cacá Diegues especula sobre a raiz comum de solidão e solidariedade... Ele diz algo bem bacana: a solidariedade é “o amor sem sentimento de propriedade sobre o outro”.
Antes da pane, o pânico? Não. O pânico já é a pane.
Tentando manter a sobriedade, apesar das horas aceleradas que andam comendo a rotina. Uma ova que tá tudo bem.
Li certo? Paula Toller? Para falar o quê?
Preciso correr pro YouTube, quero ver Peça, monólogo com Marat Descartes e direção de Janaina Leite.
A crônica? De um jato.
Ai! Que pena, que peninha, Leonor...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2020.




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