À
flor da pele
Uma árvore cai na mata, o estrondo não
tem testemunha humana. À vista de tal condição, o evento terá ocorrido de fato?
Sim, ocorreu. A realidade existe, ainda que o ser humano pressuponha a chancela
de dizê-la universalmente percebida.
Percebemos, logo criamos.
Se pesa um bocado em quem se dispõe a
narrar as aventuras da espécie? Que responsabilidade.
Acerto o passo.
Pessoa amiga, a Luísa, nome trocado
para preservar a identidade, costuma dizer que meus textos parecem relógio:
como nada está fora do lugar, tudo funciona na hora certa.
Vem-me a imagem da matriosca. Aquelas
bonequinhas russas: da maior à menor. Assim, tiro do assunto amplo um tema mais
focado e deste retiro o tópico específico, e vou até chegar à palavra-chave.
Exemplo?
Eis que baixei no computador o Zoom,
meio a contragosto, mais a pedido da Bruna e do André, ambos nomes mudados pra
obviedade da mentirinha. Enfim, pro bate-papo virtual via internet, instalei a
dita cuja ferramenta na bugiganga eletrônica que utilizo.
E a conversa estaria restrita ao trio?
Mal começamos, entrou em cena uma
senhora que não conheço. Encantadora, lembra a voz da Divina e pelo centenário
de nascimento da cantora, passo a chamá-la de Elizete. E ela botou reparo na minha
crônica Retrato fiel, que ficaria mais
saborosa se o bolo de morango citado levasse cobertura de chocolate.
Nem sei bater bolo...
Mas, acrescentei que o parágrafo
naquele texto tinha a função de destacar o uso da preposição sobre com os significados em cima de e a respeito de. Ora, está na moda dizer “discutir sobre a lei” em
vez de “discutir a lei”. Ah!
Em Retrato fiel, não escrevi chocolate.
Desejei ir por outra vereda que não a do racismo, por isso tracei o perfil de
um cínico.
Mas cínico tem muitos tipos. Seu
Rodrigues, de que tipo?
De quem fala de boca cheia: povo,
vontade popular, humanidade.
Que povo? Qual vontade? De que ser
humano está se falando?
Dessa gente aliviada porque a pandemia
atingiu o platô, como se, ultrapassando mil mortes por dia, pudéssemos retomar os
rotineiros comércios. De pessoas querendo o novo
normal de sempre, como se fosse natural negar ao fluxo mudar de rumo.
Dá raiva? Dá.
E dou Cego de amor.
Ouvindo-me, a Elizete, tendo
compartilhado este texto no grupo de leitura, alegrou-se com suas amigas que entenderam
narcisista quem ama seu semelhante mas odeia não ser correspondido.
E como nutre a ilusão de não ter
preconceitos. Quem?
Quem, com muitíssimo orgulho de si, se
intitula brasileiro, patriota, nacionalista, gente comum, igual a todo mundo.
Sim, sim, igualzinho a quem não viu, não vê e continuará sem ver a cor da
maioria deste outro Brasil: a dos jovens mortos pela polícia, de quem sobrevive
nas ruas, de pessoas desalentadas.
Latindo de ódio, respiro.
E minha matriosca não lavra o amor como outro
relógio pulsando no peito.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de julho de 2020.
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