domingo, 12 de julho de 2020

Anatomia do abismo


Anatomia do abismo

Em vez de autorretrato: outrorretrato. As visões dos outros ajudam a ver-se com matizes variados, além do branco e preto das certezas. O que pode ser um problema a quem não quer dúvidas, certo de que o mundo só fica complicado quando há normas, regras e leis que ora dizem, ora contradizem. Com história única, própria e particular, cada pessoa contribui para torcer e distorcer, travar e destravar, avançar e recuar a figurinha que cada qual faz de si.
Muitas vezes, ouve-se mais a voz interior, dando valor exagerado ao que o ego diz. Outras tantas, ouvidos moucos dissimulam o que se pretende projetado de quem está por perto. Entretanto, a comédia e o drama resultam das misturas, das sopas que se faz, errando a mão, o passo retificando.
Quer agradar? Aborrece. Quer-se repugnante? Apetecível.
Mas... Saindo da abstração.
Aí, por estes dias, me peguei pensando em Leonor Watling, atriz e cantora espanhola, casada com o cantautor uruguaio Jorge Drexler. E vejo/ouço o casal em Toque de Queda. Ambos estão recuperados da Covid-19, então, acolho: que o amor penda a balança para a vida.
E posso recolher da coluna de Hélio Schwartsman, Por que torço para que Bolsonaro morra, a lição ética do racionalismo, um cálculo moral do consequencialismo que supõe que as “ações são valoradas pelos resultados que produzem”, porque, passando de 70.000 mortos no país, para que vidas sejam preservadas, a lógica deve prevalecer.
Indiferença ao milhão de infectados numa estatística?
Alvoroço pela personificação num título?
Tento ouvir o mundo. Há gritarias. Há trovoadas. Há tornados. Há sussurros. Há silêncios. Há pardais pipilando. A vida ouve o mundo? Quem dá ouvidos ao que a vida diz?
Não ando sofrendo de surdez. Todavia, com o volume mais baixo dos ruídos cotidianos e com o espaçamento entre os barulhos, posso comparar ontem e hoje.
A minha deficiência auditiva baseava-se em ouvir sem escutar, no automático, sem prestar atenção. Agora, me certifico da respiração e acompanho o pulso. Impressiono-me, pois noto o meu corpo vivendo. Assombrado, mantenho a escuta sensível ao que antes sequer ouvia, mesmo consciente de que, sob as mesmas camadas do defectível e sondável de sempre, a realidade está tão factícia por suas sutilezas.
Enquanto me for suportável, mantenho o abismo da vigília.
Não obstante, com um pé na razão e outro na emoção, assisto ao Sr. Brasil na TV Cultura, edição comemorativa dos quinze anos do programa. De Êta nóis!, cantada por Ney Matogrosso e Luli e Lucina, compositoras da canção, colho: no milagre da lida, o amor vira mel.
Para reconstruir o destruído?
Ainda do programa do Rolando Boldrin, de Pesadelo de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, colho: quando um muro separa uma ponte une.
E retorno a Leonor: poco a poco la pena se va.
E que vá? O amor canta que: vá!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de julho de 2020.

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