Anatomia
do abismo
Em vez de autorretrato: outrorretrato.
As visões dos outros ajudam a ver-se com matizes variados, além do branco e
preto das certezas. O que pode ser um problema a quem não quer dúvidas, certo
de que o mundo só fica complicado quando há normas, regras e leis que ora
dizem, ora contradizem. Com história única, própria e particular, cada pessoa
contribui para torcer e distorcer, travar e destravar, avançar e recuar a figurinha
que cada qual faz de si.
Muitas vezes, ouve-se mais a voz interior,
dando valor exagerado ao que o ego diz. Outras tantas, ouvidos moucos dissimulam
o que se pretende projetado de quem está por perto. Entretanto, a comédia e o
drama resultam das misturas, das sopas que se faz, errando a mão, o passo retificando.
Quer agradar? Aborrece. Quer-se
repugnante? Apetecível.
Mas... Saindo da abstração.
Aí, por estes dias, me peguei pensando
em Leonor Watling, atriz e cantora espanhola, casada com o cantautor uruguaio
Jorge Drexler. E vejo/ouço o casal em Toque
de Queda. Ambos
estão recuperados da Covid-19, então, acolho: que o amor penda a balança para a
vida.
E posso recolher da coluna de Hélio
Schwartsman, Por
que torço para que Bolsonaro morra,
a lição ética do racionalismo, um cálculo moral do consequencialismo que supõe
que as “ações são valoradas pelos resultados que produzem”, porque, passando de
70.000 mortos no país, para que vidas sejam preservadas, a lógica deve prevalecer.
Indiferença ao milhão de infectados
numa estatística?
Alvoroço pela personificação num
título?
Tento ouvir o mundo. Há gritarias. Há
trovoadas. Há tornados. Há sussurros. Há silêncios. Há pardais pipilando. A vida
ouve o mundo? Quem dá ouvidos ao que a vida diz?
Não ando sofrendo de surdez. Todavia, com
o volume mais baixo dos ruídos cotidianos e com o espaçamento entre os
barulhos, posso comparar ontem e hoje.
A minha deficiência auditiva
baseava-se em ouvir sem escutar, no automático, sem prestar atenção. Agora, me
certifico da respiração e acompanho o pulso. Impressiono-me, pois noto o meu
corpo vivendo. Assombrado, mantenho a escuta sensível ao que antes sequer ouvia,
mesmo consciente de que, sob as mesmas camadas do defectível e sondável de
sempre, a realidade está tão factícia por suas sutilezas.
Enquanto me for suportável, mantenho o
abismo da vigília.
Não obstante, com um pé na razão e
outro na emoção, assisto ao Sr. Brasil
na TV Cultura, edição comemorativa dos quinze anos do programa. De Êta nóis!, cantada por Ney Matogrosso e Luli e
Lucina, compositoras da canção, colho: no
milagre da lida, o amor vira mel.
Para reconstruir o destruído?
Ainda do programa do Rolando Boldrin,
de Pesadelo de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro,
colho: quando um muro separa uma ponte
une.
E que vá? O amor canta que: vá!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 12 de julho de 2020.