Luz
da mirada
Leonor, estou com um ciclone nas veias...
Cansado, descanso? Nada.
Como os dias não estão fáceis, corro. E
dou uma corrida em mim, que não me entrego ao facismo. A facilidade atrapalha,
pois coloca o carro nas costas do boi. E já viu: se vai um boi, vai uma estrada.
E estrada não tem calçada. E pela
calçada: vou parar na fila. Nela fico quase duas horas e meia. Quinto dia útil
do mês. E torro no sol.
Foi terça?
Com esse tanto esperando para pagar
contas, as minhas leituras dos jornais ficam acumuladas. Corro ler as edições
do Estadão, não consigo. Me embanano todo. Retomo. Recomeço de segunda e volto
pro sábado. Me confundo, mas me acerto.
E também a Folha. E ainda O Globo.
Tudo junto?
Tem ainda o Fernando Pessoa que levo
comigo ao sonho diário. E será que “sussurro gemebundo” é do Ricardo Reis? E “sinto
todo meu corpo deitado na realidade” é do Alberto Caieiro?
Nem respondo. Já estou desejando outra
coisa.
Desejando coisíssima nenhuma, é que já
estou pegando imagens públicas na internet.
Quero juntar uma mão verde e outra
amarela, ajuntadas, que nem estivessem rezando. Há em mim este amor ao próximo
que muito me descontrola e, desabalado de tal maneira, bolo a frase que digito
no rodapé da figura: rezando pela pronta recuperação do Brasil.
Risco do Brasil e coloco de todos nós. E assim:
rezando pela
pronta recuperação de todos nós.
Ajeito daqui, arranjo dali. Aprovo as
mudanças. Posto na rede: as mãos em oração, com a legenda em caixa alta, em negrito
vermelho.
Quarta-feira na correria. Nem consegui
ler os jornais, ainda.
Sei lá o que me deu, mas troquei o
travesseiro fofo e baixinho por um mais alto e mais duro. O resultado?
Estava testando. E atento ao que me
podia ocorrer: a coluna voltar a doer, como houvera acontecido recentemente. O
pescoço, a nuca e as agulhadas problemáticas, incômodas. A densidade do
desconforto e o meu método científico de experimentar na pele, digo, no corpo.
E bastaram três noites: de sexta para
sábado, deste para domingo e deste para segunda. Troquei o travesseiro, voltei
com o anterior.
Ah... Então, estou sob tortura.
Toca ouvir Ennio Morricone. Já estou
embaralhando Cazuza com os convidados do Fronteiras
do Pensamento, com Mia Couto, Paula Toller, Andrew Solomon...
Caramba. Faz trinta anos que o Cazuza
morreu.
Maravilha. Cacá Diegues especula sobre
a raiz comum de solidão e solidariedade... Ele diz algo bem bacana:
a solidariedade é “o amor sem sentimento de propriedade sobre o outro”.
Antes da pane, o pânico? Não. O pânico
já é a pane.
Tentando manter a sobriedade, apesar
das horas aceleradas que andam comendo a rotina. Uma ova que tá tudo bem.
Li certo? Paula Toller? Para falar o
quê?
Preciso correr pro YouTube, quero ver Peça, monólogo com Marat Descartes e direção
de Janaina Leite.
A crônica? De um jato.
Ai! Que pena, que peninha, Leonor...
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2020.