quinta-feira, 9 de julho de 2020

Luz da mirada


Luz da mirada

Leonor, estou com um ciclone nas veias...
Cansado, descanso? Nada.
Como os dias não estão fáceis, corro. E dou uma corrida em mim, que não me entrego ao facismo. A facilidade atrapalha, pois coloca o carro nas costas do boi. E já viu: se vai um boi, vai uma estrada.
E estrada não tem calçada. E pela calçada: vou parar na fila. Nela fico quase duas horas e meia. Quinto dia útil do mês. E torro no sol.
Foi terça?
Com esse tanto esperando para pagar contas, as minhas leituras dos jornais ficam acumuladas. Corro ler as edições do Estadão, não consigo. Me embanano todo. Retomo. Recomeço de segunda e volto pro sábado. Me confundo, mas me acerto.
E também a Folha. E ainda O Globo. Tudo junto?
Tem ainda o Fernando Pessoa que levo comigo ao sonho diário. E será que “sussurro gemebundo” é do Ricardo Reis? E “sinto todo meu corpo deitado na realidade” é do Alberto Caieiro?
Nem respondo. Já estou desejando outra coisa.
Desejando coisíssima nenhuma, é que já estou pegando imagens públicas na internet.
Quero juntar uma mão verde e outra amarela, ajuntadas, que nem estivessem rezando. Há em mim este amor ao próximo que muito me descontrola e, desabalado de tal maneira, bolo a frase que digito no rodapé da figura: rezando pela pronta recuperação do Brasil.
Risco do Brasil e coloco de todos nós. E assim:
rezando pela pronta recuperação de todos nós.
Ajeito daqui, arranjo dali. Aprovo as mudanças. Posto na rede: as mãos em oração, com a legenda em caixa alta, em negrito vermelho.
Quarta-feira na correria. Nem consegui ler os jornais, ainda.
Sei lá o que me deu, mas troquei o travesseiro fofo e baixinho por um mais alto e mais duro. O resultado?
Estava testando. E atento ao que me podia ocorrer: a coluna voltar a doer, como houvera acontecido recentemente. O pescoço, a nuca e as agulhadas problemáticas, incômodas. A densidade do desconforto e o meu método científico de experimentar na pele, digo, no corpo.
E bastaram três noites: de sexta para sábado, deste para domingo e deste para segunda. Troquei o travesseiro, voltei com o anterior.
Ah... Então, estou sob tortura.
Toca ouvir Ennio Morricone. Já estou embaralhando Cazuza com os convidados do Fronteiras do Pensamento, com Mia Couto, Paula Toller, Andrew Solomon...
Caramba. Faz trinta anos que o Cazuza morreu.
Maravilha. Cacá Diegues especula sobre a raiz comum de solidão e solidariedade... Ele diz algo bem bacana: a solidariedade é “o amor sem sentimento de propriedade sobre o outro”.
Antes da pane, o pânico? Não. O pânico já é a pane.
Tentando manter a sobriedade, apesar das horas aceleradas que andam comendo a rotina. Uma ova que tá tudo bem.
Li certo? Paula Toller? Para falar o quê?
Preciso correr pro YouTube, quero ver Peça, monólogo com Marat Descartes e direção de Janaina Leite.
A crônica? De um jato.
Ai! Que pena, que peninha, Leonor...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2020.




terça-feira, 7 de julho de 2020

Que coisa mais doida


Que coisa mais doida

O jornalista Zuza Homem de Mello anuncia uma biografia de João Gilberto. Hum...
Pessoas admitidas à privacidade do famigerado bossa-novista de Chega de Saudade relatam que o baiano, premiado com um desses raros fenômenos da natureza, tinha ouvido absoluto. O compositor de Bim Bom era capaz de reconhecer uma nota musical sem precisar de referências. Sua percepção era de um profundíssimo apuro, o que lhe permitia identificar semitons de imediato.
Assim, para dar ao público sem audição naturalmente preciosa ou tecnicamente estudada, ele ensaiava durante horas, ficando a repetir um único acorde até expressar as variações microscópicas que podia escutar de modo tão aguçado.
A sua técnica não estava a serviço da perfeição como costumam julgar, dava-se em função educadora, para que os tímpanos comuns pudessem gozar de experiência estética peculiaríssima.
Talvez seja historinha ao redor do mito, mas contam que o Mestre de Juazeiro tinha verdadeira fascinação por pessoas azuis, aquelas que têm voz afinada em si bemol e não em dó maior como a maioria.
Sei. Algo me diz que o referido músico era... doidinho.
É carinhosamente crítico este doidinho. O exemplo de ser humano diferente da chamada loucura “normal”, dos que se acham um Nero ou Napoleão. O termo é aplicável àqueles que vão levando uma vida pacata, cotidiana, sem grandes abismos metafísicos, que, entretanto, tem particular fixação por algum detalhe, alguma minúcia, o que só a eles deixam malucos a ponto do exagero, da desmedida, de se verem atirados ao sério, de fazê-los parecer dementes de tão atraídos.
Bem capazes de ficarem horas e horas no bendito acorde, até que o gato, bicho que possui uma audição assombrosamente aumentada, resolve pegar o chapéu para ir miar em outro canto. Fato este, aliás, sempre citado quando se quer carimbar como mal-agradecido quem prefere a privação das sutilezas expressas naquele bim bom bim bom bom bom.
Caramba, isso de associar cor com a pessoa, por sua voz ou pela aura da sua presença, dá o que pensar. Será que foi por causa desse ouvido absurdamente refinado que Van Gogh usava cores berrantes, fora do padrão, ou teria cortado a própria orelha?
Opa. Sem a pretensão de retificar o que me parece um equívoco, não sigo quem diz o mesmo em relação a Arthur Rimbaud. No poema Vogais ele tratou de associar vogais a cores, assim o A é preto; o E é branco; o I é vermelho; O é azul; U é verde.
Ah tá! Quando ouço “dia” não imagino algo rubro-negro. Por certo, minhas limitações põem o sol brilhando no céu de anil.
Aliás, longe de mim querer me juntar ao poeta francês ou ao pintor holandês, que tinham certos cacoetes, de nascença ou pela força de hábitos invulgares. Como gosto muitíssimo de ambos, fico tentado a chamá-los... doidões.
E?
E no vaivém da vida, valsa mal este cronista... doido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2020.

domingo, 5 de julho de 2020

Zaragata


Zaragata

De bobeira, por intuição. Talvez por que seja domingo, ou por que esteja com uma sensação de alívio. Quiçá o sufoco da ocasião tenha saído dar uma voltinha no quarteirão.
Uma saída...
E ir sem pressa. Ir com a disposição dos descobridores. Não, indo com olhos que inventam o caminho. Ir disposto a inventar-se menos pesado, angustiado. E deixar-se ir mais afeito ao contentamento que não se explica, vive-se. Uma maravilha.
Tratar de viver os sentimentos que estão vindo sem mais. Porque o instante é agora, com o sabor do inadiável, do que se faz único.
Tolice? Bobeira, mesmo. De uma leveza. De quem não está nem aí para projetos, projeções, programações.
De graça. Bem engraçada.
O negócio mesmo é não ter cabeça para negociar. Poder degustar o momento. Fazê-lo, o prazer de estar de bobeira, inegociável. Então, por que um grão de silêncio quer se passar por algaravia?
Uma palavra cheia de luz. Praias que escancaram o horizonte. De alegrias contagiantes. E de tamanha magnitude: algaravia.
Ó algaravia que está na alma, dá-me, ó encanto, a calma de quem ouve a grama crescendo. Por um momento, ouve sem perceber.
Ó algaravia que brota da lama, venha-me, ó quietude, traga-me a chama que ilumina o ar que respiro. Por um segundo, brilhe a paz.
Ó algaravia que resgata o corpo, abriga-me, ó sopro, no lume que regenera o músculo estafado, o tendão agastado, o nervo enfatuado.
Por um instante, por este instante, sem cálculo. Para existir a seu bel-prazer, pelo bom de vivê-lo à medida de sua oportunidade.
Assim, os olhos encontram os olhos. Que sorriem. Estão sorrindo. Sem saber que sorriem, que podem sorrir, nem pedem para sorrir. Os olhos dão com o olhar que encontra porque não o estava procurando. Porque havia de descobrir o que não estava encoberto. Porque há de revelar o que não está oculto.
Basta este encontro, o fortuito.
Entretanto, para que o acaso possa o enlace, a união de universos tão distintos, é preciso estar desatento, distraído, como ausente de si, em si. Entretanto, que se permita a presença na lacuna, no vazio que se abre entre um passo e outro, na passada que não cessa.
Então, neste estado de espírito, nesta emergência do que ignora o sentido do que está sendo feito, nesta existência que dispensa o teor do que se vive, aí o inefável, o indizível, o incomunicável, sorri.
É o sorriso da gata que se lambia todinha, se limpava de alguma coisa invisível, se entrega àquilo, e, repentinamente, o inesperado se desprende.
Da cor da beterraba... Da terra.
A danadinha esteve fuçando os vasos. A discreta esteve cobrindo suas pegadas. Esta bichinha de sete meses, tranquilamente no sofá, no seu lugarzinho no sofá, é aí que ela basta a si mesma, é daí que o infinito escapa e, sorrindo, se deixa materializar como encantamento.
Nana nina não? Sim.
Só um bobo para acolher a misericórdia que mia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de julho de 2020.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Cego de amor


Cego de amor

Com a realidade bem-comportada atrapalhando quase um nada a visão clara dos fatos, o homem muito educado desce à rua com seus conceitos nutridos nos bons modos que traz do berço. Afinal, hoje em dia, é preciso estar certo da postura correta, de acordo com o figurino da cabeça boa que sabe agir com propriedade na hora exata.
Sem tirar nem pôr, antes de chegar à esquina, a verdade cristalina logo lhe dá bom-dia. Eis dois rapazes tomando uma geral de policiais, isto é, os adolescentes, de boné e sem camisa, estão em pé, com as pernas afastadas, as mãos pouco acima da nuca. Certamente, devem ter aprontado alguma ― pensa o moralmente lúcido.
Sem tempo para ficar reparando na vida dos outros, uma vez que a manhã tem suas tarefas por cumprir, o negócio é acelerar o passo e ir direto para o banco.
À porta da agência, sentados sobre o papelão, a mulher passa um cigarro para o homem. Em plena luz do dia e à vista pública. E como fede, aquilo só pode ser droga. E isso não está nada certo ― pensa o politicamente ético.
Com sorte, desvia da moça que cata latinha que está trabalhando de cara limpa. Passa rápido pela farmácia, para pegar mais máscaras e frascos de álcool em gel. E quede que venha alguém chamá-la ao respeito ― pensa o cidadão indignado.
O mundo anda no avesso. Com uma tempestade de poeira vindo do Saara para a América; com uma nuvem de gafanhotos atacando as plantações na Argentina; com um ciclone devastando o Sul; tudo por causa da conduta mundana ― pensa o fiel resignado.
Que a sua mente concentre-se na lida.
De lista na mão, vai pegando os itens. Enquanto o segurança do supermercado dá uma dura no sujeito que está sujo, cheirando mal, balançando de bêbado no setor de bebidas. Mais um vagabundo que não toma vergonha ― pensa o naturalmente humanista.
Segura de si: a pessoa que não gagueja quando grita com quem quer corrigi-la; a consciência tranquila que dorme o sono dos justos; a alma satisfeita que lava o prato das suas refeições. Ela garante que merece o que tem porque é tudo fruto do trabalho ― pensa o maior dos defensores da história.
E verdade seja dita, sem medo e preconceito algum. Que seria da civilização brasileira se homens como ele, íntegro e incorruptível, não vigiasse, lutasse e perseverasse pela decência, pela honradez, pela disciplina? A pátria já estaria entregue a quem só sabe exigir direitos e mais direitos ― reflete o exemplar da nação pacífica, sem vulcão e sem terremoto, de uma gente alegre e única, unida pelo mais sensual dos sentimentos: a igualdade.
Tão leal a si mesmo, diz o singelamente modesto brasileiro que é preciso tomar partido para agir com imparcialidade, é preciso praticar a parcialidade do lícito que fundamenta a validade dos legítimos.
Com simpatia espetacular, salta um cordialmente realista:
― Quem ama seu semelhante odeia não ser correspondido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de julho de 2020.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Cronicamente humana


Cronicamente humana

Por amor à humanidade, quem poderia muito bem estar narrando a crônica está meio inquieto, andando pausadamente, disposto a não despertar a curiosidade dos passantes. Pois é, a pessoa que poderia estar narrando está numa esquina movimentada da avenida, ali, num lugar estratégico, bem na entrada daquela galeria em que se vendem camisetas com os mais quentes slogans políticos do momento e há aquele restaurante cujo chopinho vem com um colarinho densamente saboroso. Sim, sim, o ponto é deveras relevante para observações de campo, porque todo tipo de gente não para de passar. Ou seja: basta um pouco de paciência, olho clínico para a coisa e, voilà, obtém-se o registro do que realmente interessa. Por isso, pelo amor ao próximo e à bisbilhotice mundana, quem fica se ocupando com a fisionomia dos transeuntes não faz caso de contar.
Em vez desta prosa que pisca à amiga leitora e ao amigo leitor, a pessoa dedica-se a acreditar que está oculta atrás do recato da sua presença. Contudo, as demais que se veem obrigadas a desviar não resmungam nem gastam saliva com impropérios ou zombarias.
Elas procuram evitar quaisquer tipos de choque, o frontal quando desatentas ou os esbarrões, uma vez que a pessoa que deveria estar mais esperta fica viajando por um universo paralelo.
Aparentemente, pois a pessoa solta um palavrão assim que ouve alguém questionando a razão dos ônibus lotados em plena crise do corona, como se houvesse um quê de loucura coletiva em insistir em ganhar dinheiro para o pão com queijo de cada dia.
Pensando melhor, mesmo o pão de queijo que está comendo tem o sabor indigesto de algo bom feito na hora errada. A pessoa que não está narrando quer doar o saquinho inteiro, comendo só aquele que já tinha dado uma boa mordida. Afinal, é preciso ter consciência.
Assim, certa de ter passado a agir para o benefício da sociedade em geral, ela acende um cigarro e senta-se para fumar sem pressa. De pernas cruzadas, pigarreando de vez em quando, cuidando limpar umas sujeirinhas embaixo das unhas, passa a escutar o que a fila da lotérica anda comentando.
Alguém reclama, com o ardor dos inconformados, que uma vizinha que vende bolo caseiro no portão lá do shopping vem recebendo sem atraso a parcela emergencial do governo e ela nada de ver pingar um tostão na conta, mesmo tendo feito o cadastro com dois nomes, o de solteira e o de casada.
A pessoa que não está narrando, por uma solidariedade exemplar, acha legítima a indignação da mulher que critica a incompetência do governo que nem para ajudar quem mais precisa faz isso direito, na rapidez com que a fome vem comendo os estômagos do país.
Precisa ter atitude.
Mesmo que pensem que está sendo espertalhona, a pessoa que gostaria de estar narrando escreve num pedaço de papelão:
OUÇO AS SUAS DORES.
E uma meninota corre ser a primeira.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2020.

domingo, 28 de junho de 2020

A coisa certa


A coisa certa

Peraí, quer dizer que você faz uma coisa de cada vez? Age assim pra não gerar confusão? Pra dar conta do pouco tempo que tem? Ou quer acreditar que consegue manter-se sóbrio?
Um momento. Respire, pense.
Eis o ponto no qual há duas ações simultâneas: pensa enquanto respira. Acrescente-se: envelhece. Vive numa embolada só. No ritmo que você dita a si. Além do pensamento, da organização das ideias e do entendimento consciente. Para que haja consenso em aceitar que pensa, age ao pensar e põe em palavras.
Atos, palavras e pensamentos, até no dissenso.
Nesse ínterim, ocorre-lhe:
“Sabe aquele ambiente do tipo confronto eterno num cubículo sem saída? Haja peleja, haja resistência. Daí alguém sucumbe, entrega de bandeja. O outro não vence, ele tripudia. Sem vitória a ser celebrada. Sem conquista a ser comemorada. Há o peso tacanho da submissão imposta. Não há bravura nem coragem. Prepondera o ato autoritário, vil, humilhante. O oco do osso, o sombrio do fechado, o ar que some, que asfixia, e extermina. Então, que haja a retratação, uma vez que o horizonte revela-se o confronto moral num poço sem justiça”.
Foi para ficar embriagado, não de palavras ou de sensações, com a cerveja? Em plena quarentena? Voltar do boteco neste estado? Pra ficar falando nada com nada, um palavrório estúpido?
E aqueles livros que sempre esteve a fim de ler? Por que não os ler agora?
Primeiro: A Peste, de Albert Camus. As circunstâncias já bastam. Se está vivendo a clausura por recomendação científica, a sanidade pede não cavar mais funda a caverna onde pressente o enfarto.
Não lerá.
Porque sente o coração na boca, a veia tensa do pescoço, a nuca dura. É preferível não riscar o fósforo. Acender a vela para quê? Para deixar menor o cárcere; pra consumir rapidamente o ar que resta.
É lógico: fica difícil ler O Doente Imaginário, de Molière.
Enfim, como estátua viva que faz da cadeira cativa seu pedestal, o narciso pouco dado aos zumnidos da família correu chorar da própria desgraça. Não queria expor a barba rala aos escrutínios da tia metida à modista, mas, sem máscara pra ir bebericando sua cervejinha, até agradece quando notam o cavanhaque grisalho que tem cultivado no isolamento. Lá pelas tantas, chupando caroço de azeitona, passa-lhe pela cabeça o xeque-mate: será que vírus roda ou vomita?
Bebendo... Bebendo... Babando.
É melhor voltar. Não adianta ficar onde não querem que fique.
E já está até vendo que vão contar tudo. Como falam. Falam pra caramba! Será possível?
Eis as duas brincando no cercadinho. A menina pega do chocalho para bater na testa da outra. Não são gêmeas, parecem. Há diferença de meses entre elas. Trocam tapas, puxam cabelo, abrem o berreiro. Alguém ri da briguinha. Lilith com Eva, dizem ao fundo.
Será que disseram isso mesmo?
Como tombo não é pirueta, vai direto pro chuveiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de junho de 2020.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O sabor do tempo


O sabor do tempo

Na mão esquerda uma laranja, vistosa de tão apetitosa; na outra, tão cheia de dentes que dá medo, uma faca. A quem o veja naquela pose talvez ocorra que esteja pensando na morte da bezerra. E que bezerra será essa que possa ter a cara à vista de quem lê?
O homem retirado da previsibilidade, posto que suspende o tempo ao gerar o vácuo do instante, de pergunta sem resposta, ele está se questionando: haverá jogo mais fútil do que, ao ver-se constrangido a dizer o que nem pensa, acabar ridicularizado por atender a vontade alheia ao presente?
O homem que se descobre submisso à tamanha inquietude que o paralisa, ó doce ilusão, assegura-se íntegro ao afigurar-se o pensador com a faca e a laranja nas mãos.
Sim, um coração como o dele, de homem que se revela parado a sustentar o gesto de abandonar-se aos próprios devaneios, ele pulsa a criança implicante quando há tentativas de cerceamento.
Sim, o homem alimenta-se da infância que traz dentro do peito, na bufada a contragosto, na arrebentação do ar para fora, que o suspiro vem com a pujança de menino contrafeito.
Este sentimento rebelde acorda-o para o mundo desconhecido, de inexperiente afeito aos sustos do aprendizado, de quem surpreso ao desvendar viva dentro de si outra pessoa.
A pessoa que se permite estar consigo mais do que um segundo nem liga manejar a lâmina a favor, no corte preciso, para que a casca retirada libere o desfrute do sumo da laranja, como sobremesa sutil.
Quer a satisfação do fruto maduro, a felicidade de fruta colhida na plenitude. Sem a pressa a qualquer preço, que azeda de ácido.
No abismo do desamparo, feito pedra no tênis, a realidade dispara a imagem que incomoda: o fogão. De fato, aquilo está imundo.
A pessoa que resiste teve mesmo que aprender por si a ser dona do próprio nariz, do tempo que pode dar a si, da laranja e da faca nas suas mãos, porque o mundo vai em frente, então, que siga, prossiga e vá como lhe aprouver.
As veredas de sua mente estão respirando pelo corpo tenso, com o mistério do reconhecimento do mesmo ser que tivera cabeleira de menino, dentes de leite, joelhos sem cicatrizes, miopia em dicionário, e a alegria de poder diferenciar a lima do limão.
Outra vez, interpondo-se como formiga cortando barata morta, tem a imundície do fogão a primazia do nojo. E enojado, suspira. O ombro prevê o esforço de esfregar o desengordurante com a buchinha e, por necessidade, pedir o reforço da palha de aço. E tasca mais a química do sapólio, da água sanitária, numa trabalheira do cão.
Mas, além disto?
Já que o tempo não para, o homem entrega os pontos, aceita que ficar corroendo-se não vai impedir o desenlace, o que vem.
Entre a humilhação do agrado que motiva o desprezo e a firmeza na integridade que preservará a dignidade, o homem chupa a laranja com bagaço e tudo.
Tudo? É certo que as sementes dão gosto de futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2020.








terça-feira, 23 de junho de 2020

Mensagem expressa


Mensagem expressa

Ótimo! Levantara antes das seis. Leu os jornais de ontem que não tivera tempo. Tomou o desjejum. E, como quem sabe o que tem pela frente, cuida do dia.
Faz o trajeto de sempre. Sobe em direção à praia. Engraçado que a topografia da cidade contradiz as expressões do cotidiano: todinha plana, como subir?
Sem mais, vai pela rua onde fica o prédio, dobra à direita, dobra à esquerda, mais outra quebra à direita, e chega ao supermercado.
Pega o pão, integral na promoção. Queria ter forças, mas os olhos alcançam o descontinho do refrigerante de cola, mas dois? Retoma a lista, e escolhe a alface mimosa, e seleciona tomates quase maduros, e, inebriando-se, cheira laranjas, peras e maçãs.
Feita a compra, refaz o percurso, em sentido inverso.
Somando tudo: ida e volta; espera na fila do caixa; três palavras, à porta do edifício, com o zelador; higienização do que trouxe; livrar-se das roupas; banho tomado: trinta e três minutos.
O resumo do dia, conforme narra ao telefone.
O que o nosso bom informante não diz? Enfim, lupa não é para ler melhor o que se põe invisível a olho nu? Topamos o desafio?
Então, o cronista foi às compras, cumpriu o propósito de fazê-las e sentou-se sossegado, com um suspirozinho de dever realizado sem a afobação dos ansiosos.
No entanto...
No entanto, a boca que nada esconde nem se lembra de relatar que topou com uma pessoa conhecida na esquina do mercado.
E ela estava entregando a um rapaz malabarista de semáforo uma quentinha do restaurante onde eventualmente se esbarravam antes da Covid-19 impedi-los de tal socialização.
Mais ainda, a alma boa gentil que oferece comida estava sorrindo, como se pandemia não houvesse, como quem ama o próximo sobre todas as desgraças deste mundo.
O que o narrador da crônica também não quis falar é que a cidadã veio sorrindo, de braços abertos, louca, muito louca, sem a máscara da resignação e sem o gel da prudência. Evidentemente, motivada a compartilhar o sentimento de bem-estar, apesar do corona. Doida, tão doida, que se sentia livre o bastante para contaminá-lo com aquela alegria ávida de viver.
Foi portanto, à vista disso, que o fraterno mas nem tanto recuou; o fez num sobressalto, assim convicto de manter-se longe o suficiente para demonstrar a sua resoluta desconfiança da terapia do abraço.
Poxa, o sujeito é bacana, tenta ser útil como pode, mas deve fazer o que recomenda o senso científico do painel da moça da TV.
Logo, ao contar as novidades, melhor nem tocar no assunto. Para que botar mais medo em quem já tem o seu quinhão, de gente lúcida com leve hipocondria.
Concluindo: com o seu pijama amarelo candidamente pendurado no varal, o careca detalhista nem menciona a loja apinhada de caras terrificadas, uma vez que aqueles vinte e sete graus do solstício estão anunciando um dos mais tórridos invernos do século 21.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2020.

domingo, 21 de junho de 2020

Dia de sol


Dia de sol

O domingo amanhece com aquele céu azul, umas nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Como crônica antiga caprichada na emoção de sentimentos à tona, a página disposta feito espaço livre ao poético na veia da escrita. Daí que esta combinação do azul com o branco leve a pensar que: sim, é possível que o mundo continue encantador.
Entretanto, nem só de encantamentos vive-se.
O chato da vida pode estar em ficar pensando sobre o que fazer, quando, na verdade, em algumas circunstâncias nem dá tempo para isso. Ou vai ou racha, sem as finuras de meio-tom. Não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da loucura.
De tanto pensar, pensar, pensar? A restrição impõe-se como ideia fixa: cérebro trabalhando. O confinamento dita o ritmo do tempo que a cabeça preenche com falta de humor. O isolamento, portanto, é uma condenação a rotinas impensadas. O réu nega as suas culpas, pois os seus erros não passam de enganos. E ninguém em sã consciência vê-se como digno disso que o mundo está propondo. Dor, sofrimento, desconforto, o futuro preso a indefinições. Daí que o presente travou, feito página que, nos dias de internet discada, rodava, rodava aquele:
CARREGANDO...
Ficasse nisso, a manhã engasgaria. Mas as maritacas gracejaram; os casais se amaram; os corredores voltaram do calçadão; e o ar do apê foi ganhando os timbres de frango no forno, molho no macarrão e embriaguez do satisfeito.
Então, sem dar trela de si, o oxigênio vai circulando de norte a sul, da cabeça aos pés. Pondo-se a degustar o disco inteiro, Até Sangrar da Áurea Martins, toma-se de surpresa. A cada verso, achando bem esquisito que “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”, que o seu "retrato fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”, como se a vida estivesse dizendo “que ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”, que “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”. E, por sinal, de olhos fechados.
O destino falando com ele, uma pessoa qualquer, com problemas e alegrias de gente comum, cuja mortalidade zanza pelo fio invisível que suspende o instante, numa perplexidade que angustia?
A sua mente solta do nada: volte à vida, tire o pijama!
Pijama? Como não tem nenhum, vai ter que comprar um.
E os pelos das pernas ficam eriçados, só de pensar em ir atrás de um pijama novo, bonito, colorido. E de que cor? Nem vem com a ideia de vermelho que isso é coisa de esquerdopata; nem verde-amarelo, que é para minions trogloditas.
Faça a escolha consciente.
O algodão menos traumatizante, a estampa floral mais calmante e o tamanho justo para o físico da criatura que é.
O bicho que, no presente segundo, cochila. Sim, existe coisa mais importante do que vestir um pijama: tirar uma pestana no sofá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de junho de 2020.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

A próxima crônica


A próxima crônica

Muito me engano por acreditar no que faço?
Como resposta, retomo as palavras que estão num texto que se afogou numa entrelinha qualquer: “Por não ter o que dizer, digo. Não me preocupo com a mensagem a passar, escrevo. Ponho no papel o que o texto vai propondo. Feito, debruço-me sobre o escrito”.
Mas, como a cachola tem mais coelhos que os olhos possam ver, retomo o fôlego, recupero os sentidos e trato de me retratar, pois isso talvez me ajude a pensar com vagar, pondo na reflexão o cuidado de alisar as rugas, puxando o fio que se enovela com facilidade, dando o simples como bem acabado. Possivelmente acabado, no instante em que o ponto surge como limite definidor do que tinha que ser dito.
Não escrevo para me sentir bem, eu escrevo. Não me sinto bem depois de escrito? Até posso me sentir bem, mas não a princípio. Não escrevo porque acredito estar fazendo um bem, nem confio assim no que escrevo. Volto a dizer, escrevo. Entre escrever e acreditar, então, borbulham a autoestima, a autoconfiança e a vaidade.
Das três, preciso confiar em mim o bastante para estar atento ao que o texto quer dizer, independentemente de minhas crenças, de me afiançar depositário fidedigno de que possa estar agindo em nome de um bem a ser feito. Como se minha palavra fosse mesmo uma fonte confiável o suficiente para assegurar a validade da mensagem que o texto aparentemente quer transmitir a quem lê.
O texto diz o que tem para ser dito como precisa que seja dito.
Em outras palavras, as minhas habilidades e competências, como escritor e de escritor que lê o próprio escrito, podem e precisam estar a serviço da escuta do que o texto diz. Não posso nem preciso fazer com que o escrito diga o que quero ouvir. Meu trabalho é possibilitar que o texto tenha voz própria, que a linguagem torne-se esta voz, que as palavras digam o que nem acredito poder dizê-las enquanto estou escrevendo. Afinal, o texto vai deixando-se dizer; e, depois de escrito, torna-se outro, dizendo o que tem para dizer a quem o lê.
Não sou quem faz, estou no que faço. Estou a fazer-me. Enquanto faço, faço-me. Mas, ao fim e ao cabo, não estou inteiramente aí. Não como abreviação de mim, pois não sou o que fiz de mim enquanto ia fazendo. A fabricar-me com ideias, palavras, atribuindo valores, tendo umas certezas, voláteis e significativas.
A escrita do escrito diz que o escritor existe enquanto escreve.
Nem ontem nem amanhã, no ato.
Pondo-me à disposição do que ando compondo.
Nada menos que o processo, o movimento, este ir-se que não se percebe, passando pelo que não se vê, e vai seguindo pelo que não se sentia até então. Do inaudito pelo interdito, o inédito. O trânsito, o transe, a transmutação. O inventar-se como quem sonha, o sonhar-se como quem deseja, o desejar-se como quem se inventa.
De novo, e de novo. Não para que chegue, mas para que venha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de junho de 2020.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Com pirações



Com pirações

Onde o pirado tem razão?
No coração, quando quebra o gelo. No colchão, ao tirar onda. No chão, lambendo lentilhas. No pirão, tascando pimenta.
Precisemos a nossa teoria para prosseguir respirando.
Como quem trepa pelo arco-íris: passemos pelos pastos de ouro; batamos no touro que o touro é de vidro; fujamos do louro que o louro é tingido; esperemos que suba o fumo da quimera, que a queimemos vinte, cinquenta, cem ou mil, num ódio, fogo que nem se nota.
Com estátua fingindo-se de morta, abusemos. Rindo na cara dura. Passemos dos limites. Afinal, memes não desmentem os fatos.
Que felicidade termos impunidades. Gozemos exercitá-las.
Sem nojo, tratemos de calçar nossos inimigos com botas, botinas, coturnos, sapatos e sapatilhas, porque a lama pegajosa não está nos pés que querem andar o mundo, está na língua de quem deplora.
Com motivo de sobra? Seus 80 anos em abril.
Coisa boa.
A luta de classes castra só os marxistas comunistas de uma figa, passando por sobre trotskistas, humoristas e tantos vigaristas santos. Portanto, endireitemos a coluna, avancemos na contramão, vigiemos quem por nós nos vigia. Façamos nossa a vingança a quem nos quer enfurnados, virtuosamente refinados.
Façamos o instante. Chega de ficarmos no escuro da sala. Sim, já reparamos que os outros é que matam. Assim, vivamos com alegria, uma vez que contentamentos anulam o isolamento.
Rasguemos o filó às moscas da malária, dengue. Sem amarelar.
Deixaremos que uns moleques, atrás de lentes de araque, grudem suas melecas nas nossas cadeiras? Deixaremos que a brisa do mar nos envergue como caniços ao luar?
Basta. Chega de servir cafezinho a quem pede adoçante.
Viva. Queremos agora aquela xícara de café quentinho, acabado de passar, fumegando de bom, reconfortante. Façamos por gosto que a beberagem atice-nos a correr ruas, praças, praias e quiosques.
Bebamos num gole. Bebamos de uma vez por todas.
Lutemos pelo luto na hora certa. Vaguemos pelo lado raso da lua. Gritemos por silêncio quando o mundo estiver berrando.
Urinemos na flor do cacto. Odoremos por ofício. Espinhemos.
Debaixo do cimento que assenta o pedestal do ilustre apedrejado, há pegadas de lobos, lascas de unha de jaguatirica, fiapos de túnica de pessoas mortas. Como o peso da realidade cobre o que se ignora, o realismo túrgido bem dramatiza o que não se sabe.
Se o láudano é ladainha, o cantochão é cantoria.
Desliguemos as TVs. Silenciemos os rádios. Rasguemos jornais.
Com o mordomo atento ao dono, mesmo morcegando de sono?
Toquemos a mesma nota, até que ela vire a tônica. Que o mantra congele o mocinho no papel de anjinho. Que o canto retire o manto a quem quer o frio. Azarões, deixemos de mugir como galãs.
Cadê a graça? Quem ri desde o começo, desmanda.
Patologicamente armados com o riso, entremos de cara na torta:
Coringa na cabeça!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de junho de 2020.







domingo, 14 de junho de 2020

Hora da faxina


Hora da faxina

Comecemos pelo homem de quatro, entregue à banalíssima tarefa de esfregar o chão que fica debaixo do fogão. Como cozinhar com os fogareiros imundos, gordurosos, repugnantes?
Dispensemos acompanhá-lo.
Entremos pela imagem bucólica, nostálgica, amorosamente pueril: a criança petrificada pela câmera, que o fotógrafo das muitas famílias ibiunenses mantinha a postos: por tripé profissional, lente correta e a luz alfabetizada pelos dois guarda-chuvas pintados de prata.
Reparemos na postura do menino.
Com o cabelinho escorrido da esquerda para a direita; com os pés no ar, porque o corpo está apoiado numa trave de madeira, como se o objeto replicasse os bancos de igreja.
Para que sujar a calça de tergal naquela pose, não fora o bastante ter obedecido ao senta-levanta da missa dominical?
Admitamos, todavia: há semelhança com um confessionário. Com o padre para lá da treliça, e o pecador a elencar, de joelhos, as ações vexatórias, deveras merecedoras de divinas correções.
Uma vez que o preto e o branco do registro não escondem os idos de 1974, ano da primeira comunhão do referido pirralho, realcemos o terço envolvendo o livrinho a catequizá-lo para as castidades futuras, conforme às boas-novas da performance do padrão.
Se houvesse aprendido que o probo não peca, diríamos mínima a probabilidade de ato tão infame posto em outra foto da personagem enfocada: novamente ajoelhada, a perpetrar aquele sorrisão de quem gargalha, blasfema, em desrespeito que dá engulhos só de admiti-lo, já passados doze anos, tempo da maturação de um Chivas original.
Enfatizaríamos que a dita cuja pessoa andava abjurada por Minas, nalguma igreja histórica, diabolicamente nada contrita, como a dizer a quem pesque sua mensagem: sei bem com quantos escravos o ouro rococó mantém-se de pé para embasbacar os fariseus.
Aviso: o narrador dá fé que não subscreve tal pensamento.
Continuemos, portanto.
Havemos de concluir o passeio por umas fotos retiradas ao museu do tempo com o acaso do flagrante capturado, em junho de 2020, por Nuno Ferreira Santos, jornalista do Público, o qual dá-nos a ler que: a estampa ostenta o vigário que empunha a Cruz-sem-Cristo mais três curumins: um, em pé, junto à perna direita; outro, igualmente em pé, à esquerda; o terceiro, o que motiva a pô-lo em palavras, o avesso ao paralelo da simetria ao Vieira possesso, o rubro da pedra que acorda, o que bate no palco Trindade Coelho, ele é.
À vista disso, imbuída de veementes aviões, coléricos caminhões e amazônicos fogões, esta crônica denuncia que apenas aquecendo a Terra para que leviatânicas águas recubram a Candelária do Rio.
Assim, faz-se escandaloso o adiamento de mergulhar a escadaria ou haverá quem finque o pé em não reconhecer a beleza civilizatória, turística formosa de um coral, este bem natural.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de junho de 2020.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ensaio ao vivo


Ensaio ao vivo

Quando o palco continua ocupado por uma noite que não acaba, o sonho pede outro fôlego.
As esferas do mundo vão girando à vontade, lá delas, cuja lógica foge ao entendimento da pessoa que observa a rua. Da sacada, onde se imagina protegido de febres, fezes e garras, dali o olhar insone, de escandalizada miopia, vê o imprevisível jorrar do nada. Fosse mesmo útil, pagaria pelo passível da obediência ao calendário que a folhinha mantém domesticada, iria dirigido pelo fluxo.
Por contaminação doentia, por conta desta planetária calamidade sanitária, vai a desconsiderar que portas servem a entradas e saídas. Se jura o que sabe, barganha o que pode; assim, com sua cidadania presa aos rodopios da vertigem, saca que tipo de franquia devota às agências, e pena.
Em outras palavras, o animal acuado padece de tanta angústia, do iminente adiado mais um tanto, da falta de ar que desespera. Afinal, o elástico, uma vez submetido ao ímpeto que o estressa na medida do suportável, desajusta-se, perde a plasticidade, acaba distendido.
Menos controlável, o vento não sopra. As águas do dia correm no meio-fio, movidas por regras desconhecidas, imemoriais, de origem caótica. Pouco compreensível com as leis da natureza, mostra-se.
Assim, de umbigo lavado, unhas cortadas, tomando ar, vendo sua rotina tomada de outras normalidades, a mente da pessoa precisa de um tempo. Nem que seja só por um segundo, uma coisinha besta que nem mosca percebe atraente, merecedora do azul de suas picadas.
A perda do equilíbrio entra pelo passivo de um incômodo maior do que o rendimento da esperança, aí, quando a memória destila algum sentido. É neste trecho, neste ponto em que o dinheiro: compra o que pode; venda o que deve; apaga o que tolera; ascende o que aceita; e o que oferece, segrega; o que precisa, segreda; o que toca, silencia. Há repasses que atormentam, alucinam, transfiguram.
Agastada, por haver-se no quinhão dos vencidos, busca saber-se: será cínica a pessoa que só admite a hipocrisia ao renegar os vícios enquanto os pratica?
O corpo que sente o senso está lembrado que a manhã de ontem teve outra levada. Tinha sol. As máquinas mudaram o chão com novo piso: asfaltaram-no, alisaram-no, compactaram-no.
No bemol da terça às três, dá tônica o sustenido.
Do outro lado da rua, na varanda com plantas e cadeira de praia, ali está o homem. Debruçado sobre o mundo, avesso a burburinhos, arrisca-se. E senhor de si, inspira pelo violão.
O mundo, o violão que não se escuta. A vida, o trânsito que ignora o olvido. A música, o coração aberto ao trágico. A dor, osso que tira o não do nylon.
E cá, serve-se o pinhão do café. À mesa, pai e mãe, avôs e avós, parentes de parte a parte, amigas, amigos. E há lugar a quem trouxe leite, açúcar e os analgésicos. Mortos, vivos e feridos.
Quando o instante inventa, soa feito agora.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2020.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Um autêntico cântico


Um autêntico cântico

Ora, quer maior prova de vida do que um grito?
Ora, como quem grita a toda hora perde audiência, é razoável ter cativos na plateia somente os imbecis, ou os péssimos de ouvido.
Ora, quem grita no momento oportuno cavalga bem o cavalo que o carrega. E quando observado de perto, exibindo a beleza dos seus músculos, trota; e farejando um obstáculo que exija cálculo, quando submetido a forças que o querem testar, salta; e campeia, entretanto, quando se vê nos prados selvagens das vontades muito aguçadas.
Ora, quando o ar pesa um bocado, os braços não podem entregar o osso, uma vez que é preciso levar o mundo nas costas.
Ora, o sacrifício pede uma mãozinha, pois, pelo pouco que sabem da faca e do fogo, o cordeiro, a cabra e a galinha não temem nada as manipulações dos adestrados com ar vidrado, de transtornado.
Ora, há pessoas que adaptam o ar que controlam, há quem possa adaptar-se ao ar que consome, e tem gente obrigada à adaptação ao ar que a aniquila.
Ora, honestamente, medo algum angustia, só padece quem sofre, diz a boca cheia de dentes, com o seu hálito de hortelã.
Ora, há quem diga que o circo precisa seguir funcionando a pleno vapor, que sobe do pântano, arde nas narinas e irrita os olhos, e que atordoa, desfalece e mata.
Ora, que se avente a hipótese de uma ideia vingar antes do parto, que a prática corte pela raiz o pensamento contrário aos fatos, que os eventos contem outra história, gentil a quem gargalha enquanto crava na caveira o punhal de destrezas, crenças e privilégios, feito regalo.
Ora, se for mesmo para abrir o jogo, que a verdade venha em uma bula, passe pela lupa dos prestidigitadores e converta infiéis e ímpios; embora os bobos, sempre eles, continuem a brincar com malabares, até que a boca ganhe uma nova costura, a mão nem precise mais de pinos e a grade enquadre o sol, instituindo o inferno aos condenados.
Ora, pra manter o prestígio de galo que faz a alvorada cantar a luz de sua glória esplendorosa, é preciso aquecer as cordas vocais com o ardor da iluminação tântrica de quem está a ponto de explodir.
Ora, como quem vive gritando fica sem voz, nesse ritmo em que a coisa toda está indo, vamos entrar bem antes da curva, precipitando a banguela do morro, uma vez que a subida anda puxada para quem tem dificuldades respiratórias desde o ventre.
Ora, enquanto for possível, melhor cuidar da garganta pra quando o instante decisivo vier, ou se ouvirá um miadinho trágico.
Ora, o ar envenenado que nos empesteia a todos, o ar viciado que nos confina entre os muros, o ar asfixiante que nos isola de nós, arf!, é melhor abrir janelas e buracos no paredão pra desfrutar da brisa do mar que ainda sopra.
Ora, como quem grita muito torra o saco, não falte entusiasmo pra não queimar o filme do grito neuroticamente assombroso.
Como gritar da sacada do apê parece coisa de criança, oremos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2020.

domingo, 7 de junho de 2020

Prova de vida


Prova de vida

Acordou como outra pessoa. Leve, sem a espinha cobrando uma postura mais educada. Marota, sorridente, desconfiando ter dado com o sentido da vida. Feito uma hortênsia a difundir o perfume peculiar, não de begônias ou madrepérolas. Afinal, cada planta tem tempo de sobra pra seguir curtindo a eternidade da sua condição.
A genética aclara muita coisa, menos a razão de não ter as raízes regadas. Certamente, um dromedário pode rodar um deserto bíblico, de oásis em oásis, sem afundar em duna fofa. Todavia, por natureza, hortênsias e camelos têm distintos encantos.
Conforme se vê, a tônica meio que confunde. E a realidade insiste com estripulias de circo, fumaças erráticas, pouco cômicas. E toda a encenação por causa das olheiras que sumiram.
Metendo fundo a pá, mexendo lá dentro, sobe o vento do susto.
De exuberância contente, de joão-de-barro que bagunça a aurora com a sua disposição de cantar além do poste, da serra do prédio em construção, da escavadeira que abocanha um naco da terra. Cheira o beija-flor esperto, e matraca.
Risonho corpo cúbico, de valorizada hipocrisia, pacífica, de rotina estruturada. Na cara, contudo, a cidadã politicamente brejeira. Natural que acordasse renovada, tão outra, uma vez que fica toda arrepiada só de negar que chegou a pensar em apresentar-se ausente às suas semelhantes, as que, da maneira que pode, opta por apoiar. Põe-se a ouvir as pessoas ajoelhadas e a escutá-las, comovidas.
Andarilha de apê, vai e vem, e acaba com tontura.
Fora as formigas assanhadas no sorvete derretido, tinha que se ver com aquele fogão imundo, a pia cheia de pratos, a frigideira com uma crosta de gordura do contrafilé. E passa um dedo, gosta do alho queimado, mesmo que venha junto a graxa passada, lambe; repete o processo, o muxoxo diz que aprecia.
De fato, preocupada em andar da porta do quarto até a da sala, da vista sobre a rua ao silêncio nas escadas, acha que o prédio anseia pelo desfecho, pela definição do imbróglio com o corona. E intui que parar levará à purga de perder o direito de manter os pés descalços, pois temerá pela saúde.
Mora num apartamento de paredes nuas, de um bege extenuado. Queria pintar de branco para viver num ambiente em que as energias positivas contrariassem a descarga com problema, vazando. Bastaria espalhar fotos, e adeus tristeza.
Muito espera quem descansa. Descansado permanece quem adia mais um pouco o que não quer fazer. Isso irrita. E se por acaso venha a precisar da energia gasta em apressar as coisas?
Sob o sino dos ventos, a um passo do quarto e da cozinha, senta. Pressente-se apta a cuidar. Nem que sofra. Nem que atordoe, estafe, destoe ― doa-se.
Repaginando-se, irrompendo das pátinas que a apatia impõe, raro mármore que respira, flor de ossos do deserto, comprovando que é o sonho que compõe acordada a Pessoa do Futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de junho de 2020.