sábado, 7 de março de 2020

A concha


A concha

Carente de mundo, quer deliciar-se com o Atlântico. Sem telefone. Despido dos compromissos inapeláveis. Munido de guarda-chuva, já que chove muito. De alguma maneira, aconteça menos recalcitrante no esqueleto. Ferido de rotina, com cada osso a cobrar a sua parte às articulações. Faça-se outra, dona terça.
No desgaste compulsório de viver, move-se.
Mendigando mesmo outros apegos, que não as consternações de praxe, encasqueta. Cuidando para que o calçadão ignore o distúrbio. Sem o obséquio de alguma ternura incontrolável. Disposto a acarear o dia. Deixa molhar a ponta do tênis e uns dedos da barra.
Faz pouco do caso. Que o olhar recorte fatias da realidade. Hábito antigo, desprazer recente. Tem consciência disso, e sofre. Recusa-se a alimentar-se de retalhos forçados a incongruências, ao disparate de cavar buracos pra torná-los explícitos.
Insatisfeito, porém discreto. Tratando de manter-se incorporado ao ambiente. Embora os olhos famintos seccionem, e segreguem.
Quando da intuição do erro? Fecha-os, não os cega.
Tarde demais.
Na beira-mar, um vulto. De costas pra avenida.
A tal figura gera o mal-estar. Nem esboça aproximar-se. De longe, interpreta-a. Melancolicamente, parada. Ainda que tema o naufrágio, navega em pensamento. Angústias sufocam sob o guarda-chuva.
Capaz de um truque, percebe qual há de vir a ser.
O sujeito transpira segundas intenções. Manipulador, toma pra si a sedução. Quer que se acredite capaz de consumar uma daquelas.
Sem pedir socorro, vira-se. Há duas pombas ao alcance do chute, que não simula. Como no mundo muita coisa acontece, dirige o olhar de quem o observa. Permite-se a bobeira de compactuar com aquilo.
Então, a escada do posto dos bombeiros torna-se repulsiva. Tem vontade de cuspir no oceano. Só o fato de pensar em não gritar já se faz enlouquecedor. Há fantasmas que não sabem nadar, todavia.
Esta chuva. Tanta água. Por muito pouco, espuma.
Que não surja nenhum guarda-vidas. Dispensável chamá-lo. Pois, o que se há de contar que já não horrorize o bastante?
A história não mente: sofrendo humores, homem some no ar.
Poderia deixar quieto. Ir saciar-se de comida árabe. Mas, a rua em obras; o barulho das máquinas; a algaravia dos operários. A manhã é infatigável, de fato.
Dá para imaginar.
Quem vive a contar histórias solta o corpo no mundo, vai entre as pessoas. Olha, escuta, sente cheiros, engole o brigadeiro, assopra as feridas pútridas. E nojento, chega a lamber a boca.
O que o faz humano, e vicia.
Tanto ao refugiar-se em ruas e ônibus, como ao bloquear e lacrar. Isso, mais o mar que engasga com os algoritmos aptos a seduzir às compras. E o que dizem as pegadas na praia?
Prossiga no encalço, Watson. Talvez se veja aonde isso vai dar.
Porém, por estupidez crônica, pergunte-se ao mar como encerrar 282 mm de chuva numa concha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2020.

quarta-feira, 4 de março de 2020

A montanha


A montanha

Apressado. Atrasado. Atarantado comigo. Ai, ai, ai.
Ia preso ao destino, precisando chegar antes do início da reunião, que começaria logo. Faz parte o mundo seguir no respeito às próprias maquinações. Deu o horário? A equipe tinha o propósito, a disciplina, daria início e pronto. Que fosse o caso; havendo quem considerasse atrasos um desplante, abria-se vaga a ser ocupada por outrem.
Pela hipótese, haja fôlego. Desviando de fezes, fui. De pulo aceso nas pernas ligeiras, tendo à vista buracos puláveis, fui. Há as crateras com água, ainda mais com as chuvas dos últimos dias, daí o jeito foi passar ao lado, sem dar uma de João do Pulo.
Empenhei-me em ir, até o poste em questão surgir do nada. Bem na fuça. Disposto a derrubar quem pegasse pelo caminho, tornei-me vítima sua. Sem escolha, estatelei no chão molhado.
Que chovia ontem, como hoje chove, e também haverá de chover amanhã. Mudou o quê? Ô aquecimento global que só faz chuva.
O efeito estufa o brio da minha vergonha, choro de raiva. Mordo o lábio inferior. Ê vício adquirido nas priscas eras. Sobre as quais, aliás, pouco sei dizer pra onde foram, e se continuam lá.
Ontem e hoje ainda e amanhã também, só para reforçar a ênfase, enfiei na cara um ódio dos mais sinceros. E a quem dirigi a fúria?
O poste foi o primeiro que mandei tomar garapa. Com açúcar pra azedar sua diabete. Com muito rancor pra destemperar de vez o dia, sustentei a praga. Contrafeito, na agonia, magoado. Poste do cão!
Julgo mal um poste dignar-se a pegadinhas do tipo. Com a pessoa tendo compromisso, dar com os fundilhos nas águas do verão?
Verão, no calendário. Tem frio, garoa, resfriado, caldo verde. Item a item, com metros cúbicos de lamentações. Ora, ora, sem poder vê-la, estarei subindo a montanha com a paixão destes meus passos?
Um por vez. E somando um e diminuindo um. Não se sujeitando a subtrações nem a adições que anulem a questão.
Existirá tal desenvolvimento? Um entendimento de ir além de lugar e tempo estando neste lugar e tempo? O palco. Da vida e do mundo. Aqui, a cama a rua a fila do caixa o banco da praça o brinde. Agora, o post a canção o jornal a rosa do povo a saudade.
E o que se ignora? A dor desprepara pra próxima. Porque o corpo instala a percepção. Pela experiência, o súbito fica disponível para a carga do imprevisto. Quando a topada derrubar, terei o argumento da vivência. Sobre os ombros, irei carregar a dor do vivenciado.
Certo de estar vendo melhor por ter vivido a queda, caio. Com a consciência indignada, condicionada a saber por experiência própria o significado de cair. Mas, de novo?
A idade não documenta o ridículo. A vida faz-se.
Assim, esta criança segue brincando a infância que muda porque estou em mudança. Leitor da vida, na leitura do mundo, e pela escrita a cada gesto e pensamento. Estou vivo, logo vivo. Faço-me.
E tão aparentado comigo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2020.

domingo, 1 de março de 2020

Cinema tartamudo


Cinema tartamudo

Mais anil e menos ingênuo em meus despropósitos de compositor, tentarei reger-me por outra banda sonora, Anna Akhmátova.
Sobre a terra devastada, trato por comestíveis a batata, inhame e mandioca, raízes roçadas por afilados dentes submersos no terreno. Dessa mocidade encalacrada entre expectativa e frustração, supondo o sono tornar digeríveis os pesadelos entre apneias, apanho aquele beijo a encher os 200 m2 da tela. Hitler e Stalin beijando-se na boca e AMURAL, bem grandão, ao lado ou abaixo. Suspiro, transpiro, induzo meus olhos pra marca registrada em tela. De uma arrebatadora fome ácida, reconheço universitária esta realidade, anestesia que cega de tanta carência de caroteno, Anna Akhmátova.
O gratuito do mundo acorda a noite ensopada de fé, bife batido no sal com seus fraternais entreveros à mesa. Em casa, meus pais a se entreolharem. O coroinha sobreposto na roupa, com os paramentos a recobrir minha devoção medíocre às comunhões do trigo, pro louvor ao Sebastião do maio local. Dando ouvidos à Mata Atlântica, labirinto verde a subir e descer morros, do Zelão ao Pocinho. Nestes invernais vapores de fevereiro memórias gracejam, Anna Akhmátova.
Dado a instantâneas súplicas amaras diante da pequena bailarina maspiana, baixo a terra com o Bardi a bordo. Podia ir encarar o quilo com vista pra 9 de Julho, e fui, outro juveniilista em cabeleira Robert Smith, lobo mobilizado a singrar os mares no ventre de Leviatã. Das perplexidades dos 80 pras deste 2020, preciso aprender a padecer racionalmente do virulento do ódio, Anna Akhmátova.
Considero os afetos, tomo o pulso de mim, ao meu alcance estão Kierkegaard e Husserl, porém não pretendo complicar o que muito já me baratina. Porque não me querem acomodado, os meus objetivos salpicam a razão com desajustes. Como não neva na tropical Ibiúna, a imaginação arranja um trenó puxado por huskies. Sinto-me alguma Sibéria, silencio pelo Tarkovski que filtro em palavras, e tomo o tempo como obra metafísica, Anna Akhmátova.
Obtuso porque obscuro, submetido a desejos não pronunciados a céu aberto, digo que a sequência das fotos borra o entendimento, faz da água que mofa o fogo que me sublima. À lente da memória, passo nevascas. Ainda que a folhinha registre o ignóbil, semeio ventos pras messes de abril, Anna Akhmátova.
Na Rússia, viro o copo pra vodca dos mujiques. Ou um tipo vulgar de tacape, mas nada sei da caça a cervídeos das estepes. Acendo a luz. Que o lume brilhe ao aquecer. Que a justiça abrace os ofendidos por calamitosas omissões do amor. Chamo à clareira. Não me barra a camada almiscarada de desconhecimento. Desabrocho. Abundo das elegias consternadas, Anna Akhmátova.
Por horror à marcha do que não baila, Anna Akhmátova, desplanto o tesouro da poda, arvoro a coda, foco o alcantilado no meu canto.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de março de 2020.





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Estalos à roda do café


Estalos à roda do café

Sem xícaras, deito o café no copo.
Quando estou seco para nadar, babo feito louco diante de piscina vazia. O que isso significa? Como nem entro mais na sunga de meus doze anos, peço por sua arguciosa leitura.
Sem pirotecnias, passo aos efeitos de uma fatia a mais de torta de frango na terça gorda.
Todavia, faço-o de coração distorcido. Pois tem gente que cisma espalhar que as histórias que aconteceram não passam de invenção. Até parece que a minha moringa autorretrata porque crava a própria versão dos embustes. Ô loro, arial não loira.
Quando o 24 se fez zero, houve o caso. E das duas, uma. A febre carnavalizou-se no ar ou o café baixou-a a espasmos coléricos. Mas a dor que insultava a ponto da privação do sono foi embora. Lorota minha seria apontar a beberagem como mágica. E também sei que pouco faria a caminhada aloprada pelo apartamento às escuras. Pra que, ó cargas d’água, ler notícias já pelado? Só para que a realidade, que de remédio tem somente o travento, entrasse delirar em mim o neurastênico. No que penso, dispenso.
Lacrado na tripa, rua sem diamantes nem tijolinhos azuis. Na lida, com palmeiras pras rolinhas e poste pro joão-de-barro. Na calmaria, mesmo a palmos do mar. A revoluções bolchavistas, periférica.
Da varanda, acaso lá estivesse, testemunharia a miséria humana que, descalça de regalias de casta, vive para cavar buracos, engrenar tubulações e dar braçadas à lama que tanto se despreza. Além disso, o cronograma quis a peta de Momo, ninguém que é de ferro cometerá o arbítrio de condenar o aviso: cuidado, máquinas paradas.
Se for pra malhar, e o oceano poluído?
No Atlântico, logo ali, sobram garrafas com a explícita mensagem. Primeiro, multiplicam-se por mil; depois, cúbicos de cúbicos de peste. Desavisada, a tartaruga dá a vida pra saber que plástico mata porque não degenera. Bem se vê que bicho hipnotiza as águas. Daí, robalos tentam achar uma saída, sardinhas vão no embalo, já os atuns picam a mula, que vem a corja de tubarões, no vácuo.
Sobrevivi aos sentimentos, à confusão do que me movia. Não me descia o drama dos cachorros. Tão magérrimos, no osso, famintos. E me lembrei, talvez pelo frio do piso. Chovia. Aticei as pulgas que não dormiam. De quatro no corpo, o sangue ofendia sentidos. O psíquico do mecanismo modelava os tiques. Se fechei a geladeira com mosca dentro? Teria o baque do meio-dia. Rangiam os dentes.
Havia a natureza, seguia havendo.
Surdo, entretanto, a meus transtornos, o vento batia. Vigoroso. Até sem saber, batia. Mantinha sortilégios. Inconsciente do emprego das primícias. No mar, gerava a espuma das ondas. Desperucaria heróis do chope se eletrocutassem a madrugada com olhar de fogo.
Estarão idos os cães que se foram?
Pobre de mim, diplomado com 10 em ignorância básica.
Pra amargura desta noite, regala-me o café.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de fevereiro de 2020.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Adeus à calma


Adeus à calma

Antes de queimar nos posts da quarta de cinzas a feira da farra, a lista propõe dez intervenções carnais antes do consumo cosmético da laranjada adoçada por lágrimas hipócritas:
1. Estar sentado à espera do ônibus pode causar repentina perda de memória, por falta de espaço no disco ou ficar rodando num trecho que poderia ter sido riscado do mapa. Melhor tomar pé que viaja. Há dois quilômetros pesando como quatro, vindo àquela vez em que, na Pero Leão dos republicanos uspianos alcóolitos, houvera porradinhas de montão. Sem zanzar pela Faria Lima às três da matina, adverte-se não encarar as luas gêmeas da Rebouças, rio que corre pra Paulista. Sempre no trampo, tempo não marca touca, por isso o sol do sábado grita pra múmia sair da tumba, voltar do coma que nem mais um zero à esquerda, outro chumbado pela glória do pilequinho homérico.
2. Pra diferenciar incerteza de dúvida, tanto há razões pra enfiar o celular no bolso, quanto senões pra atirá-lo ao fundo do lar.
3. Soltaram que um manuscrito lacrado por cera de abelha numa caverna entre a Jordânia e a Cisjordânia surta quem o estuda. Afinal, mandado pro espaço bem no meio da ambrosia toda, Lúcifer anda pê da vida. Como um satanás dos diabos, o seu mimimi furibundo segue repercutindo nos tímpanos do vulgo.
4. Reza a lenda que Inferno é “lugar onde Deus não está”. Então, aos olhos do bom cristão, eis ali o inferno que toma suco de manga, e acolá faz uma fezinha pros 200 milhões acumulados, e que alhures ri das artes de pulguento com bebum.
5. Lembrar em qual parede única está a foto embolerada da Nana Caymmi cantando Dois pra lá naquele defumado Piu-Piu dos 80.
6. Já é hora de a vergonha fazer do pomar uma pomada. Já está na hora de parar de não passar por baixo de escada. Já é momento de enfrentar a balança da farmácia e se for o caso, rir. É o instante de pôr os óculos para ler as letrinhas da placa do busto. É agora que o sorrisinho amarelo tem de ir para cara de quem vive tirando onda. Já se faz o momento de compartilhar alegrias, sem os constrangimentos de quem dita regras, multas e interdições. Já se faz a hora de afirmar que não há congraçamento maior do que a vergonha. É hora, ponha na cabeça a dignidade humana. Não há de haver aplausos às palmas vexatórias, sorriso para as risadas energúmenas e mérito aos memes deprimentes. E é pra já. É agora, e não amanhã. Pois arrependimento ilude, não cura mágoa não perdoada. Já a vergonha, esta queima na hora. Então, atire a primeira torta, sapato, ou o que tiver à mão, sem deixar passar o momento em que um descarado esteja zombando de terceiro. Que vá comer o pão que o diabo amassou com a língua dum lambe-botas.
7. Vergonha não fortalece o fraco, nem medo.
8. Tem madeira seca pra pegar fogo.
9. Se a piada não tem graça, faz péssimo negócio quem ri.
Como chupo laranja com gosto, a décima dica fica cancelada.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de fevereiro de 2020.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Asas de fora


Asas de fora

Puxa vida, o carnaval está fervendo as coronárias. Pelo jeitão, tem aprontado. Exagero de cervejinha estúpida. Só falta jogar a culpa no tempo. Ora, calor não estraga assim.
Foi remexendo na escória que estava constrangida no canto que a casa caiu de madura, ou pela gravidade da vez. E desembestaram-se curiosos de parapeito e mexeriqueiros do queijo alheio.
Que coisa esquisita. Pode ser do sol. Estranhíssimo. Algo fora do normal. Será sol excessivo? Será aurora de envilecimento precoce?
Na luz, os porquês exuberam-se.
É preciso analisar, checar seus meandros, esmiuçar as variações. Sim, linguagem é bicho de tentáculos sem saída e subterfúgios de mil sentidos. Dá uma confusão palpitante.
Como inversão, o riso solto?
As abelhas, que eram de origem desconhecida, zuniam ferroadas, milimetricamente precisas num único ponto. Agulhas que ferravam na língua a carne das palavras, infectavam tão depressa que em poucos segundos a febre embaçava a íris, branca de leite. O nariz tomado de reutilidade desestabilizadora, por cada qual narina vertia o fio melado de fel, vistosa e aromaticamente multicolor. Do ocre ao ouro, da sépia ao argênteo, da pátina ao rubro, do plúmbeo ao rosáceo. Das papilas afloravam umas veredas, estupefacientes caminhos, labirintos alados. Por serem abelhas alquímicas, defecavam vertigens, infectavam suas alucinações, implodiam o real com umas ideias desviantes, em nome de uma realidade convulsiva. De impregnante colorido, eram belas as tais abelhas, e vivamente contagiantes, que deliravam o sublime em quem antes as temia, depois do contato, todavia, muitíssimo o queria. Assim, pra dar maior lirismo à apoplexia do que à mutação gerada, da bocarra desta máscara rediviva, saltavam os monstrengos sem cravo. Voavam adagas de aço denso. Condicionadas a replicar o seu código intenso. Programadas pro vítreo da nova gênese. A pôr rato a exigir por ratoeira, fabrica-se em coalho de fatalidades. Tão vívidos os dias deste presente. Como zunido atrás de si, evaporam-se o oxigênio e o carbono. As flamejantes vespas, numa persona de gente, cospem pra que se cuspa, mentem com a lábia cristalina dos que vendem o amor diamantino travestido de lama. Paga-se muito pelo já vencido. Datada e assinada, a palavra dá por risível a perdição do adicto, do carente de sedições, o que de mais a mais se vê dando o que nem tem. Pela falta do que dar, avança-se sobre o futuro. Os dentes práticos cortam, estripam, dessangram, modelam o lodo que baila. Mais os esquálidos imploram, mais reviram no sal. Assim, o fim que não chega adormece quem menos se coça. Nos pulmões túrgidos, o encantamento filtra o torpe, o insidioso e acachapante. Faz-se mel. Mais abelhas eclodem, desabrocham-se no meio da rua.
Pra alergia da alegria, basta ligar o ar-condicionado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de fevereiro de 2020.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Um cão danado


Um cão danado

Como não sei mais com quem ando falando, me reservo o prazer de falar a esmo. Portanto, direi? Posso falar sobre a pessoa sentada no degrau da escada de acesso à areia. Parece meio aborrecida com alguma coisa. Se for pra dar asas à fantasia, vou descartar a faixa de praia entre o mar e ela, focarei na cabeça. Melhor, no volume da voz, tipo o Dylan em Polka Dots and Moonbeams, que nem faz cócegas nos dorminhocos a seus pés.
Curioso, tenho por natural este meu esforço de querer ficar o mais invisível que posso. Até respiro que nem fantasma que se preocupa em não assustar por coisa boba.
Neste momento em que baratas comem restos de queijo que ratos espalham atrás da cristaleira tinindo de limpa, sim. Neste instante em que ficar acordado com vontade doida de chupar manga mesmo com o chuvisco da TV, sim. Nesta hora, prudência faça-se paciência.
Mesmo porque a noite tem que esperar a Terra rodar o dia inteiro até que a porta aberta das esferas cósmicas dê permissão à entrada do Cruzeiro do Sul, em presença das Três Marias.
Circunstâncias assim, de normalidade banal, pedem que se passe ao que se segue, numa versão já verificada.
Dos dois coelhos saltitantes, só desaparece o que sorri. Parece. O outro já não estava lá quando a dúvida veio à tona. Nisso talvez entre alguma dose de perturbação, coisa de bêbado de filmeco de segunda que vê tudo dobrado. Ou o xarope esteja a ponto de admitir que nem coelho tenha visto e nem o jardim dos pulas-pula.
Suponho, portanto, que preciso ficar feito essas estátuas de mais puro cobre. Apesar das cargas que desabam do nada, impassível.
Quando a coisa fica pétrea, opto por dois coelhos numa xaropada só do que cágado na ideia de filósofo, indo ou vindo de Maratona.
Peralá. Os dois coelhos correm em bando. A multidão pulando e o gramado do mesmo tamanho. Peralá de novo. Então, o verde segue na mesma e a tropa está multiplicada de acordo com Malthus. Peraí. Aquele que diz que está vendo orelhudos até no chafariz pira de vez com o estouro de roedores que não param quietos. Fofolejam a mil e com espaço entre eles. Mas o que será isso?
Está de surto.
Não se achincalhe quem tem a consciência abarcada na loucura. Como não sabe rir de si, nem se dá conta de que produz julgamentos monstruosos, geométricos, isentos de contradições. Escolha-se uma existência proba. Afinal, às vezes, passa-se a ideia de que está tudo bem, quando pouco está. Outras vezes, toca correr pra junto do mar. Tocar suas ondas, deixar tocar-se. Até que o pensamento perceba-se no vaivém da água. Há banhistas, há barraquinhas. O nojo afunda-se num lugar sem acesso simples. Lá a memória arquiva trampolinices, beijos de língua, noites de lua. Na banguela, o que se faz ou não...
Pluft.
Funcional e operante, bem se diz pra não confiar nas pessoas, pra que, pelas artes deste mundo, acabem confiando em você.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de fevereiro de 2020.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Sonhata


Sonhata

Como foi o dia? Sei não. Pro balanço, luz apagada, ajusto-me aos fones. Quedo achar o que ficou pro futuro. Comprometo-me comigo a evitar que passe uma segunda vez o que passou ao largo. O cansaço talvez justifique ter deixado ir um montão do que quer que fosse, sem que houvesse outra reação que não os afetos de pusilanimidade.
Certo, deixei fluir a urgência do presente. Mas não faltará coragem de lamentar-me do que já foi. O perdido continua seu mundo obscuro, talvez próprio a coisas perdidas. Coisas? Mesmo a emoção.
Triste, uma desumanidade. Quero mudar o olhar. Quero cuidar de mudá-lo, pro sentimento dar em sustância. Enfim, nutro a percepção de que o acaso seduz com promessas. Deposito o crédito de permitir ao vindouro o que possa vir, já vindo.
Como encaro os dias? A loucura do mundo quer-me afogado, usa o material mais convencional que tenho como disponível: as palavras. Pois, escrevo. Com a dedicação dos atônitos, abraço-as.
Junto uma na outra, e a música inventa o ambiente.
Além da escuridão, da nuca na almofada, do volume ao gosto, os tímpanos traduzem em corrente elétrica as pulsões que não domino.
Um lapso nas sinapses. Falta o tranco a me puxar pra audição.
Nessa desolação, perco cor, textura, um nome. Vinga a abstração. Com a cabeça desesperando da sintonia com os sentidos. Entretanto, há deleite. Naquilo que ouço, intuo o tom. Vislumbro um eco. Talvez a palavra possibilite a materialidade. Por que a sinto?
Em resumo, há insinuações que abonam um vocabulário.
Aceito a decantação da lama dos eventos, filtro-a pelos ouvidos. E a música muito me auxilia. Peço uma peça de durabilidade apreciada, com pelo menos 250 anos de rodagem. Beethoven. Quer forma mais sensível pra assentar a náusea e o gozo do dia do que suas sonatas?
Tal escolha, tais regras.
O jogo começa no dia em que o Estadão chama as mãos ao piano de Igor Levit. Quero conhecer sua prática. Interessa-me sua integral. Proponho ouvir as 32 sonatas. Melhor, tento pôr numa palavra o que me mobiliza. Ao final de cada obra, quero captá-la, a força que move. Deste 15 de janeiro ao próximo15, uma sonata ao dia, em 32 dias.
As veredas do dia têm seus trâmites?
Insondável para mim, fico à margem do mundo sonoro do alemão, que diz as suas geografia e história. Tento, rabisco, perco-me. Quer o empenho, a petulância. Deparo-me, incomunicável. Sobram palavras, falha-me o entendimento. Insistir no fracasso? Estúpido.
Todavia, vivo cada um deles, tais 32 dias.
E o que espero de mim? Imagino que pouco se me dá manipular o azul da ilusão, dispersar andorinhas e chamar as saúvas com farelos de pão. Fissura-me a oportunidade da escuta.
Contudo, ensurdeço.
Como o porvir não tarda, mesmo que atrase, fabrico-me a pessoa lúcida e articulada, capaz de dizer que faz o que faz de modo lúcido e articulado. Ainda mais, cochilando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de fevereiro de 2020.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A parte que me cabe


A parte que me cabe

Como criança que, de repente, desperta palpitar de meus olvidos, o convite exalava nítido. A tarde dispunha do sol endoidecido, típico do verão, mais a brisa folgazã, feito leque de senhorinha à espera de limonada. Pus a vontade para decodificar o código como sugestão. E não deu outra. Contando ainda com a cumplicidade da agenda, topei ir aos jardins da orla de Santos.
Em plena uma de terça? Pois, em boa hora, calhou-me a consulta.
Como não frequento clube que cobre pela fidelidade a estatutos, o parque com vista pro mar tratou de me acolher. Acolhimento singelo, de sorrisinho sardônico na carinha de uma pequerrucha que corria ao sabor do salsicha de orelhas dumbísticas, e senhor de seus latidos.
Quer sinal mais terno? Soaria uma afronta obrigar o tempo a ouvir o ramerrão de contas perdidas, torpedos bizarros, compras por fazer, todo dia. Assim, abracei tão de cuca fresca esse idílio.
Sei, parece mesmo um insulto ficar bem com o mundo passando por esta fase nada simples. Nem falarei do derretimento global, basta ler o quanto de água mineral anda sendo vendida no Rio de Janeiro. Nem vou tocar nesse coronavírus, que a China acender o rastilho que põe o mundo em polvorosa sobre o bicharoco de coroa desmascara o abuso da linguagem. Palavras contra os cantões de todo canto.
A realidade talvez quisesse ignorar-me ágil como a mosca de suor que testa o rapaz. Ele tentava coordenar os joelhos, ouvia ordens que não realizava. A esposa enfatizava que as duas patelas deviam olhar pra frente, estrábicas rolariam o equilíbrio pro chão da ciclovia.
Ai, ai, poeta, meu corpo sabe mais de mim do que eu.
Se iludiria a fome com pastel ou sorvete? Não me esganaria, mas as necessidades do organismo socavam a buzina da obscenidade ao desprezar arroz e feijão. Escolhi carne seca com garapa.
Acabarei surdo? Cadê o medo do contágio? Torneira não devasta com a morte? Impressionante, querer tirar o melado do pescoço com a água da torneira?
Sim, perguntas detonam as barreiras do juízo. Por isso, mordi com gosto. De noite, a gastrite iria conversar comigo com os atrevimentos da razão. E quantas perguntas. Ô minhocas pra se reproduzirem com ânimo. Nisso não pincelo facilidades hermafroditas de pintar o amor. Nada sei do hermafroditismo, nem das minhas próprias minhocas.
A ponto do surto, iria pegar o Tatico das seis, refreando a piração, ganho um inesperado, úmido e generoso beijo na bochecha.
A senhora diz que seu neto falou que era uma santa com lugar no céu. Tem reserva, afinal é santa. Que vai pro céu por causa da alma que faz o que pode pelo semelhante. E vai pro inferno também, pra lá seguir cuidando de quem não vive sem ajuda.
Esgotando a miragem do busão desentupido, cai a ficha na minha moringa reconectada. Vivo pedindo água, portanto estou no segundo grupo. Logo? Putz.
Que inferno.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de fevereiro de 2020.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Pedido executado


Pedido executado

Segundo penso, um texto (seja foto de pangolim, música do André Mehmari ou poema do Chacal) funciona feito espelho. Boto a cara ao interpretá-lo, recompondo-me ao circunstanciá-lo, a cada leitura.
Uma vez que pedras de rio não param, desenrolo.
Veja bem, quando falta ar ou o chão escapa de sob os pés, então, a coisa fica bagunçada. Depois da chuva, digo, o bueiro sabe os fatos do alagamento. Vou indo, a leptospirose conhece o rato pela urina. A bobeira dá de repente, sento no meio-fio. Apoio a nuca no poste, não apoio o medo. Não desmaio. Suporto o equilíbrio, puxo pelo ar.
Não entenda mal. Preciso respirar; falha minha, eu sei. Respeito a senhora que está de luto, vejo o terço. Ora, não condeno que reze. Já a chaminé da pizzaria diz que hoje tem futebol, fuma de louca. Nada de pizza, queria ter micro-ondas e escafandro, mas o antigamente de mim segue roendo nas juntas. Dou minha palavra, a de quem assobia mal, dança mal e põe fé que mal exista.
Prefiro o fósforo, uso fogão, tenho só um bujão de 13 kg. Simples, prático, jurássico. Normal, tenho é tesão no raso dos dias.
Pelo jeito, nem estou me entendendo, por isso desisto de explicar. A charada na cabeça põe o insolúvel. Ajeito-me com o jornal. Tenho meio século pesando na cerviz, ó inestimável autoestima.
O que eu quis dizer, e quero ainda, é que onde não há explicação, seja possível que haja, embora não alcance o sentido de escamotear o que já está ininteligível. Em outras palavras, quando não for insano, tornar possível que seja. Assim, para tornar indeduzível que haja o C, rejeite-se a relação de A com B. Portanto, sem a paranoia de querer associar nome a lugar.
Pra evitar confusão, já que não dá pra evitá-la, que o possível flua. Sem mensagem sub-reptícia, algaravia, mimimi.
Quando não está confuso, que fique. Existe razão pra complicar o simples, falta sabê-la. Atira-se na lata, acerta-se no alvo; sendo o alvo o branco, mesmo que não seja; mesmo que, no escuro, acerte-se no atirado. Acima da linha do oceano, olho.
No jogo de castas antenadas, melhor dormir depois da novela. Já que nada existe de fantasmagórico, quero sonhar. Sem luneta, que o perplexo em mim dê vida ao Atlântico.
Memórias de um marquês de milícias?
Ninguém é grande homem em tudo e em todo o tempo. Quem não desconfia de si, não merece a confiança dos outros. Os homens mais respeitados não são sempre os mais respeitáveis. Os nossos maiores inimigos existem dentro de nós mesmos: são os nossos erros, vícios e paixões. O homem que despreza a opinião pública é muito tolo ou muito sábio. A pobreza e a preguiça andam sempre em companhia. Nenhum governo é bom para os homens maus.
Por que não se pergunta, pergunte-se.
Como há limite para tudo, peça crédito. O sol perde o sono com a cortina rasgada. Não há passo sem dá-lo.
Da pisadela ao beliscão, o G rebenta no meio.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de fevereiro de 2020.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O livramento


O livramento

Sem meneios de democrata pundonoroso, cuja transparência opta flertar com o ilusionismo opaco, solicita-se a letra cristalina do Título I, dos princípios fundamentais, que constitui em Estado Democrático de Direito a República Federativa do Brasil, conforme o promulgado em 05 de outubro de 1988.
Legal. Feita a leitura, passemos ao pão, pão.
De concreto mesmo, a pia, a escova e o creme dental. Assim é se, como oportunidade, se apresenta a ocasião. Que pode ser calculada. Por exemplo, ao vir a maçã sob medida. E por que medida?
Por suposto, tenho dentes; portanto, hei de escová-los.
Não tenho passado fome, ando mordido. Pela vida rasteira, e sem besteira. Pois, passar fome porque não se tem o que comer não é o mesmo que passar fome porque não se quer comer. Vivo isso. Aliás, ficar remoendo banana já comida não some com a casca. Ainda que se possa mesmo jogá-la às cegas, arrisca-se o escorregão virar um tombaço. Sério, costuma-se largar o que se esquece em lugar que só faz aumentar a chance do vexame. Dá-lhe, ardósia. E ando dolorido.
Então, a raiva de mão, o soco fdp, essas coisas que tornam mais saboroso ficar de longe, rindo por dentro. Sim. Com o tédio jogado no lixo, pode-se rir. Mas é rindo gostoso que a gente nem lembra o fiapo de frango, o verde da alface. Xis.
Aliás, pessoa sem papas na língua não pensa nos outros, mesmo porque nem é dada a pensar em si. É que nem foguete: do banho, já sai rolando na terra. Oxe.
Hoje, mestre de mim até onde sei, afaga-me o Nero, querendo pôr fogo no mundo. Ia já declarando suas chamas, e comigo gaguejando. Caso faça diferença, moro em prédio. Por isso, o cabeça vê um sítio: fora da suspeição. Ali se amontoariam cadernos do grupo, cadernetas do ginásio, as fotos do colegial. Sem deixar dúvida paralisar as mãos, mandaria nos fósforos. Inominável e febril, quase às lágrimas. Penso, pro fogo dar no inflamável, fundamental é amaçarocar tudo.
Por suposto, tenho dedos; entretanto, penso. A fumaça vai atiçar a colmeia. E rebeldes por natureza, as abelhas partirão pra cima. Não vão calcular nada. O fumacê irá liquidá-las. Pode-se louvar a bravura. Contudo, dessa vez, a intuição faz antever que o razoável talvez não venha a ser. E não fosse a morte, a vida resolveria pouco. Certo?
Nada de fogo, chove. E como.
Baratas voam. Ratos correm. Serpentes se posicionam. Aranhas tecem teias. À mosca, tanto faz. Vírus e bactérias tomam partido, em mim. Justamente: em mim. Faz sentido.
Que dilúvio! Água barrenta enlouquece? Ave, Terra.
Às portas do carnaval, entendo Momo. Finjo que digito de olho no que faço. Vem o mel à boca, que gostoso. Assumo minha queda pela torta holandesa do Planeta Doce. Tenho esta boca; conheço o mundo pelo açúcar, e por suas consequências.
Olha o foco, Fellini 69. Hein?
Quando a língua queima ― vão-se as palavras, vale a escrita.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de fevereiro de 2020.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O futuro é agora


O futuro é agora

A convite da carne, levarei a minha noite tomar sol. Ponho pressa, cerro a janela. Vai dar tempo, e vou fazê-lo dar. Que a alvorada pariu o bem-te-vi seguindo desígnios de coisas naturais, fato; coube a mim não ouvi-lo no esplendor da cantoria. Quero a minha, canto-a.
Nos fones que posso, sento navegar O bêbado e a equilibrista da Maria João. Sem bufar um tchau aos ônibus, salto na Avenida.
Aporto à beira da realidade, que, gaiata, pisca os jornais. Os olhos acreditam no que vejo, quero crê-los operantes. Evidente, a pegada desferida por O Globo que põe a senhora a fazer confetes de algum papelório sobre aquele homenzinho.
Sabe me dizer as horas? Sei. Então, que hora é?
É hora de dizer umas verdades sobre o que tem me deixado muito quieto. Sim, quando toco pelas veredas do pensamento, as ideias em convulsão é que me pegam para estátua. É assim que a minha mente funciona: quanto maior o silêncio, maior a tagarelice.
Mas blá-blá-blá que só faz olhar pro copo d’água não mata a sede. Com o extermínio climático de nem molhar o bico, hoje, mata-se.
Por isso, sei lá se crônica pode tirar a leitora ou o leitor da zona de confronto para que amenidades do dia a dia façam pensar. Mas botar a cabeça para pensar em quê?
Confiro que emudeço quando o vento muda de lado, e mais frio.
Se ficar imaginando um jeito decente de viver, não vivo. Tudo bem essa pessoa vir barrar a minha jornada interior. Não pergunto, ela fala sofrer de uma revolucionária doença respiratória. Os governos dizem tratar-se de anarquismo. Na dúvida, prefere viver entre as frestas de ruas e praias, uma vez que sente as alucinações querendo torná-la num monstro. Em ambientes fechados, os cascos e os cornos pedem sangue. Hemofóbica, porém, repagina-se a uma parede de distância de si. Não uma parede qualquer, posto que tem vidro fumê. E precisa da vista pro mar. Mas cheia de remorsos, com uma história esquisita, porque está coberta de fotos de gente morta que não para de sofrer. O que explica o sorriso explícito, de felicidade patogênica.
Lindo mesmo só o sol. E o sol não está fácil, percebe-se. Muita luz de verão produz criaturas que caminham a demandar cigarro; outras, a pinga a quem pode os trocados. Ocorre-me um brilho, entro no meu caminho e passo rente. Não nego o outro que não nego em mim.
Vão aonde? Ziguezagueando de bêbados, cambaios de pústulas, verdes de fome, brancos de pânico, sacolas de trecos e mochilas de troços. Juntam-se aos cães, na praia. Tudo isso pra quê?
Então, crianças, mulheres e homens vibram na areia. No momento preciso, a gente aplaude. Todo dia, sem esperanças rotuladas.
Um crepúsculo, um aplauso.
Amanhã, sem a licença dos drones do mundo, o sol faz a volta. E para dizer o corpo da realidade, longe de capas sem manchete, entra o sol que abraça e beija.
Com sua sombrinha de nuvens, a vida toca a bailar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de fevereiro de 2020.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Silêncio


Silêncio

Não é que tem coisa que acontece na vida da gente que fica difícil de não chamar coincidência? Pois, estou no Sebo Café em conversa amistosa sobre livros e fatos da vida. A interlocutora, lá pelas tantas, diz ter nascido em Sarapuí, mesma cidade onde nasceu a minha avó paterna. Acrescenta que fez jornalismo na PUC/SP, fiz ECA mas não me graduei. Pra meu espanto, ela comentou que teve aulas com um professor sensacional de física, o Robortella. No Anglo de Sorocaba? Sim, no prédio que ficava no Além Ponte. Oxe. Numa crônica, tasquei a antiga sede do pré-vestibular numa avenida muito movimentada, e bem longe do endereço dos 80.
Morcegos viralizam; coincidências, não.
Uma amiga, que tomava parte do papo, disse que gostaria de ser mosquinha com o poder extraordinário de materializar-se nas cenas que julga dramáticas da humanidade. Por exemplo: estar na macieira quando Eva perguntará pra serpente se comer daquele fruto antes do almoço não irá tirar o apetite; que teria dito o Goethe pro Beethoven quando umas moças assanhadas atreveram-se a bagunçar a vasta cabeleira do Surdo da Nona; que raio, de arma na mão, o dr. Getúlio de pijamas dando uma que não vê seu anjo tapando o rosto pra não virar cúmplice da cena patética que o NENEM nem cobra mais.
Mas, tergiverso. A questão que pretendo pôr mesmo no papel fala que outra entidade metafísica, digo, uma alma, consegue silenciar-se no corpo de qualquer pessoa em qualquer tempo, de acordo com sua curiosidade de momento.
Não sendo mosca nem ocupando espaço, ela não corre o risco de rolar em escada molhada nem de morrer com chinelada certeira.
Xô! Que o sopro vem da palavra. Por meio dela dá-se a ver o que não está visível, ou que podia ter estado ou o que poderá vir a estar. Só tem que a linguagem precisa estar de acordo com a mensagem.
A ideia por detrás do que se afirma?
Não tem culpa o lápis, culpemos o escritor. Não tem culpa o micro, culpemos o cérebro do escritor. Não tem culpa o livro, joguemos na conta do editor. Não tem culpa a história, façamos culpado o leitor. Se não houvesse leitor, não haveria fábrica de lápis. Assim, o círculo se fecha e podemos culpar o universo em cujo interior vive este homem dado a mordiscar o toquinho de madeira com grafite dentro, por cuja ponta escapolem ideias que precisam de palavras bem orquestradas pra poder convencer que é possível ficar ligado num monte de coisa escrita, como se a vida pudesse seguir ligada ao cosmo através deste objeto mágico chamado livro.
Se livro conta história que não é a de quem a lê nem a da pessoa que tenha escrito a dita cuja?
Vamos regredir. Voltemos pra vida dos pais de quem lê a história. Afinal, a história é bicho que morde o próprio rabo. Além disso, temos de pôr a culpa em alguém. Portanto, culpemos a Adão e Eva.
Tem mais. Sabe aquela árvore caída no quintal?
Culpa do jardineiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de fevereiro de 2020.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Sábio sabiá


Sábio sabiá

Conhecendo de antemão qual a resposta, faço novas perguntas.
Soltou o homem, sem ao menos checar se alguém tinha interesse em escutá-lo. Sua audiência resultava em mim, o único sentado perto do camará estirado sob um coqueiro, na areia.
Pegou-me no meio da prosa, de mim pra comigo. Sou desses que pedem ao vento vir depois do almoço, reclamam do mar ronronante, saúdam a felicidade que dá nos cães.
Podia ouvi-lo, mas lhufas de pular pra sua rede.
Longe de longa porque eterna, a vida está por um fio, o instante.
Desconfiado de que acabaria enredado naquilo, me ocorreu tomar meu sorvetinho em outra parada. Nem parecia que iria ficar, e fiquei. Pela estupidez, dou trela a quem fala; relapso, não convém a mim o silêncio. Talvez pelo modo dele falar, queria mais. Daí, peguei numa birra de empacar, já curioso.
O mundo levando pro beleléu o Watching the wheels.
Nem percebi, mas paranoia, quando tem sustância, pega fácil. Eis a esperança atirada no ventilador. E espalhada, haja nojo. Pelo cheiro, asfixia. Entrei pelo desvio de quem desconfia que não tem volta, que é pra valer, que a mais recentíssima pandemia mexe fundo em quem teme morrer. Fora de hora, porque a qualquer momento.
Antes, porém, de carimbar a extinção da espécie humana tal qual a conheço, ou conhecia até há pouco, a humanidade que aconchego em mim aceita que o mundo anda zoado. O feijão no fogo, pra nada. A camiseta do Che, até ela. Perdida a lógica de não ter lógica, fato. E a riqueza do planeta, vão-se jabutis, saguis, muricis. A estufa sufoca, corroboro. A abóboda virada em sauna, assevero. O homem precisa ver pra enxergar. Pra efeito retórico, os mais irados pegam em leques e os mais sensatos aderem a pileques. Pra já, desfaço o plano de ter as minhas cinzas alimentando o plâncton do oceano.
E tomei pé das eras. Me faltava juízo.
Melhor correr pra outro sorvete, mas a fila denunciava que as pás do ventilador têm girado ao revés. Então, a caçulinha de Pandora tá com jeito de quem não quer papo? E não tem mais jeito? Que tortura negar a última bola de baunilha na última ceia. Adeus, esperança? Se agora é tarde, tudo fica proibido. Pois atire a primeira pedra quem não dá valor à vidraça. Mas estrago não volta que nem bumerangue?
Tais ideias me deixavam tonto. Nem sei a que vim, mas vim. Tinha contas pra pagar? Estava por aí por que estava por aqui? Seria falta de propósito o que comeu a manhã? Da delícia da casquinha à hora de rangar gostoso. E pedrada não adianta ficar soprando, só passa tirando a barriga do ronco.
Como sopro súbito arrasta, pulsão de noroeste bombando, voltei.
Agradecido, sentia-me bem pelo esclarecimento. O apocalipse às portas não me faz perder a educação. Mas os bons modos ficaram a ver navio.
No coqueiro sombreando o colchão, um sabiá sabia assobiar. E tal sabedoria soou linda, uma maravilha, e tudo mais.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de fevereiro de 2020.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sonho estranho


Sonho estranho

Nesta Ilha de Vera Cruz, de encastelados sem castelo, verdades morrem feito fatos inevitáveis, portanto lamentáveis. Se há motivo pra untar com mel os destronados que ululam merecer umas picadas de abelha? Não, nem por viver em país onde fantasma se aposenta.
Na minha cabeça, não arrasto correntes nem assombro os porões. Todavia, espumo absurdos quando, por aí, reafirma-se a lógica deste chão que, em nome do pobre, gera misérias.
Tudo sob controle, naturalmente. E nas mãos de quem há séculos vem ditando a ordem do dia, claro. Não fosse isso, não viriam abaixo árvores no Pico do Jaraguá. Para que os futuros moradores, de baixa renda mas humanos como nós, regozijem-se da justiça empreendida, os visionários doarão mudas pro viveiro da Capital, obviamente.
O caos desdenha da matemática que só leva em conta a precisão do cálculo. Sem querer passar a ideias de alucinação, porém, nutre a vida com acasos e estranhamentos. Tanto quanto a paixão orienta-se pelas razões sem lastro no previsível, faz ler 13 o 31.
E agora, nesta sexta que vem antes do sábado que vem antes do domingo, leio que vai ter alegria, melancolia e poesia, com o Bituca e os seus canoeiros.
Bem que tento ouvir o meu coração bater sem medo, ao ritmo do vento solar. Quero e posso dizer que há 48 anos o Clube da Esquina também anda comigo. Pode-se curtir, na TV rola em seis capítulos, o bocadinho da nuvem cigana que Milton Nascimento trouxe à ventania da travessia, sob as asas da Panair.
Como pérolas não flutuam à linha do espelho, mergulho.
Daí que, nas ruas desta PG 2020, tomando chuva no lombo, vem outra. E me arrasta, sei lá, pra quando ia indo ver o Calígula do Tinto Brass, num cinema em Sorocaba.
Mas o detalhe que não deixo fugir, como o saci das matas, é que a identidade para assistir ao filme era exigência do juizado, uma vez que a senha da porta cobrava a idade. Traduzindo? 18 a partir de 81.
Se tem 82 que projeta Sarriá, o meu desencava outras ossadas.
Após o proibido pra menores, ia ter aula do Pasquale no cursinho, no Campolim, no sopé do Esplanada. Ora, como quem ama o que faz sabe brincar, o mestre jogou fundo em mim que é preciso cantar.
Tento cantar, e tento.
Agora, aqui nesta crônica assinada neste domingo, rememoro que o meu pai, como presente de aniversário, nos 81 dos 18, passou pro meu nome a assinatura da Folha de SP.
E faço questão de unir os fios soltos, afinal “a estupidez não mata, faz-nos sábios”, já dizia alguém que ainda vive em mim porque tenho decorado o que só esqueço pra poder lembrar e esquecer. Sem eco.
Memória, possa abraçá-la daqui, à beira da noite. Mãe das musas, permita-me fazer novo o que já se cantou, já ainda canta. Que o vivo vá pelo passado; que o morto molde seu barro; que me espantam as águas da vida.
Porque traz a poeira no ombro, o louco morde o bafo da lua.
E nem assim o pastel acorda?
Avá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de fevereiro de 2020.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Cerva de pedra


Cerva de pedra

Parece domingo! A selva selvagem que pulsa. Feito temporal que se forma logo ali, pelas bandas de Bertioga, com pinta de ir desaguar lá nos ipirangas de Piratininga.
Piedoso, este toró cai macio, molhando as pessoas que se deixam molhar, as que tomam sorvete e as que o revendem. Mesmo com as dicas da brisa e das nuvens chumbo, zanzam.
Passa o carrinho de mercado, com três cachorros desconcertando a formação. Os malabares ralam aos pés do semáforo que nem pisca uns trocados. Dos colchões que vão encarar a noite sob a coberta da avenida, uns pouco a fim de pulgas e piolhos de outras calçadas.
Fique registrado, pros posteriores cruzamentos estatísticos, que a hora parece que não passa justamente por causa deste desenfreado frenesi, resmungam tulipas e canecas.
Como sou de cuidar da própria vida, não embarco nesse bondinho de pneu furado. Tenho de ir, então vou indo. Flanando, vou na levada de quem está ligado, sim, pro chope quatro queijos.
Com uma sinceridade francamente inesperada, digo que a minha infância acabou no exato instante em que passei a paparicar a cerva. O que, de maneira alguma, não envilece nem engrandece quem bebe umazinha ao meio-dia duma terça. Que isso me posiciona no mundo.
Dito assim, sem o mimo da preparação das palavras que digam o inferno que já é, parece exagero. Mas vivo, e demasiado.
Assim, com humildade sutilmente convicta, confesso que a minha maturidade começa justo neste momento, em que tomo o partido da consciência. Ora, foi o tempo em que entornava vinho no sangue.
E daí?
Preciso tirar férias do tempo. Faz uma eternidade que estou a um passo de alguma coisa que ainda não fiz. Como agir? Bebendo mais. Mais. Mas, por que o porre não corta a lucidez que não dorme? Oxe, minha cabeça precisa descansar um tanto, ou vou pirar.
Então, com uma submissão civilizadamente comum, topo contar a vida a partir do ponto que menos cause engulhos mórbidos e desejos galantes. Assim é que...
Pode ir parando, porque sua ladainha não enche barriga de pobre. Já gorou o chope. E isso de ficar falando da calçada como se fosse a Avenida fosse o Boqueirão fosse Praia Grande fosse São Paulo fosse o Brasil fosse a humanidade, que injustamente entra na sua valsa pra ficar parando o carrossel. Como se ciranda de retirantes valesse uma selfie, tenha dó.
Opa. Quem escreve a crônica?
Não é porque ando legal das coronárias que me recuso a cair de boca na fria desse disco riscado nem porque não dá pra tirar loira da pedra, o desprezo de sempre não tem de descer, sequer redondo.
De acordo com esta urbana cidadania, sabotagem é querer digerir Mephisto passando pela minha cabeça bem na hora do apagão.
Sentado no meio-fio, o futuro desconfia. Ainda perplexos, os olhos de mágoas novas interrogam. Se dor passa com arroz? Como que os carros comem as pipas? Quando o mar entrou no meu xixi?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de janeiro de 2020.