sábado, 7 de março de 2020

A concha


A concha

Carente de mundo, quer deliciar-se com o Atlântico. Sem telefone. Despido dos compromissos inapeláveis. Munido de guarda-chuva, já que chove muito. De alguma maneira, aconteça menos recalcitrante no esqueleto. Ferido de rotina, com cada osso a cobrar a sua parte às articulações. Faça-se outra, dona terça.
No desgaste compulsório de viver, move-se.
Mendigando mesmo outros apegos, que não as consternações de praxe, encasqueta. Cuidando para que o calçadão ignore o distúrbio. Sem o obséquio de alguma ternura incontrolável. Disposto a acarear o dia. Deixa molhar a ponta do tênis e uns dedos da barra.
Faz pouco do caso. Que o olhar recorte fatias da realidade. Hábito antigo, desprazer recente. Tem consciência disso, e sofre. Recusa-se a alimentar-se de retalhos forçados a incongruências, ao disparate de cavar buracos pra torná-los explícitos.
Insatisfeito, porém discreto. Tratando de manter-se incorporado ao ambiente. Embora os olhos famintos seccionem, e segreguem.
Quando da intuição do erro? Fecha-os, não os cega.
Tarde demais.
Na beira-mar, um vulto. De costas pra avenida.
A tal figura gera o mal-estar. Nem esboça aproximar-se. De longe, interpreta-a. Melancolicamente, parada. Ainda que tema o naufrágio, navega em pensamento. Angústias sufocam sob o guarda-chuva.
Capaz de um truque, percebe qual há de vir a ser.
O sujeito transpira segundas intenções. Manipulador, toma pra si a sedução. Quer que se acredite capaz de consumar uma daquelas.
Sem pedir socorro, vira-se. Há duas pombas ao alcance do chute, que não simula. Como no mundo muita coisa acontece, dirige o olhar de quem o observa. Permite-se a bobeira de compactuar com aquilo.
Então, a escada do posto dos bombeiros torna-se repulsiva. Tem vontade de cuspir no oceano. Só o fato de pensar em não gritar já se faz enlouquecedor. Há fantasmas que não sabem nadar, todavia.
Esta chuva. Tanta água. Por muito pouco, espuma.
Que não surja nenhum guarda-vidas. Dispensável chamá-lo. Pois, o que se há de contar que já não horrorize o bastante?
A história não mente: sofrendo humores, homem some no ar.
Poderia deixar quieto. Ir saciar-se de comida árabe. Mas, a rua em obras; o barulho das máquinas; a algaravia dos operários. A manhã é infatigável, de fato.
Dá para imaginar.
Quem vive a contar histórias solta o corpo no mundo, vai entre as pessoas. Olha, escuta, sente cheiros, engole o brigadeiro, assopra as feridas pútridas. E nojento, chega a lamber a boca.
O que o faz humano, e vicia.
Tanto ao refugiar-se em ruas e ônibus, como ao bloquear e lacrar. Isso, mais o mar que engasga com os algoritmos aptos a seduzir às compras. E o que dizem as pegadas na praia?
Prossiga no encalço, Watson. Talvez se veja aonde isso vai dar.
Porém, por estupidez crônica, pergunte-se ao mar como encerrar 282 mm de chuva numa concha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário