quarta-feira, 4 de março de 2020

A montanha


A montanha

Apressado. Atrasado. Atarantado comigo. Ai, ai, ai.
Ia preso ao destino, precisando chegar antes do início da reunião, que começaria logo. Faz parte o mundo seguir no respeito às próprias maquinações. Deu o horário? A equipe tinha o propósito, a disciplina, daria início e pronto. Que fosse o caso; havendo quem considerasse atrasos um desplante, abria-se vaga a ser ocupada por outrem.
Pela hipótese, haja fôlego. Desviando de fezes, fui. De pulo aceso nas pernas ligeiras, tendo à vista buracos puláveis, fui. Há as crateras com água, ainda mais com as chuvas dos últimos dias, daí o jeito foi passar ao lado, sem dar uma de João do Pulo.
Empenhei-me em ir, até o poste em questão surgir do nada. Bem na fuça. Disposto a derrubar quem pegasse pelo caminho, tornei-me vítima sua. Sem escolha, estatelei no chão molhado.
Que chovia ontem, como hoje chove, e também haverá de chover amanhã. Mudou o quê? Ô aquecimento global que só faz chuva.
O efeito estufa o brio da minha vergonha, choro de raiva. Mordo o lábio inferior. Ê vício adquirido nas priscas eras. Sobre as quais, aliás, pouco sei dizer pra onde foram, e se continuam lá.
Ontem e hoje ainda e amanhã também, só para reforçar a ênfase, enfiei na cara um ódio dos mais sinceros. E a quem dirigi a fúria?
O poste foi o primeiro que mandei tomar garapa. Com açúcar pra azedar sua diabete. Com muito rancor pra destemperar de vez o dia, sustentei a praga. Contrafeito, na agonia, magoado. Poste do cão!
Julgo mal um poste dignar-se a pegadinhas do tipo. Com a pessoa tendo compromisso, dar com os fundilhos nas águas do verão?
Verão, no calendário. Tem frio, garoa, resfriado, caldo verde. Item a item, com metros cúbicos de lamentações. Ora, ora, sem poder vê-la, estarei subindo a montanha com a paixão destes meus passos?
Um por vez. E somando um e diminuindo um. Não se sujeitando a subtrações nem a adições que anulem a questão.
Existirá tal desenvolvimento? Um entendimento de ir além de lugar e tempo estando neste lugar e tempo? O palco. Da vida e do mundo. Aqui, a cama a rua a fila do caixa o banco da praça o brinde. Agora, o post a canção o jornal a rosa do povo a saudade.
E o que se ignora? A dor desprepara pra próxima. Porque o corpo instala a percepção. Pela experiência, o súbito fica disponível para a carga do imprevisto. Quando a topada derrubar, terei o argumento da vivência. Sobre os ombros, irei carregar a dor do vivenciado.
Certo de estar vendo melhor por ter vivido a queda, caio. Com a consciência indignada, condicionada a saber por experiência própria o significado de cair. Mas, de novo?
A idade não documenta o ridículo. A vida faz-se.
Assim, esta criança segue brincando a infância que muda porque estou em mudança. Leitor da vida, na leitura do mundo, e pela escrita a cada gesto e pensamento. Estou vivo, logo vivo. Faço-me.
E tão aparentado comigo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2020.

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