A
montanha
Apressado. Atrasado. Atarantado
comigo. Ai, ai, ai.
Ia preso ao destino, precisando chegar
antes do início da reunião, que começaria logo. Faz parte o mundo seguir no
respeito às próprias maquinações. Deu o horário? A equipe tinha o propósito, a
disciplina, daria início e pronto. Que fosse o caso; havendo quem considerasse atrasos
um desplante, abria-se vaga a ser ocupada por outrem.
Pela hipótese, haja fôlego. Desviando
de fezes, fui. De pulo aceso nas pernas ligeiras, tendo à vista buracos
puláveis, fui. Há as crateras com água, ainda mais com as chuvas dos últimos
dias, daí o jeito foi passar ao lado, sem dar uma de João do Pulo.
Empenhei-me em ir, até o poste em
questão surgir do nada. Bem na fuça. Disposto a derrubar quem pegasse pelo
caminho, tornei-me vítima sua. Sem escolha, estatelei no chão molhado.
Que chovia ontem, como hoje chove, e também
haverá de chover amanhã. Mudou o quê? Ô aquecimento global que só faz chuva.
O efeito estufa o brio da minha
vergonha, choro de raiva. Mordo o lábio inferior. Ê vício adquirido nas priscas
eras. Sobre as quais, aliás, pouco sei dizer pra onde foram, e se continuam lá.
Ontem e hoje ainda e amanhã também, só
para reforçar a ênfase, enfiei na cara um ódio dos mais sinceros. E a quem dirigi
a fúria?
O poste foi o primeiro que mandei
tomar garapa. Com açúcar pra azedar sua diabete. Com muito rancor pra
destemperar de vez o dia, sustentei a praga. Contrafeito, na agonia, magoado.
Poste do cão!
Julgo mal um poste dignar-se a
pegadinhas do tipo. Com a pessoa tendo compromisso, dar com os fundilhos nas
águas do verão?
Verão, no calendário. Tem frio, garoa,
resfriado, caldo verde. Item a item, com metros cúbicos de lamentações. Ora, ora,
sem poder vê-la, estarei subindo a montanha com a paixão destes meus passos?
Um por vez. E somando um e diminuindo
um. Não se sujeitando a subtrações nem a adições que anulem a questão.
Existirá tal desenvolvimento? Um
entendimento de ir além de lugar e tempo estando neste lugar e tempo? O palco. Da
vida e do mundo. Aqui, a cama a rua a fila do caixa o banco da praça o brinde. Agora,
o post a canção o jornal a rosa do povo a saudade.
E o que se ignora? A dor desprepara pra
próxima. Porque o corpo instala a percepção. Pela experiência, o súbito fica disponível
para a carga do imprevisto. Quando a topada derrubar, terei o argumento da
vivência. Sobre os ombros, irei carregar a dor do vivenciado.
Certo de estar vendo melhor por ter
vivido a queda, caio. Com a consciência indignada, condicionada a saber por
experiência própria o significado de cair. Mas, de novo?
A idade não documenta o ridículo. A vida
faz-se.
Assim, esta criança segue brincando a
infância que muda porque estou em mudança. Leitor da vida, na leitura do mundo,
e pela escrita a cada gesto e pensamento. Estou vivo, logo vivo. Faço-me.
E tão aparentado comigo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2020.
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